22 julho 2013

Montaigne, Michel de

Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) nasceu e morreu na França. Seu pai era um rico comerciante de vinho, o qual teve oportunidade de proporcionar-lhe educação esmerada, sendo que, aos 13 anos de idade, sabia mais latim do que francês. Montaigne ficou famoso pelos seus Ensaios, dividido em três livros, escritos de 1580 a 1588.

Montaigne surge num cenário de guerras religiosas. Dessas amargas experiências, escreve a sua obra Ensaios. Foi o primeiro filósofo a inaugurar os ensaios sem classificação alguma. A sua única preocupação era a de registrar a tensão formada em seu ser, em seu pensamento. As suas ideias eram fundamentadas nos grandes escritores do passado, principalmente Plutarco. Os pensadores estoicos influenciaram-no sobremaneira.

Toda a filosofia de Montaigne está condensada no lema socrático: Que sais-je? ("O que é que eu sei?"), que ele mesmo mandou cunhar numa moeda. Este lema explica-se pelo ceticismo. Trata a filosofia como um saber presunçoso. "A presunção é nossa doença natural e original", e a filosofia em seus altos voos metafísicos, é apenas um produto da vaidade humana. A razão, pensa Montaigne, não pode alcançar certeza alguma, mas o homem tem de se acostumar a viver na incerteza, e suportá-la estoicamente.

O tema central dos Ensaios é o conhecimento de si mesmo. Partia de si mesmo, tentando uma generalização do ser humano. Aproveitava o ensejo para combater o egoísmo e o preconceito que grassava na sociedade. Embora acenasse para uma volta sobre si mesmo, não queria de modo algum esquecer o poder dos costumes. Segundo ele, há uma universalidade do costume, que se torna uma segunda natureza; o que não é universal é o conteúdo desse costumes. Criticava, assim, a redução de nossos sistemas de crenças a meros costumes e opiniões pessoais.


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20 julho 2013

Pascal, Blaise

Blaise Pascal (1623-1662) foi matemático, cristão e filósofo. Escreveu várias obras científicas. Os Pensamentos, ideias condensadas em fórmulas curtas e fortes, porém, é seu trabalho mais conhecido.

O ponto central de sua filosofia: contestar as pretensões da razão filosófica e científica de alcançar a verdade total. Para ele, embora a ciência tenha um poder extraordinário, ela não é capaz de explicar a origem do Espírito e do Universo. Tem pouco apreço pelos argumentos filosóficos que procuram atestar a existência de Deus. “O homem não pode entender o que é a corporeidade e menos ainda o que é espírito e, de maneira alguma, como um corpo pode estar unido a um espírito”.

Pascal distingue dois tipos de razão, a do silogismo e a do coração. Por isso, ele diz: “O coração tem razões que a própria razão desconhece.” Para explicar as razões do coração, escreve: com o coração “conhecemos os primeiros princípios e é em vão que o raciocínio, que não participa deles, tenta combatê-los”. Com o coração se alcança a certeza de uma forma “totalmente interior e imediata”. Entende que o coração é uma faculdade como a própria razão o é.

A vida do ser humano é miséria e morte, mas também dimensão pensante. Pode ser destruído por um sopro de vento, mas também é dotado de consciência. “... mesmo que o universo o destruísse, o homem ainda seria mais nobre do que aquilo que o mata. Porque sabe que morre, e o que o Universo tem de vantagem sobre ele, e o Universo não sabe nada disso”.

A aposta de Pascal. Ao homem coloca-se uma dupla alternativa: Deus existe ou não existe, e é preciso apostar em uma delas, como num jogo. As vantagens a favor da primeira alternativa (Deus existe) são indiscutíveis: no caso de ganhar, o homem ganha uma existência infinita; e, no caso de perder, não perde nada.

Os Pensamentos, redigido após a sua morte por parentes e amigos, tem uma tese central, que é a proeminência da religião sobre a filosofia e a ciência. A intenção de Pascal era a de sensibilizar os incrédulos. Pascal tem que usar a razão e a argumentação, únicos instrumentos que seu interlocutor reconhece. Vislumbra o tema miséria e grandeza do homem e pensa essa contradição. A obra pode ser considerada, também, uma crítica ao racionalismo de Descartes. Nesse sentido, usando o solo da razão e da experiência para investigar a condição humana, diz: "O coração tem suas razões que a razão não conhece".

Fonte de Consulta

TEMÁTICA BARSA - Filosofia. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.




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19 julho 2013

As Nuvens: Aristófanes

Para compreendermos como a filosofia de Sócrates o levou à morte, devemos nos valer da comédia de Aristófanes, As Nuvens, que criou uma “morte de Sócrates” ficcional, cerca de 12 anos antes do julgamento. Platão, inclusive, diz que essa peça teve importância capital na condenação de Sócrates.

É uma comédia sobre Estrepsíades, que fez dívidas enormes, por causa de sua mulher (esbanjadora) e de seu filho (admirador de cavalos). Estrepsíades inscreve-se como aluno de um sofista, para aprender “a transformar um argumento fraco em argumento forte” e, com isso, livrar-se de seus credores. O sofista escolhido é Sócrates, que tem a cabeça nas “nuvens”.

Estrepsíades fica satisfeito de repetir os pontos de vista de Sócrates, de que ele deveria rejeitar os velhos deuses em favor das divindades modernas. Ele, porém, se mostra muito senil para assimilar os conceitos de Sócrates. No fim, o filósofo desiste dele, como um caso perdido.

O filho de Estrepsíades, Feldípedes, parece mais capaz de aprender, mais sujeito a aceitar os ensinamentos socráticos. Ele toma o lugar de seu pai como estudante da escola. Sócrates ensina-lhe as noções do Argumento Melhor e do Argumento Pior. O Argumento Melhor diz respeito ao autocontrole, à ginástica, ao treinamento militar e às duchas frias. O Argumento Pior refere-se à esperteza, à retórica e à zombaria do autocontrole.

Estrepsíades, incentivado por Sócrates, recusa a pagar os seus credores, trapaceando-os com enganosos trocadilhos. Tornando-se igual ao seu filho, ele trata os credores como cavalos rebeldes: acoita-os com um chicote. O filho, porém, logo começa a bater no pai e ameaça bater também na mãe. Nisso, Estrepsíades percebe o erro cometido e acha que nunca deveria ter escutado Sócrates, nunca desobedecido os velhos deuses. Ele põe fogo na escola de Sócrates, matando-o, juntamente com seus alunos.

As últimas palavras de Sócrates são um clamor desesperado: “Ah, não, coitado de mim, é terrível! Vou sufocar!”

Fonte de Consulta

WILSON, Emily. A Morte de Sócrates. Tradução de Maria de Fátima Siqueira de Madureira Marques. Rio de Janeiro: Record, 2013.


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18 julho 2013

Filosofia à Moda Clássica

As necessidades humanas podem ser agrupadas em quatro grandes áreas: arte, ciência, política e religião. A sabedoria consiste em fazer uma síntese desses conhecimentos, síntese esta que deve abarcar os quatro ângulos simultaneamente, ou seja, qualquer assunto pode e deve ser tratado sob os quatro pontos de vista. É isso que dá equilíbrio ao ser humano.

A filosofia à moda clássica deve ser vista como a busca da sabedoria. Observe que Pitágoras não se colocava como sábio, mas buscador de sabedoria. Nesse sentido, todos nós somos filósofos, porque todos nós procuramos sabedoria. Esta sabedoria, que sintetiza as quatro grandes áreas, pode ser vista em qualquer circunstância. Na perspectiva de uma palestra, há o auditório e o palco (arte), os aparelhos de som e recursos audiovisuais (ciência), a empatia do orador com o público (política) e a confiança do orador (religião) que a palestra será proferida.

A sabedoria pode se tornar capenga quando as quatro áreas não se desenvolvem harmonicamente. É o caso do indivíduo que se dedica somente à religião, desprezando as outras três áreas: ele pode se transformar num dogmático fanático. Do mesmo modo é o cientista, que se preocupa somente com suas equações, sem dar atenção ao mistério, que é a religião. O mesmo raciocínio se estende à arte e à política. O correto é buscarmos a unidade, a síntese de todo o conhecimento humano.

Para que haja uma boa compreensão dessa filosofia à moda clássica, devemos partir de uma metodologia filosófica, de uma tradição, pois aqueles que nos precederam já descobriram verdades, que podem ser úteis ao nosso processo de aprendizagem. Partamos sempre do conhecido para o desconhecido. Não é conveniente fazermos filosofia de boteco, ou seja, cada um fala o que lhe vier na telha. A filosofia não se prende à razão, mas usa-a para racionalizar as ideias, os conceitos.

Para a construção do conhecimento a filosofia faz uso da dialética, no sentido de nos libertar dos preconceitos, das dúvidas e dos medos. Quando refletimos sobre esse tipo de sabedoria, estamos trabalhando no campo da educação, que é pôr em prática o que se conheceu dialeticamente. Não é seguir, copiar, mas raciocinar com os próprios recursos pessoais. Esta era a metodologia de Sócrates quando se deparava com alguém que não sabia determinado assunto. De pergunta em pergunta, fazia o interlocutor se lembrar do que já conhecia.

A filosofia à moda clássica mostra-nos que há um justo meio, que é justiça, que é a política e que precisa da ética: relação perfeita do ser humano consigo próprio, com o meio e com o universo. Quando aplica isso a si mesmo desenvolve o senso moral, que se traduz pela vivência da filosofia. 

Para mais informações, assista ao vídeo:
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15 julho 2013

Galilei, Galileu

“A astronomia compele a alma a olhar para o alto e nos transporta deste mundo para outro.”
 (Platão)

Galileu Galilei (1564-1642) nasceu em Pisa e estudou em Florença. Tornou-se célebre como astrônomo, tendo sido inventor do primeiro telescópio. Entrou em choque com a Inquisição. Conseguiu escapar à morte prometendo não pregar que o Sol era o centro do Universo.

O grande pioneiro da astronomia telescópica foi Galileu. Contrariando a suposição de um Céu perfeito e harmônico, mostrou que a superfície da Lua era marcada por crateras e montanhas, não uma esfera plana, polida. Descobriu que Júpiter era orbitado por quatro luas, hoje conhecidas como satélites galileanos. Descobriu ainda que Vênus tem fases, prova de que orbita o Sol. Vislumbrou os anéis de Saturno.

Galileu permanece na história como um divisor de águas no pensamento científico, tanto por suas descobertas como por ter lançado as bases de uma nova metodologia científica. Observe que a partir do século XVI, o progresso científico retoma o seu vigor, fornecendo às ciências a conciliação entre a teoria e a experimentação. Com Galileu, além da observação e da criação de modelos, acrescentou a organização da experiência e o desenvolvimento de aparelhos. Os instrumentos foram os grandes auxiliares no desenvolvimento de todas as ciências.

Depois de pedir licença ao papa para escrever uma obra de comparação entre os dois sistemas do mundo, Galileu a publica, em 1632, com o seguinte título: Dialogo sopra i due massimi del mundo (Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo), em que confronta os sistemas ptolomaico e coperniciano. Dando ênfase ao segundo, causou grande celeuma. Os opositores de Galileu denunciaram a obra como contrária às Escrituras. Intimado pelo Santo Ofício, ou seja, a Inquisição, abjurou para evitar uma condenação maior.

Durante os 20 dias do processo, Galileu pouco se defendeu. Foi levado perante o tribunal e, de joelhos, pronunciou a abjuração da sua doutrina. Pretende a tradição que ao levantar-se, Galileu bateu com o pé no chão, exclamando: E pur, si muove! (E todavia, move-se!). Morreu cego, sob os olhos vigilantes da Inquisição.
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03 julho 2013

Apologia de Sócrates

Apologia é um discurso ou escrito laudatório que tem por fim justificar ou defender alguém ou alguma coisa. A Apologia de Sócrates é a obra escrita por Platão depois da morte de seu mestre (399 a.C.). Platão imagina Sócrates defendendo-se diante dos juízes que o condenaram à morte por corromper a juventude e introduzir divindades estrangeiras. 

Platão estrutura a defesa de Sócrates em quatro partes: 1.ª o acusado dirige-se ao júri referindo-se às pessoas de seus acusadores e às acusações feitas: sedução da juventude e impiedade; 2.ª o acusado dirige-se ao principal acusador, ou seja, Meleto; 3.ª o acusado, já ciente de que foi julgado culpado e condenado à morte, dirige-se outra vez ao júri; 4.ª condenado à morte, entrega os seus juízes ao julgamento da posteridade.

O conteúdo da Apologia é atípico. Na época os sofistas, que cobravam pela disseminação de seu saber, preparavam os seus alunos, não para disseminar a verdade, mas para ganhar a discussão. Baseavam-se no seguinte raciocínio: tornar o argumento fraco o mais forte possível. Sócrates, em sua defesa, fez o contrário, ou seja, usou de simplicidade, coerência e sem floreios. 

Eis um trecho do livro: “... se sentirdes que me defendo com os mesmos raciocínios com os quais costumo falar nas feiras, ou nos lugares onde muitos de vós me tendes ouvido, não vos espanteis por isso, nem provoqueis clamor, porquanto, é esta a primeira vez que me apresento diante de um tribunal, e com mais de setenta anos de idade! Por isso, sou quase estranho ao modo de falar daqui. Se eu fosse realmente um estrangeiro, sem dúvida, me perdoaríeis, se eu falasse na língua e da maneira pelas quais tivesse sido educado; assim também agora vos peço uma coisa que me parece justa: permiti-me, em primeiro lugar, o meu modo de falar – e poderá ser pior, ou mesmo melhor – depois, considerai o seguinte e só prestai atenção a isto: se o que eu digo é justo ou não. Essa, de fato, é a virtude do juiz, do orador: dizer a verdade.” 

Para explicar a sua ocupação de filósofo, parte da afirmação do oráculo, que o considerava o mais sábio dos homens. Se o oráculo diz isso, deve ser verdadeiro, pensava. Em seguida, começou a questionar os que sabiam algo e chegava à conclusão de que não sabiam o que pensavam saber. Este método denominou-se “maiêutica” que, à semelhança de sua mãe (parteira), daria luz às novas ideias. 

Para se defender da acusação de que corrompia os jovens, alegou que os jovens o seguiam de livre e espontânea vontade. E o seguiam porque Sócrates os ensinava a pensar com a própria cabeça. Para se defender da acusação da impiedade, disse que obedecia ao daimon. O seu daimon começou desde a infância: “Uma voz que só se produz para me afastar do que vou fazer, mas não me impele nunca a agir”. Trata-se, pois, de uma voz que só transmite proibições divinas.

O julgamento à morte foi essencialmente de natureza política. Os jovens que conviviam com Sócrates seriam políticos em Atenas, como Crítias e Alcibíades. Não dizia respeito apenas aos indivíduos, mas tinha projeção sobre a democracia em Atenas. Possivelmente, os detentores do poder temiam que esses jovens se insurgissem contra o status quo vigente. 

Uma vez julgado e condenado, preferiu morrer a fugir da prisão. Justificou esta atitude por amor à justiça e à coerência de suas ideias. Dizia que por mais injustas que sejam as leis devemos obedecê-las, para não incitar outros a desobedecê-las. Nos últimos instantes de sua vida disse: “Mas é chegada a hora de partir: eu para a morte e vós para a vida. Quem de nós se encontra para o melhor destino, todos nós ignoramos, exceto o deus”. Somente Deus conhece a verdade.

Fonte de Consulta 

Platão. Apologia de Sócrates. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2011. (Edipro bolso)
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