22 dezembro 2013

Le Bon e a Psicologia das Multidões

"As multidões, pouco aptas ao raciocínio, mostram-se soberanas à ação." 

A multidão, em seu sentido comum, representa uma reunião de indivíduos quaisquer, independentemente de sua nacionalidade, sua profissão ou seu sexo. Psicologicamente, a multidão possui características distintas do individuo (isolado). "A personalidade consciente desaparece e forma a alma coletiva. A coletividade torna-se uma multidão psicológica. Ela forma um único ser e encontra-se submetida à lei da unidade mental das multidões".

A inconsciência e a irracionalidade estão na base de uma multidão. Geralmente, as pessoas em multidão são levadas pelo poder e contágio de um chefe, de um guru, de um líder religioso. Os tutelados ficam cegos diante da ordem do superior; apenas obedecem. Observe que individualmente não tomamos certas medidas, visto raciocinarmos e virmos que aquele ato não é correto. Em multidão, porém, falta-nos o senso crítico. Parece-nos que tudo é permitido, inclusive quebrar o bem público.  

Gustave Le Bon enfatiza o peso da raça na formação pensamento coletivo. Ele diz: "A organização de uma multidão forma-se sobre o fundo invariável e dominante da raça, sobrepõem-se algumas características novas e específicas que provocam a orientação de todos os sentimentos e pensamentos da coletividade numa direção idêntica". Por essa razão, pessoas letradas acabam tendo o mesmo comportamento do de outros integrantes da multidão. 

Le Bon aponta, pelo menos três causas, para diferenciar o indivíduo (só) de ele em grupo.  

1ª) O indivíduo na multidão adquire, exclusivamente por causa do número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado.

2ª) Contágio mental associado ao efeito hipnótico. Na multidão, todo sentimento, todo ato é contagioso, e contagioso no sentido de sacrificar o seu interesse pessoal ao interesse coletivo.

3ª) É a mais importante das causas, pois determina nos indivíduos na multidão características específicas às vezes muito opostas às do indivíduo isolado. 

Afirmação, repetição e contágio são palavras-chaves para direcionar uma multidão. A afirmação deve ser concisa, desprovida de provas e de demonstração. Pela repetição, a coisa afirmada chega a se estabelecer nos espíritos a ponto de se aceitar como uma verdade demonstrada. Depois de uma afirmação ser repetida há, ainda, a necessidade do contágio. "Nas multidões, as ideias, os sentimentos, as emoções, as crenças possuem um poder de contágio tão intenso quanto o dos micróbios". 

Fonte: Psicologia das Multidões, de Gustave Le Bon, obra de 1895. Tradução de Mariana Sérvulo da Cunha. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (Coleção Tópicos)

Gustave Le Bon, médico e sociólogo, nasceu em Nogentle-Rotrou, França, em 1841. Estudou medicina na Universidade de Paris. Escreveu, entre outros livros, L'Homme et les Societés e Les Premières Civilisations. Faleceu em 1931. 

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30 novembro 2013

Psicologia das Multidões

Notas extraídas do livro "Psicologia das multidões", de Gustave Le Bon, cuja primeira edição foi publicada em 1895.

Ideia central: a ação inconsciente das multidões substitui a atividade consciente dos indivíduos.

INTRODUÇÃO

O conhecimento da psicologia das multidões é o elemento-chave para os homens de Estado, que têm a incumbência de conduzir as pessoas para a obtenção do bem comum.

As multidões, pouco aptas ao raciocínio, mostram-se soberanas à ação. O direito divino das multidões substitui o direito divino dos reis.

Dada sua característica de ser não pensante, a multidão presta-se mais à destruição.

PRIMEIRO LIVRO
ALMA DAS MULTIDÕES

CAPÍTULO I
CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS MULTIDÕES
LEI PSICOLÓGICA DE SUA UNIDADE MENTAL


Em sentido comum, a palavra multidão representa uma reunião de indivíduos quaisquer, independentemente de sua nacionalidade, sua profissão ou seu sexo, independentemente também dos acasos que os aproximam.

Do ponto de vista psicológico, a expressão multidão adquire um significado específico: o grupo possui características distintas do individuo (isolado). A personalidade consciente desaparece e forma a alma coletiva. A coletividade torna-se uma multidão psicológica. Ela forma um único ser e encontra-se submetida à lei da unidade mental das multidões.

A organização de uma multidão forma-se sobre o fundo invariável e dominante da raça, sobrepõem-se algumas características novas e específicas que provocam a orientação de todos os sentimentos e pensamentos da coletividade numa direção idêntica. 

É fácil constatar que o indivíduo na multidão difere do indivíduo isolado. Mas quais são as causas?

Causas que determinam o surgimento das características específicas das multidões: 

1ª) O indivíduo na multidão adquire, exclusivamente por causa do número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado.

2ª) Contágio mental associado ao efeito hipnótico. Na multidão, todo sentimento, todo ato é contagioso, e contagioso no sentido de sacrificar o seu interesse pessoal ao interesse coletivo.

3ª) É a mais importante das causas, pois determina nos indivíduos na multidão características específicas às vezes muito opostas às do indivíduo isolado. 

Um exemplo: o estado de fascinação do hipnotizado nas mãos do seu hipnotizador. 

Lembrete: a multidão é sempre intelectualmente inferior ao homem isolado. Contudo, pode praticar atos comuns ou atos heroicos. 

CAPÍTULO II
SENTIMENTOS E MORALIDADE DAS MULTIDÕES


A impulsividade, a irritabilidade, a incapacidade de raciocinar, a ausência de julgamento e de espírito crítico — características específicas das multidões — são igualmente observáveis entre seres que pertencem a formas inferiores de evolução, como o selvagem e a criança

1. Impulsividade, instabilidade e irritabilidade das multidões 

A multidão é conduzida quase exclusivamente pelo inconsciente. Nesse sentido, o indivíduo isolado possui a capacidade de dominar seus reflexos, enquanto a multidão está desprovida dela. 

Nada na multidão pode ser premeditado. São capazes de percorrer, sob influências, os mais variados sentimentos.

Para o indivíduo na multidão, a noção de impossibilidade desaparece. Sozinho, não pode incendiar um prédio; uma multidão, sim. 

2. Sugestionabilidade e credulidade das multidões 

Nos seres sugestionáveis, a ideia fixa tende a se transformar em ato. Em consequência do contágio, as deformações são de mesma natureza e têm o mesmo sentido para todos os indivíduos da coletividade.  

A multidão não precisa ser numerosa: a faculdade de observação e o espírito crítico que cada um deles possui desaparecem. 


3. Exagero e simplismo dos sentimentos das multidões 

O indivíduo em multidão aproxima-se dos seres primitivos. Insensível às nuances, vê todas as coisas em bloco e não conhece as transições. 

Na multidão, o exagero de um sentimento é fortalecido pelo fato de que, propagando-se muito rapidamente mediante sugestão e contágio, a aprovação de que se torna objeto aumenta sua força consideravelmente.  

4. Intolerância, autoritarismo e conservadorismo das multidões

Como as multidões só conhecem sentimentos simples e extremos, as opiniões, ideias e crenças que lhes são sugeridas são aceitas ou rejeitadas em bloco e consideradas como verdades absolutas ou erros não menos absolutos. 

Nas reuniões públicas, a mais ligeira contradição de um orador é imediatamente recebida com gritos de furor e violentas invectivas, logo seguidas de vias de fato e expulsão, desde que o orador insista. 

5. Moralidade das multidões

Se a multidão é capaz de assassinar, incendiar e de praticar toda espécie de crimes, também o é de atos de sacrifício e de desinteresse muito mais elevados que aqueles de que é capaz o indivíduo isolado. 

Se a abnegação, a resignação, a dedicação absoluta a um ideal quimérico ou real são virtudes morais, pode-se dizer que as multidões possuem às vezes essas virtudes em um grau que os mais sábios filósofos raramente atingiram. 


CAPÍTULO III
IDEIAS, RACIOCÍNIOS E IMAGINAÇÃO DAS MULTIDÕES


1. As ideias das multidões
As ideias das multidões podem ser divididas em duas classes: 1) acidentais e passageiras; 2) ideias passageiras.

As ideias fundamentais poderiam ser representadas pelo volume das águas de um rio que desce lentamente seu curso; as ideias passageiras, pelas marolas sempre inconstantes que agitam sua superfície e que, apesar de não terem importância real, são mais visíveis que o correr do próprio rio. 

As ideias, para se tornarem popular, têm de sofrer as mais completas transformações: elas têm que ser sempre redutoras e simplificadoras.

Lembremo-nos de que as ideias filosóficas que culminaram na Revolução Francesa levaram muito tempo para se implantar na alma popular. Sendo, assim, as multidões estão sempre várias gerações atrás dos sábios e dos filósofos. 

2. Os raciocínios das multidões

Os raciocínios das multidões, como os raciocínios elevados, baseiam-se nas associações, mas de modo mais fraco. Encadeiam-se à maneira das de um esquimó, o qual, sabendo por experiência que o gelo, corpo transparente, derrete na boca, conclui que o vidro, corpo igualmente transparente, também deve derreter na boca.

Um encadeamento de raciocínios rigorosos seria totalmente incompreensível para as multidões. 

Os juízos que aceitam são apenas juízos impostos, nunca juízos discutidos. 

3. A imaginação das multidões

A imaginação representativa das multidões, como a de todos os seres para os quais o raciocínio não intervém, pode ser profundamente impressionada. 

Na história, a aparência sempre teve um papel muito mais importante que a realidade. Nela, o irreal predomina sobre o real. 

Pão e circo constituíam outrora o ideal de felicidade para a plebe romana. É conhecida a história daquele teatro popular dramático obrigado a proteger na saída o ator que fazia o papel de vilão, para livrá-lo da violência dos espectadores indignados com seus crimes imaginários. 

Conhecer a arte de impressionar a imaginação das multidões é conhecer a arte de governá-las. 


CAPÍTULO IV
FORMAS RELIGIOSAS DE QUE SE REVESTEM TODAS AS CONVICÇÕES DAS MULTIDÕES 

Esse sentimento tem características muito simples: adoração de um ser supostamente superior, temor do poder a ele atribuído, submissão cega a suas ordens, impossibilidade de discutir seus dogmas, desejo de difundi-los, tendência a considerar inimigos todos os que se recusam a admiti-los.

A intolerância e o fanatismo são o acompanhamento ordinário de um sentimento religioso. 

Se fosse possível fazer as multidões aceitarem o ateísmo, ele teria todo o ardor intolerante de um sentimento religioso e, em suas manifestações exteriores, tornar-se-ia rapidamente um culto. 




SEGUNDO LIVRO
AS OPINIÕES E CRENÇAS DAS MULTIDÕES

CAPÍTULO I
FATORES LONGÍNQUOS DAS CRENÇAS E OPINIÕES DA MULTIDÕES

As opiniões e crenças nascem e se estabelecem segundo duas ordens: fatores longínquos e fatores imediatos.

Os fatores longínquos tornam as multidões capazes de adotar algumas convicções e inaptas para se deixar penetrar por outras. Os fatores imediatos são aqueles que, sobrepostos a esse longo trabalho, sem o qual não poderiam agir, provocam a persuasão ativa das multidões. 

1. Raça

O meio, as circunstâncias e os acontecimentos representam as sugestões sociais do momento. Podem exercer uma ação importante, mas sempre momentânea se for contrária às sugestões da raça, isto é, de toda a série dos ancestrais. 

2. As tradições

As tradições representam as ideias, as necessidades, os sentimentos do passado. São a síntese da raça e se impõem com todo o seu peso sobre nós. 

3. O tempo

Dele dependem as grandes forças, tais como a raça, que sem ele não podem se formar. Faz todas as crenças evoluírem e morrerem. Através dele adquirem seu poder e também através dele perdem-no. 


CAPÍTULO II

FATORES IMEDIATOS DAS OPINIÕES DAS MULTIDÕES

As multidões são um pouco como a esfinge da antiga fábula: é preciso saber resolver o problemas que a psicologia delas nos apresenta ou se resignar a ser devorado por elas. 

1. As imagens, as palavras e as fórmulas

A multidão é influenciada pelas imagens. Quando não se têm essas imagens, pode-se evocá-las pelas palavras e fórmulas. Observe os termos vagos como democracia, socialismo, igualdade. Estas breves sílabas estão ligadas a um poder mágico, solução de todos os problemas. 

As palavras de uma língua mudam vagarosamente; mas as imagens que evocam ou o sentido a elas atribuído mudam incessantemente. 
2. As ilusões 

O grande fator de evolução dos povos nunca foi a verdade, mas o erro. E se hoje o socialismo vê seu poder crescer, é porque ainda constitui a única ilusão viva. Quem sabe iludi-las torna-se seu mestre; quem tentar desiludi-las é sempre sua vítima. 

3. A experiência

A experiência é praticamente o único procedimento eficaz para estabelecer solidamente uma verdade na alma das multidões e destruir ilusões que se tornaram perigosas demais. 

4. A razão

Coloca-se aqui pelo valor negativo de sua influência. Os oradores que sabem impressioná-las apelam aos seus sentimentos e nunca à sua razão. 

CAPÍTULO III
OS CONDUTORES DAS MULTIDÕES E SEUS MEIOS DE PERSUASÃO

1. Os condutores das multidões 

Há necessidade da figura do líder. Sua vontade (do líder) é o núcleo em torno do qual se formam e se identificam as opiniões. Geralmente, o condutor foi anteriormente um conduzido, hipnotizado pela ideia da qual em seguida se tornou apóstolo. Robespierre, por exemplo, foi hipnotizado por suas ideias quiméricas e empregando os procedimentos da Inquisição para propagá-las. 

A fé pode tornar o homem escravo absoluto de seu sonho. 

2. Os meios de ação dos líderes: a afirmação, a repetição, o contágio

Para arrastar multidões a um propósito qualquer, é preciso agir sobre ela por meio de sugestões rápidas. 

Afirmação. Deve ser concisa, desprovida de provas e de demonstração. Assim, mais autoridade terá. 

Repetição. Napoleão dizia que existe apenas uma única importante figura de retórica, a repetição. Pela repetição, a coisa afirmada chega a se estabelecer nos espíritos a ponto de se aceitar como uma verdade demonstrada.

Contágio. Depois de uma afirmação ser repetida há, ainda, a necessidade do contágio. Nas multidões, as ideias, os sentimentos, as emoções, as crenças possuem um poder de contágio tão intenso quanto o dos micróbios. 

3. O prestígio

Se as opiniões propagadas pela afirmação, a repetição e o contagio são muito potentes é porque acabam adquirindo o misterioso poder denominado prestígio. 

O prestígio é uma espécie de fascínio que um indivíduo, uma obra ou uma doutrina exerce sobre nosso espírito.

Pascal notou, com razão, a necessidade que os juízes têm das togas e das perucas. Sem elas perderiam grande parte de sua autoridade.

TERCEIRO LIVRO

CLASSIFICAÇÃO E DESCRIÇÃO DAS DIVERSAS CATEGORIAS DE MULTIDÕES

CAPÍTULO I
CLASSIFICAÇÃO DAS MULTIDÕES

Neste capítulo procura separar dois tipos de multidões: heterogêneas e homogêneas. Quanto às heterogêneas, divide-as em anônimas (multidões das ruas, por exemplo) e não anônimas (júris, assembleias parlamentares etc.). Em se tratando das homogêneas, divide-as em seitas (seitas políticas, seitas religiosas etc.), castas (casta militar, casta sacerdotal, casta operária etc.) e classes (classe burguesa, classe camponesa etc.) 

CAPÍTULO II
AS MULTIDÕES DITAS CRIMINOSAS

Os crimes das multidões geralmente decorrem de uma poderosa sugestão, e os indivíduos que deles tomam parte convencem-se em seguida de ter cumprido um dever.


CAPÍTULO III
OS JURADOS DO TRIBUNAL DE JÚRI


Os jurados proporcionam, em primeiro lugar, uma prova da pouca importância que tem, do ponto de vista das decisões, o nível mental dos diversos indivíduos que compõem a multidão. 

CAPÍTULO IV
AS MULTIDÕES ELEITORAIS

A primeira qualidade que o candidato deve possuir é o prestígio. O prestígio pessoal só pode ser substituído pelo da fortuna. O talento, o próprio gênio não são elementos de sucesso. 

A multidão eleitoral: fraca aptidão para o raciocínio, ausência de espírito crítico, irritabilidade, credulidade e simplismo. 

O eleitor quer que adulem suas ambições e vaidades.

CAPÍTULO V

AS ASSEMBLEIAS PARLAMENTARES

Encontramos nas assembleias parlamentares as características gerais das multidões: simplismo das ideias, irritabilidade, sugestionabilidade, exagero dos sentimentos, influência preponderante dos líderes.

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14 novembro 2013

Pensamento Romano

O pensamento romano caracteriza-se por sua adaptação e transmissão do pensamento grego. Nessa empreitada, os romanos primam pelo ecletismo. Cícero e os demais pensadores romanos passam à posteridade a “versão romana” da filosofia grega, que se estende por muito tempo, chegando até o renascimento e mesmo depois. Lembremo-nos, também, da contribuição do direito romano.

Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) é figura de destaque no ecletismo romano: seu interesse filosófico reside nas soluções práticas dos problemas; a elucubração puramente teorética e abstrata é deixada para um segundo plano. O pensamento de Cícero se baseia no consensus gentium, ou seja, no consenso da maioria para as questões metafísicas que suscitam dúvidas. A regra era: “na dúvida, abstém-se”.

Os romanos tinham interesse muito particular pelos problemas éticos. O estoicismo grego caiu bem ao seu modo de pensar. Lúcio Aneu Sêneca (3-65), por exemplo, um dos estoicos romanos, propõe a figura do sábio como homem forte, imune às variações da sorte e que luta mesmo quando foi derrubado.

Lucrécio (94-55 a.C.) recolhe o materialismo de Epicuro. Em sua obra, Sobre a natureza das coisas (De rerum natura), procura dar uma explicação científica para os enigmas do Universo. Para tanto, afirma que a alma é material e o Universo nem é criado nem destruído, já que sua matéria é infinita.

Para a mentalidade romana, a organização social deve ser gerida de acordo com regras e preceitos. Em se tratando do direito e sua evolução, temos: 1) direito baseado no costume: é o fundamento do direito civil (jus civile); 2) direito internacional (jus gentium): o direito dos povos, que se aplica aos cidadãos; 3) o direito civil e o direito dos povos se reúnem no âmbito do jus publicum (direito público que se refere às relações com o estado) e se distinguem do direito privado (jus privatum).

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13 novembro 2013

Patrística

Patrística é o termo usado para expressar a junção do mundo antigo grego, elaborado pela razão, com o mundo cristão, concebido pela revelação. Na tradição judaica, a salvação é imediata; no cristianismo, não. Não se espera uma redenção imediata do sofrimento e da morte como acontecia no judaísmo. Para manter a esperança da salvação, há necessidade de aprofundar os conteúdos da verdade revelada. Por isso, a “patrística”

Os antecedentes da patrística remetem-nos a Tertuliano (155) e Orígenes (185). Tertuliano, embora contrário à patrística, e posto à margem pela igreja, foi um dos precursores desse tipo de filosofia, pois criou um cristianismo místico e vivencial, que encontrará sua máxima expressão na síntese agostiniana de razão e fé. Orígenes, por seu turno, é o primeiro grande sistematizador da teologia cristã, ao qual incorpora elementos neoplatônicos e até gnósticos.

Justino, no século II, dá os primeiros passos para conciliar o pensamento platônico e neoplatônico às Sagradas Escrituras. Em seu desenvolvimento posterior, a patrística pode ser considerada, também, como uma doutrina que procura se diferenciar de heresias como o gnosticismo, o arianismo, o maniqueísmo e o monofisismo. 

A criação, a revelação de Deus com o mundo, o mal, a alma, o destino da existência e o sentido da redenção são problemas fundamentais da patrística. Há, também, os problemas teológicos: essência de Deus, trindade das pessoas divinas etc. Por último, os problemas morais: embora utilizando os conceitos helênicos, adota uma postura na graça e na relação do homem com seu Criador, e termina na concepção da salvação, estranha ao pensamento grego.  

A base da patrística está no platonismo. No platonismo, o Demiurgo é a Ideia, o mundo sensível é feito à imagem e semelhança das ideias e a ideia do Bem está topo da hierarquia. Para o cristianismo, a criação leva também a marca das ideias do Criador; o mundo sensível é baseado na contingencia, fator de dependência de seu ser em relação ao Criador; e o fato de o neoplatonismo situar a ideia do bem no topo da hierarquia, abriu espaço para o cristianismo expressar o monoteísmo.

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Pensamento Helenístico

O helenismo ganha força a partir das expedições de Alexandre Magno ao Oriente que, após realizar grandes conquistas, põe em cheque o status quo da Pólis (Cidade-Estado). O ideal da Pólis é substituído pela ideal “cosmopolita”, em que o mundo inteiro é uma Pólis e não somente a Cidade-Estado.  O homem-citadino perde a sua capacidade de intervenção na vida política e é substituído pelo homem-indivíduo, aquele que cuida apenas da vida privada, apenas de si mesmo.  

As filosofias platônicas e aristotélicas tornaram-se desatualizadas. A exceção estava na filosofia socrática, que incentiva o ser humano a voltar-se para si mesmo. Exigiam-se novas filosofias, as quais deveriam ter um cunho prático. Estas, ao se formarem, difundiram-se em vários lugares, transformando-se em cultura helenística. O centro da cultura passou de Atenas para Alexandria. O epicurismo, o estoicismo e o ceticismo surgem dentro desse novo contexto.

Para Epicuro (341-270 a.C.), materialista e fundador do epicurismo, não existe nem imortalidade nem um “mais além”. A morte do indivíduo é morte do corpo e da alma. Apesar do seu materialismo, pregava que não se devia temer a morte. O importante é a vida, que se fundamenta na busca do prazer, não do prazer hedonista. O ideal é alcançar a ataraxia —  “a tranquilidade do espírito que evita cair na dor decorrente da carência ou do excesso de prazeres — e a autarquia — auto-suficiência, não depender de nada a não ser de si mesmo, encontrar satisfação com pouco, uma vez que o desejo de abundância nos torna dependentes do objeto”.

Zenão de Cicia (335-264 a.C.) foi o fundador do estoicismo. Para o estoicismo, o mundo é regido por uma lei universal, o logos, a razão. O ser humano, sendo parte desse mundo, deve se submeter à lei universal. A vida, de acordo com a razão, é a vida do sábio, mas também do virtuoso. Em virtude dessa lei, que é inexorável, o sábio só pode aspirar à ataraxia, ou seja, à serenidade e imperturbabilidade do espírito.

Pirro de Élida (365-275 a.C.) é o iniciador do ceticismo. A tranqüilidade de espírito aqui está na recusa de qualquer doutrina, pois ele considera que a razão não pode penetrar na essência das coisas e prega a dúvida diante de todas as questões. Pirro diz: já que nada sabemos com certeza sobre as coisas do mundo, tudo deve nos deixar em absoluta indiferença — e que nada perturbe nosso espírito. Esta é a sua ataraxia.

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08 novembro 2013

Positivismo: Comte

Positivismo é a doutrina fundada por Augusto Comte (1798-1857). Comte afirma que a filosofia deve ser “positiva”, ou seja, restringir-se ao que for cientificamente verificado. Pensando desse modo, estabelece os fundamentos da sociologia, ciência da sociedade que ele entende como o saber superior.

O positivismo é uma filosofia dos fatos. Só os fatos são suscetíveis de comprovação por meio da experiência. A filosofia de Comte despreza a metafísica, pois para ele, "A única máxima absoluta que existe é que não existe nada absoluto". A filosofia comtiana é um saber que investiga os fatos e suas relações tal como são concebidos pelas ciências.

A doutrina de Comte é justificada pela lei dos três estados: 1.º) estado teológico, em que a mente humana explica os fenômenos de maneira fictícia, apelando para causas sobrenaturais; 2.º) estado metafísico, em que a indagação das causas é feita no terreno da natureza, mas de forma abstrata; 3.º) estado científico, em que se abandona o saber causal e limita-se a observar os fatos e a estabelecer leis positivas a partir deles. Comte acredita que o positivismo, além de corresponder ao estado científico da humanidade, é também uma religião, pois herda, como ciência social, aquela força coesiva do coletivo que se encontra nas religiões tradicionais. 

Comte, ao refletir sobre a sociedade, distingue dois momentos: o de equilíbrio e o de movimento, o de "ordem" e o de "progresso", que os denomina de estática social e dinâmica social. A estática social é o estudo das condições em que se produz a "ordem" coletiva. A dinâmica social é a investigação das leis de transformação que determinam o movimento, ou "progresso", de uma sociedade.

John Stuart Mill (1806-1873), sendo utilitarista e liberal, adapta o positivismo comtiano ao utilitarismo inglês, porém impregnado de conteúdos éticos e políticos bem específicos. Herdeiro de Jeremy Bentham (1748-1832), que relaciona o bem ao prazer e o mal à dor, Mill estabelece que o bem-estar deva estar disponível ao maior número possível de indivíduos. O positivismo de Mill é essencialmente pragmático.

Para Comte, a sociologia é a principal ferramenta científica para a compreensão da sociedade. Nesse sentido, pensa que a filosofia é um saber estéril se não é vinculado de forma reflexiva ao conhecimento científico.

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Pensamento Cristão: Chardin e Mounier

O pensamento cristão, com o evolucionismo de Teilhard de Chardin e o personalismo de Emmanuel Mounier, deu outro rumo à relação entre filosofia e religião. Até então, a metafísica escolástica de santo Tomás é que dominava o modelo de pensamento vigente.

Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) foi filósofo, teólogo e pesquisador nos campos da geologia, da paleontologia e da antropologia. Seu ponto de vista predominante era o de que a ciência deve incorporar a fé. Em O fenômeno humano (1955), Teilhard de Chardin analisa a lei da evolução, não como um mero transformismo (como fizera Darwin), mas como uma condição geral extensiva à totalidade do Universo, e que se encontra no homem.

Em O fenômeno humano são relatadas as três grandes fases ou camadas envolvendo a Terra: a) Hilosfera (camada material); b) Biosfera (envoltório vivo); c) Noosfera (reflexão e consciência). Esta se superpondo às duas primeiras. A teoria de evolução de Chardin não é dualista. Começando com a “pré-vida”, matéria e espírito constituem as duas faces de um mesmo fenômeno, pois tudo é explicado pela “lei de complexidade – consciência”. Chardin admite um “amor-energia” que unifica todos esses estados evolutivos, tendo a sua plenitude no homem.

Emmanuel Mounier (1905-1950), o mais distinto dos personalistas, diz no Manifesto a serviço do personalismo (1936) que a pessoa é "um ser espiritual constituído como tal por uma forma de substância e de independência esse seu ser; mantém essa substância por meio de sua adesão a uma hierarquia de valores levemente adotados, assimilados e vividos num compromisso responsável e numa constante conversão; unifica assim toda a sua atividade na liberdade e desenvolve, por acréscimo, por impulsos de atos criadores, a singularidade de sua vocação". 

Embora Charles Renouvier (1815-1903) tenha sido o primeiro a utilizar o termo "personalismo" num sentido metafísico e moral, as origens estão na própria ideia de pessoa que surgiu com o cristianismo e nas discussões acerca das pessoas divinas da Trindade. Nessas discussões, formou-se o conceito de pessoa como “substância individualizada contraposta à natureza e que, por sua condição irredutível, está paradoxalmente aberta a uma existência inter-relacionada com a dos outros”.

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04 novembro 2013

Relatividade

"Senso comum é o conjunto de preconceitos adquiridos até os dezoito anos."
Albert Einstein

A teoria da relatividade de Einstein, em certas circunstâncias, prova que muitas afirmações que fazemos diariamente podem não ser verdade. Eis alguns exemplos: "todos habitamos o mesmo espaço tridimensional"; "o tempo passa com a mesma velocidade para todos"; "a matéria não pode ser criada nem destruída"; "os ângulos de um triângulo somam 180º"; "a circunferência de um círculo é 2pi vezes o raio"; "no vácuo, a luz sempre se propaga em linha reta". A teoria de Einstein é dividida: a) especial (1905), que lida com os efeitos do movimento uniforme sobre o espaço e o tempo; b) geral (1916), que inclui os efeitos adicionais da aceleração.

O princípio da relatividade, que não foi descoberto por Einstein, mostra que na lei da natureza há uma relação uniforme entre o movimento e o ser que está em repouso, conhecido como referencial inercial. Por esta lei, qualquer um que se mova em relação a outra pessoa  em repouso pode achar que está em movimento e o outro em repouso. Um exemplo prático: num trem, a impressão que se tem é que o trem parado é que está se movendo.

A concepção de uma realidade quadridimensional só pode ser percebida pela matemática. Ela, a princípio, parece ser contrária à intuição. Inicialmente, Einstein negou a sugestão de Minkowski sobre esta realidade. Mais tarde, porém, disse: “daqui em diante temos que lidar com uma existência quadridimensional, em vez de, como até agora, com a evolução de uma existência tridimensional”. Segundo esta realidade, as mudanças ocorrem no tempo. O espaço-tempo, porém não está no tempo; o tempo, como um de seus eixos, é que está no espaço-tempo. Daí, presente, passado e futuro acabam existindo em pé de igualdade.

A fórmula E=mc2 significa que a energia total do objeto é a soma da energia presa na massa de repouso do objeto mais a energia cinética. Esta fórmula diz-nos que uma massa, m, está sempre associada a uma energia, E, e vice-versa: uma energia, E, está sempre associada a uma massa relacionada, m. (O fator c2 está lá para acertar as unidades de massa e energia). Nesse sentido, um prato que foi aquecido está mais pesado do que um prato frio, porque ele estando quente tem mais energia.

Na Relatividade Geral, acrescenta-se a aceleração e a gravidade. Procura incluir os efeitos do movimento acelerado e da gravidade sobre o tempo e o espaço. Discute-se exaustivamente sobre a força da gravidade, a questão do vácuo e o problema da resistência do ar. 

Para mais informações, consultar o livro Relatividade, de Russel Stannard, pela L&PM POCKET Encyclopaedia, do qual estas anotações foram feitas. 


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01 novembro 2013

Pensamento Sociológico

Comte (positivismo) e Marx (materialismo histórico) são os precursores da moderna sociologia. Durkheim e Weber, além de complementarem as teorias de Comte e Marx, dão à sociologia um status de ciência, com possibilidade de novos desenvolvimentos.

Para Émile Durkheim (1858-1917), a sociologia é uma ciência positiva que investiga os "fatos sociais". Publica, em 1895, As regras do método sociológico, em que expõe a necessidade de que as investigações sejam feitas mediante trabalhos empíricos. Durkheim sugere o uso de dois instrumentos auxiliares: o direito e a estatística. O direito, como manifestação de algumas regras que surgem da consciência coletiva. A estatística, por sua vez, garante certa objetividade da análise sociológica. Isso porque os fatos sociais não podem ser explicados em termos individuais. A sociedade é algo muito maior do que a soma dos entes individuais.

Max Weber (1864-1920) acha que a metodologia das ciências sociais deve ter por princípio a "neutralidade valorativa", já que "não existe nenhuma análise científica puramente objetiva da vida cultural ou dos fenômenos sociais, independente dos pontos de vista específicos e unilaterais, segundo os quais aqueles fenômenos — expressa ou tacitamente, consciente ou inconscientemente — são selecionados como objetos de investigações, analisados e organizados por meio da expressão".

A "neutralidade valorativa" apóia-se na multicausalidade, que Weber destaca em A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904-1905). Este trabalho é uma investigação sobre as origens do capitalismo europeu em que se demonstra o caráter unilateral das teses de Marx (que analisa essas mesmas origens em termos de causas econômicas e sociais). Weber demonstra que as origens do capitalismo na Europa podem ser explicadas tanto do ponto de vista escolhido por Marx quanto do que ele mesmo propõe e que é o da religião.

Durkheim e Weber tiveram grande influência nas principais correntes da sociologia contemporânea, principalmente na sociologia européia. Entre os influenciados, estão Karl Mannheim (1891-1947) e Raymond Aron (1905-1983). O primeiro desenvolveu argumentos acerca da sociologia do conhecimento; o segundo, pelo seu interesse nas relações que se estabelecem entre a estrutura social e os regimes políticos na sociedade industrial.

A influência na América do Norte deu-se por meio de Talcott Parsons (1902-1979) e Robert K. Merton (n. 1910). Parsons desenvolveu o funcionalismo ou funcionalismo estrutural, que se baseia no princípio de que a análise de qualquer instituição social deve ser feito em função do que ela traz para o funcionamento e manutenção da sociedade como um todo. Merton, discípulo de Parsons, desenvolve um funcionalismo menos abstrato e mais preocupado com a investigação empírica. 

Fonte de Consulta

Temática Barsa - Filosofia 

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30 outubro 2013

Mecanicismo e Relatividade

O mecanicismo é uma teoria filosófica que, uma vez concebida a matéria como inerte, deve-se explicar como nela se instala o movimento. A questão conduz-nos ao tema da causalidade. Relatividade. Diz respeito ao relativo, ao que não basta a si mesmo. Na Física, é uma teoria proposta por Albert Einstein que alargou os conceitos de tempo, espaço e movimento, revolucionando a física clássica.

Aristóteles argumentava que as coisas são relativas quando, para existir, umas dependem das outras: o maior só é maior em relação ao menor. Parmênides de Eleia, por outro lado, acha que o conhecimento sensível não permite apreender o ser verdadeiro, uno e imóvel. O relativismo foi muito criticado pela prática científica, pois o sujeito, ao conhecer, não permanece enclausurado nos próprios limites, mas apreende o mundo objetivo que independe, em sua existência e em sua estrutura, da consciência do sujeito que o percebe.

Biologicamente, o organismo se assemelha à máquina, mesmo admitindo um grau mais elevado de complexidade. Tudo se explica em termos de pura extensão e simples movimento local. Observe a síntese do silogismo (mecanicista) histórico: A premissa maior está com Descartes (todos os animais são autômatos), a menor com Darwin (o homem é um animal) e a conclusão com Watson (todos os homens são autômatos). Umas das principais críticas ao mecanicismo reside na incompatibilidade entre os processos biológicos e a simples redução deles a atividades físico-químicas.

Henri Poincaré (1854-1912), James C. Maxwell (1831-1879), Heinrich Hertz (1857-1894), Hendrik A Lorentz (1853-1928), Hermann Minkowski (1864-1909) e Bernhard Reemann (1826-1866) foram os precursores da teoria da relatividade de Einstein, que pode ser resumida da seguinte maneira: de Galileu a Newton, a física clássica considerava o movimento como relação determinada por sua referência a parâmetros julgados absolutos, o espaço e o tempo. Para Einstein, ao contrário, o espaço e o tempo se concebem em função do movimento, que se torna, assim, o absoluto.

As consequências da teoria da relatividade podem ser sintetizadas: a) em termos de espaço-tempo, alteração radical das noções de distância e duração; b) quanto à concepção da matéria, a física declara que esta constitui uma cadeia de entidades, sujeitas a uma determinada duração de modo algum absoluta; c) quanto à generalização da teoria, a força de gravidade, que unifica todo o sistema newtoniano, fica reduzida a um movimento particular de um corpo num espaço determinado por massas de matéria.

Bibliografia Consultada



ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL. São Paulo: Encyclopaedia Britannica, 1987.

TEMÁTICA BARSA - FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.

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18 outubro 2013

Estruturalismo

O “estruturalismo” é uma corrente de pensamento que teve como base a linguística estrutural de Ferdinand de Saussure na década de 1960. O estruturalismo aplica os princípios de linguística, elaborados por Ferdinand de Saussure (1857-1913), o qual fazia uma distinção entre língua e fala. A fala se refere ao uso da língua; a língua é anterior à fala, é um sistema de signos impessoal. O sistema de signos da língua forma uma estrutura.

“O conceito de ‘estrutura’ se aplica à totalidade do conjunto de elementos e de suas relações, de maneira que a mudança de qualquer um deles introduz uma transformação em todos os outros. A estrutura não é uma realidade empiricamente observável, mas um modelo teórico-explicativo, aplicável onde exista um conjunto, e que atende fundamentalmente às relações das partes dentro do todo, uma vez que são elas que o determinam”. 

As implicações filosóficas do estruturalismo podem ser desmembradas segundo dois pontos de vista: 1) Seu anti-humanismo epistemológico ocorre diante da descoberta da prioridade universal (estrutura) sobre o individual (o homem); 2) O desaparecimento do sujeito. As regras que determinam a estrutura são supra-individuais e inconscientes: não são regras do sujeito, regras que partam dele ou nele se fixem, mas são regras nas quais os sujeitos se inserem.

Lacan (1901-1981) aplica o método estruturalista à psicanálise com a intenção de dotá-la de um estatuto científico. Sua tese fundamental é a de que o inconsciente está estruturado como uma linguagem: a psicanálise deve analisar o inconsciente de acordo com o modelo da linguística estrutural. Para Lacan, o sujeito não se identifica somente com a consciência, mas também com o inconsciente, pois este também é sujeito. 

Foucault (1926-1984), pós-estruturalista foi, ao longo do tempo, alterando o objeto de seu interesse: primeiro foi o saber, mais tarde o poder e, por último, as formas de subjetivação. Quanto ao saber, acha que em cada época aparecem algumas estruturas epistêmicas que determinam o que pode ser pensado e o que pode ser dito. Quanto ao poder, Foucault o vê como uma rede de relações nas quais o homem se acha inserido. Em relação à subjetivação, analisa os mecanismos que intervêm na produção dos sujeitos. O sujeito não é algo dado, mas o resultado de uma relação de forças. 

Fonte de Consulta

TEMÁTICA BARSA - FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.


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16 outubro 2013

Pensamento Antropológico

A antropologia, como ciência, surgiu nos fins do século XIX. Foi uma das últimas a separar-se do tronco comum do conhecimento (filosofia). Para que isso fosse possível, dois fatos tiveram grande importância: 1) as descobertas arqueológicas e paleontológicas, que permitiram ao ser humano um melhor conhecimento de si mesmo; 2) o próprio método da ciência, que se tornou teórico-experimental: coleta e interligação dos dados.

Inicialmente, a antropologia era objeto de análise de gabinete; não havia estudos de campo, como exige o método científico. Lewis Henry Morgan (1818-1881) é o primeiro a estabelecer uma teoria da evolução cultural, caracterizando-a em três estados: selvagem, bárbaro e civilizado. Neste último, inclui o uso do alfabeto. Esse evolucionismo dá lugar ao difusionismo, em que a formação das culturas está baseada na propagação das ideias, técnicas e formas de vida.

Franz Boas (1858-1942), Edward Sapir (1884-1939), Ruth Fulton Benedict (1887-1948), Alfred Louis Kroeber (1876-1960) e Margaret Mead (1901-1978) são os antropólogos americanos que enfatizam o uso da metodologia científica. Franz Boas, por exemplo, desconfia das sistematizações e classificações arbitrárias, preferindo a coleta de dados para fundamentar as suas investigações que, depois, tornam-se empíricas e descritivas.

Bronislaw Malinowski (1884-1942), antropólogo de origem polonesa fixado no Reino Unido, influenciado pela sociologia de Durkheim, inaugura o funcionalismo antropológico. Para ele, o estudo de uma cultura primitiva deve ser feito dentro de um objetivo totalizador e sincrônico: não existem traços culturais que sobrevivam do passado. O antropólogo deve saber extrair o significado de cada elemento cultural, que tem a sua função específica.

Alfred Reginald Radcliffe-Brown (1881-1955) é o fundador da escola britânica de antropologia social. Segundo o seu ponto de vista, a antropologia social é "a investigação da natureza da sociedade humana por meio da comparação sistemática de sociedades de tipo diverso, prestando atenção particular às formas mais simples das sociedades dos povos primitivos, selvagens ou sem alfabeto".

Claude Lévi-Strauss (1908-2009) criou o termo “antropologia estrutural”: como os indivíduos e os grupos estão ligados no interior do corpo social. Para ele, essa estrutura estrutura não é "visível", já que se mantém além das relações sociais suscetíveis de observação empírica e só pode chegar a ser descoberta por meio de um trabalho teórico de formalização. 

Fonte de Consulta 

TEMÁTICA BARSA - FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005. 


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30 setembro 2013

logoterapia

Viktor Emil Frankl (1905-1997), psiquiatra e psicólogo austríaco, criou um método de tratamento psicológico que denominou logoterapia, uma das dissidências da psicanálise freudiana surgida em Viena e uma das muitas teorias sobre motivação básica do comportamento humano. Ainda adolescente, sentiu um vivo interesse pela psicanálise. Em 1921 escreveu um primeiro trabalho Sobre o significado da vida. Passou por quatro campos de concentração entre 1942 e 1945. 

A “logoterapia”, traduzida literalmente, é “terapia através do sentido”. Esta terapia, a terapia através do significado, é o contrário da psicoterapia, que se traduz por significado através da terapia. Frankl constatou que, depois de um tratamento através da terapia tradicional, o paciente estava curado, mas faltava-lhe o sentido da vida. Para ele, a psicologia tradicional remove a neurose, mas não lhe dá algo em troca, que é a renovação do seu sentido de vida. 

O tempo que permaneceu nos campos de concentração influenciou sobremaneira os arcabouços de sua teoria. Percebeu que as pessoas que tinham um objetivo de vida, encaravam-na com mais disposição, com mais entusiasmo, mesmo estando presas. Meditando sobre essas observações, achou-se no dever de ajudar a si mesmo e aos outros. Tomou isso como uma missão. Queria somente mitigar o sofrimento dos outros. 

Baseando-se em relatos verbais e cartas recebidas, ele defende que a principal coisa que move o ser humano é ter um objetivo na vida. Nesse sentido, relata-nos que uma pessoa presa na cadeia revelou-lhe que aí passou os dias mais felizes de sua vida. Um médico e sua esposa (enfermeira) ao cuidarem de um familiar que sofria de câncer, sentiram-se os seres mais felizes, porque puderam dar todo o suporte médico ao seu ente querido. 

Por que alguns indivíduos têm um sentido de vida apurado e outros não? É consequência de algum treinamento? São reflexos de existências passadas? O problema é que quando damos sentido à nossa vida, os nossos atos se tornam mais conscientes, mais de acordo com as leis naturais, escritas por Deus em nosso ser. É a tomada de consciência de nossa responsabilidade para conosco mesmos e para com o nosso próximo, seja de que procedência for.

Façamos com que os nossos atos tenham sempre um objetivo de vida. No início, este esforço pode ser penoso. Com o tempo, porém, torna-se um hábito salutar e proveitoso.

Para mais informação: FRANKL, Viktor E. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Tradução de Victor Hugo Silveira Lapenta. Aparecida, SP: Ideias e Letras, 2005. (11ª edição).  



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24 setembro 2013

Eudaimonia

Daimon é uma entidade sobrenatural, situada entre um deus (theos) e um herói. Ela não é boa nem má. Pode, entretanto, ser concebida no seu sentido positivo; nesse caso, torna-se um anjo da guarda. Daimon não era o espírito protetor de Sócrates, que o avisava quando algo não devia ser feito? Antepondo “eu” ao “daimon”, formaremos a palavra “eudaimon” que, literalmente, significa “bom demônio”. Traduzindo-a por "bom deus", "bom espírito", "bom anjo da guarda" e, por conseguinte, "felicidade", pois toda pessoa que tivesse um bom demônio era considerada feliz. 

A felicidade pode ser vista sob diversas formas e sob diversos ângulos filosóficos. Quanto às diversas formas, consiste em "bem-estar", em "prazer", em "atividade contemplativa"... Trata-se de um "bem" e de uma "finalidade". No âmbito dos filósofos, temos: para Demócrito, a felicidade não consiste nos bens externos; para Platão, a felicidade reside na justiça; para Aristóteles, ela se fundamenta na contemplação intelectual.

Literalmente, 'eudemonismo' significa "posse de um bom demônio". É gozo ou fruição, cujo resultado final é a prosperidade, a felicidade. Filosoficamente, toda tendência ética segundo a qual a felicidade é o sumo bem. Para os eudemonistas, sempre haverá compatibilidade entre bem e felicidade, pois a felicidade é o prêmio da virtude. Para os opositores do eudemonismo, a felicidade e o bem podem coincidir, mas não coincidem necessariamente. Nesse caso, a virtude vale por si mesma, independentemente da felicidade que ela possa produzir.

No relato histórico-religioso da felicidade, há a concepção da beatitudo (felicidade). A “felicidade animal”, que é passageira, encontra-se num estado rudimentar e não deveria se chamar felicidade, mas "felicidade aparente". Seguem-na a “felicidade eterna” (que é a vida contemplativa), a “felicidade final” ou “última” ou “perfeita”, que é o que se chamaria “beatitude”. Para Santo Agostinho, a beatitude é a posse do verdadeiro absoluto e, em última análise, a posse (fruitio) de Deus.

No processo histórico acerca da felicidade, os pensadores têm muitas divergências quanto ao verdadeiro conceito filosófico. Há, porém, algo que permanece comum em todos eles: a felicidade nunca é apresentada como um bem em si mesmo, já que para saber o que é felicidade deve-se conhecer o bem ou os bens que a produzem.

A felicidade está  no centro das discussões filosóficas, principalmente quando o assunto tratado versa sobre ética e o problema do bem. 

Fonte de Consulta

MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.

PETERS, F. E. Termos Filosóficos Gregos: Um Léxico Histórico. Tradução Beatriz Rodrigues Barbosa. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouse Gulbenkian, 1983. 


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20 setembro 2013

Pensamento, Filosofia e Religião

Filosofia e religião estão estreitamente relacionadas. Não foi somente o pensamento racional que procurou dar respostas a certas preocupações humanas. As religiões também tentaram explicar a origem do mundo e do homem; tentaram dar uma resposta ao que acontece ao ser humano, depois de sua morte. Embora a secularização prosperasse em muitos países ocidentais, não são poucos os indivíduos que se comportam no mundo segundo pressupostos religiosos. 

As religiões diferem em muitos aspectos: formas de adoração, modos de fazer a cerimônia e rituais a serem obedecidos. De uma forma geral, todas as religiões dividem o ser humano em dois planos – um material (o corpo) e outro imaterial (a alma, o espírito) –, nem todas acreditam na imortalidade da parte imaterial. Umas acreditam no Céu e no Inferno; outras consideram extinção como prêmio. Na maioria delas, considera-se a pessoa responsável por seus atos e por seu destino. 

Vejamos os modos como a religião se relaciona com a filosofia: 

1) O relacionamento entre filosofia e religião pode se dar de duas formas: a) o conteúdo da religião é o tema principal da reflexão filosófica, b) a filosofia é fundamentalmente religiosa. Tanto a) como b) podem desembocar numa eliminação da filosofia (em nome da religião) ou numa supressão da religião (em nome da filosofia).

2) Filosofia e religião apresentam-se como tensão e luta. Nesse caso, “filosofia” deve ser entendida como “metafísica especulativa”. Ao citado estado de tensão se refere Scheler quando, na Sociologia do saber, escreve: “O fato de que no Ocidente tenham ganho quase sempre o jogo os poderes da religião de revelação e da ciência exata e da técnica em sua secular luta comum contra o espírito metafísico espontâneo é o que constitui talvez a característica mais importante da modalidade ocidental do saber”. 

3) Filosofia estuda – mediante descrição e também exame crítico – a linguagem da religião ou o conteúdo proposicional da religião, ou ambos. Eis alguns temas que a filosofia poderia estudar: relação (ou falta de relação) entre crenças religiosas e princípios morais; estrutura e formas dos enunciados e das experiências religiosas; valores religiosos; formas de apreender o objeto da religião ou da crença religiosa; justificação ou falta de justificação das provas que se apresentam em religião. 

Na atualidade, a filosofia da religião adota o modo 3 da relação entre filosofia e religião. Por isso, necessita do auxílio de outras disciplinas, tais como, a psicologia, a antropologia ou a sociologia. Com elas, descreve-se e interpreta-se o fenômeno religioso desde seus fatos, superando o enfoque puramente abstrato da teologia ou da filosofia.

Fonte de Consulta

MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.
Temática Barsa - Filosofia 

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04 setembro 2013

Filosofia da Religião

Filosofia da religião – por analogia com a filosofia da ciência, filosofia da arte etc. – nada mais é do que a reflexão filosófica sobre a religião.

A filosofia da religião difere tanto da teologia quanto da filosofia religiosa. Enquanto a filosofia da religião procura questionar os aspectos religiosos, a filosofia religiosa é substancialmente uma filosofia da salvação, que desde o início se move num terreno religioso e não o abandona em todo o seu trajeto. A teologia, por seu turno, é a formulação sistemática das crenças religiosas. Se fosse um ramo da teologia, faltar-lhe-ia a liberdade intelectual inerente à pesquisa filosófica. Impedir-lhe-ia de questionar a existência de Deus e os dogmas essenciais da religião em estudo.

A filosofia da religião procura analisar criticamente os conceitos de Deus, da adoração, da salvação, da vida eterna etc. Em seus estudos, procura comparar diversas expressões religiosas com o avanço das descobertas científicas. Os principais problemas da filosofia da religião são: a existência de Deus, sua ligação com esse mundo sensível, o problema do mal, a relação entre moral e religião e as relações entre alma e corpo.

Desde a Antiguidade até a Idade Moderna, os filósofos tentaram dar uma resposta à atitude do ser humano diante da religião. Platão, por exemplo, afirmava a ideia do Bem, ou seja, a ideia do Divino como concentração do racional, do bom e do belo. Os estoicos defenderam que o próprio mundo é o Deus racional, submetido à lógica de seu pensamento. Newton fala-nos de um Deus como o arquiteto do Universo. A revolução científica dos séculos XVI e XVII concebe o criador como uma máquina perfeita. Hegel formulou um panteísmo dinâmico em que as três etapas da realidade, ideia, natureza e espírito, poderiam confundir-se com uma divindade não- transcendente do mundo. Nietzsche anunciou a morte de Deus. Freud, no campo da psicanálise, dizia que a religião era uma neurose obsessiva.

O problema central do estudo da filosofia da religião funda-se no conceito de Deus. Todos os demais elementos, principalmente na tradição judaico-cristã, dependem deste conceito, que fornecerá elementos para um amplo debate em torno do assunto.  

Fonte de Consulta

BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo: Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)
HICK, John. Filosofia da Religião. Tradução de Therezinha Alvim Cannabrava. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.
TEMÁTICA BARSA - FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005. 
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