23 fevereiro 2011

A Autoridade em Filosofia

O movimento iluminista do século XVIII pretende libertar as pessoas da tradição e da autoridade, para submeter todo o conhecimento ao império da razão. Por isso, prega uma crítica ao conhecido. Criticar é fazer triagem: krinein, em grego, significa “selecionar, discernir”. Enquanto Aristóteles invocava a autoridade dos anciãos, por causa da idade avançada, Descartes apelava para a negação de todo o conhecimento adquirido para, do zero, construir o seu próprio saber.

A luneta de Galileu, que lhe permitiu o questionamento da autoridade, é um exemplo do uso da razão e da demonstração. Como os homens resistem às descobertas que põe em dúvida aquilo que sempre acreditaram, e procuram a qualquer preço integrá-la em sua teoria antiga, Galileu teve de fazer esforços hercúleos para defender a sua teoria heliocêntrica, pois foi o primeiro a contestar as afirmações da Aristóteles sobre a Física.

Descartes e Galileu pensam que não se encontrará a explicação da natureza através de uma leitura assídua dos autores. Quanto mais assídua, mais fácil será passar ao largo da verdade. O acúmulo dos conhecimentos livrescos não substitui o exercício da razão. O verdadeiro filósofo não pode se tornar “doutor em memória”. Ele precisa exercitar a sua razão, como na frase celebre de Kant: “Sapere Aude! Tenha coragem de construir o seu próprio conhecimento.

Descartes chama a nossa atenção para os discursos que louvam o enigma, pois podem encobrir a verdade dos fatos. Esses conhecimentos podem ofuscar a luz natural. Por luz natural, Descartes entende a razão, a capacidade de distinguir o falso do verdadeiro. Daí que devemos submeter toda a autoridade ao exame e à autoridade da razão. Podemos nos valer do que os outros pesquisaram, mas tudo isso deve fazer parte de nosso estoque de conhecimento, que foi ruminado pela nossa razão.

Fazer dos outros filósofos um principio de autoridade, leva-nos a abdicar de nossa razão, pois como seres pensantes, não podemos nos fiar cegamente em tudo o que os outros disseram.

Fonte: RAFFIN, Françoise. Pequena Introdução à Filosofia. Tradução de Constância Morel e Ana Flaksman. Rio de Janeiro: FGV, 2009. (Coleção FGV de bolso. Série Filosofia)

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19 fevereiro 2011

Os Limites da Tolerância

Qual o limite para pôr fim ao incômodo alheio? Pergunta de difícil resposta. Jesus, por exemplo, recomenda-nos perdoar não sete, mas setenta vezes sete vezes. Perdoar sempre não seria uma espécie de fraqueza? Por quê, para agradar aos outros, temos que contrariar os anseios de nossa própria consciência? Em se tratando de uma vida religiosa, “é preferível ter todo mundo contrário a ter Jesus ofendido”.

Observe a ingerência dos outros em nossa vida. Há pessoas que se julgam donas do mundo, mandando e desmandando sem o menor pudor. Suponha, por um momento, que estejamos diante de uma dessas pessoas: ela vem até a nossa casa (para ajudar em algum serviço ou simplesmente para passar alguns dias conosco. A partir daí, mudam os objetos de lugar, ordenam o que devemos ou não devemos fazer, e assim vão indo.

Diante deste fato, pensamos: "Deixa para lá; é por pouco tempo; ela só ficará uma semana ou, no máximo, quinze dias; logo vai embora e as coisas voltam à rotina. Eu não vou arrumar confusão, inimizade ou coisa que o valha." Há, porém, uma controvérsia a esse pensamento de acomodação: “O hábito de tudo tolerar pode ser fonte de inúmeros erros e perigos”, pois estamos vendo o nosso irmão cometer o erro e nada fazemos, não o chamamos à atenção.

Lembremo-nos de alguns pensamentos sobre a verdade: 1) “Aquele que sabe e cala-se é como o avarento que amealha tesouros”; 2) “Diz a verdade, mesmo que ela esteja contra ti”. (Alcorão); 3) “As palavras verdadeiras não são agradáveis e as agradáveis não são verdadeiras”. (Lao-Tsé); 4) “A verdade nunca é injusta; pode magoar, mas não deixa ferida”. (Eduardo Girão); 5) “Prefiro incomodar com a verdade do que agradar com adulações”. (Lúcio Anneo Sêneca, moralista e filósofo latino).

Em vista de nossa responsabilidade para com o nosso progresso e o alheio, saibamos tolerar os incômodos dos nossos semelhantes, mas rejeitemos todos os nossos atos de conivência com o erro.

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16 fevereiro 2011

Da Consciência Ingênua à Consciência de Si

O exercício filosófico por excelência é passar da ilusão da imediatidade à consciência de si.

A imediatidade da realidade leva-nos aos erros de interpretação, pois a realidade é sempre emocional. Isto se dá porque, qualquer fato apresentado à nossa percepção, acaba sendo captado segundo o nosso modo de ver o mundo. Em outras palavras: há sempre um juízo de valor, uma avaliação, que é sempre pessoal. Urge, assim, passarmos dessa mera impressão para algo mais profundo, que á a consciência de si.

Pensar por nós mesmos é o primeiro passo, no sentido de não nos fiarmos apenas no que os outros disseram, procedendo como meros recitadores de frases alheias. O segundo passo é colocarmo-nos diante dos outros, para fugirmos ao preconceito e vermos as nossas ideias submetidas à UNIVERSALIDADE. Para tanto, precisamos abrir os nossos ouvidos ao pensamento dos outros. Por que estamos sempre certos e os outros errados? Não é visão deturpada?

Hegel, por exemplo, no capítulo sobre “A Certeza do Sensível” do seu livro Fenomenologia do Espírito, diz que a experiência pela qual a consciência passa é de desilusão. A dúvida e o desespero apoderam-se da consciência: a coisa sensível foge e desaparece quando pensávamos tê-la apreendido. Por isso, a consciência sensível é o mais baixo nível de consciência que deve se elevar à consciência de si e à razão.

Dispor nossos dados à crítica da universalidade ajuda-nos a vencer alguns preconceitos. O preconceito é uma ideia recebida sem crítica, uma opinião, aceita sem elaboração pessoal. Preconceito são falsas evidencias que se originam da nossa experiência de vida. Observe que os seguidores das religiões adquirem uma série de preconceitos com a facilidade. É que as religiões estão repletas de dogmas, que se transformam em preconceitos, porque não podemos pensar fora dessa linha de ideias.

Não é sem razão que muitos pensadores estimularam o ser humano a ser primeiramente religioso e não a ter uma religião. O religioso está aberto a qualquer tipo de experiência; o que tem uma religião, apenas aos seus dogmas. Pensar – fora dos parâmetros estabelecidos – exige a postura do pensamento que está sempre à procura da verdade, esteja ela onde estiver. A verdade não é monopólio de uma religião, de uma instituição. Ela pertence ao patrimônio comum das inteligências.

Desconfiemos das aparências. Tentemos, em seu lugar, aprofundar a imediatidade da realidade.

Fonte: RAFFIN, Françoise. Pequena Introdução à Filosofia. Tradução de Constância Morel e Ana Flaksman. Rio de Janeiro: FGV, 2009. (Coleção FGV de bolso. Série Filosofia)

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