26 maio 2010

Cinco Conceitos de Justiça

Os cinco conceitos de justiça são:

1) A cada um a parte que lhe cabe. É a justiça distributiva que aplica o princípio da proporcionalidade. Há um bem comum. Este bem deve ser distribuído proporcionalmente para todos os membros da comunidade.

2) A cada um segundo as suas obras. Não se leva em conta aquilo que as pessoas são, nem esforços ou méritos, nem seus dons ou facilidades, somente o que elas fizeram ou podem fazer.

3) A cada um segundo a sua contribuição à obra coletiva. É o princípio que considera como justo quando se trata de remunerar com salário um trabalho. Deve ganhar mais quem mais contribui para a produção do bem. Leva-se em conta o tempo de serviço e outras vantagens adquiridas. Este caso é uma extensão do anterior.

4) A cada um segundo os seus méritos. É um conceito puramente moral. Esse critério de justiça exige que se avaliem as qualidades essenciais da própria pessoa, incluindo seus vícios e suas virtudes.

5) A cada um segundo as suas necessidades. Este conceito de justiça é aplicado aos bens de consumo. Mesmo que uma pessoa não possa trabalhar, ela deveria receber o necessário para poder viver.

Exemplo: uma torta deve ser dividida entre os alunos de uma classe. No primeiro caso, as partes seriam estritamente iguais; no segundo e terceiro caso, dar-se-ia uma parte maior a quem fez mais trabalhos de casa; no quarto caso, dar-se-ia em função dos esforços de aprendizagem e não de acordo com a quantidade apresentada; no quinto caso, dar-se-ia em função da condição social do aluno: os alunos pobres receberiam mais do que os alunos ricos, pois estes já têm o suficiente em suas casas.

Para mais informações, leia o capítulo “Justiça, Estranha Virtude”, por Francis Wolff, in: NOVAES, Adauto (Org.). Vida Vício Virtude. São Paulo: Senac, 2009.


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Dificuldades para Captar a Verdade

A verdade é comumente definida como uma relação entre o Sujeito e o Objeto. O Sujeito capta o Objeto e retorna ao mesmo como uma crítica conceituada. Se a imagem que teve do Objeto coincidir com a do próprio Objeto, diz-se que está de posse da verdade; se não coincidir, que está em erro.

Há, porém, muitas dificuldades quando queremos aprofundar essa relação. Precisamos incluir os condicionamentos do Sujeito, a sua familiaridade, os seus desejos, os seus interesses, as suas crenças, o seu sistema de valores. Ainda mais: há necessidade de verificar se suas percepções estão em perfeito estado, isto é, que não haja deficiências, como é o caso de enxergar sem luz, de sentir o cheiro de alguma coisa, estando resfriado.

As religiões e seus dogmas têm grande influência nos valores que o indivíduo forma para si e para os seus. Em tese, todas professam a verdade, verdade que leva o seu adepto à salvação. Se a sua crença religiosa leva à salvação, as outras estão em erro. Esta pessoa não é capaz de pensar que o outro também pode estar com a verdade. É por isso que a pluralidade das crenças leva aos conflitos e às diversas guerras que tivemos ao longo da história da humanidade. 

O problema do status social. Tomemos, por exemplo, um acidente de trânsito, em que um motoqueiro é atropelado por um automóvel. Haverá tantas versões quantas forem as pessoas indagadas. Se perguntarmos a um outro motorista de automóvel, ele dirá que o motoqueiro é imprudente, que atrapalha o trânsito, que fura a fila etc. Se perguntarmos a um outro motoqueiro, ele dirá que o motorista do automóvel tem raiva deles, que os trata com desprezo.

Os aspectos denotativos e conotativos. Suponha a palavra “vaca”. Ela denota um animal, cujo conceito (imagem mental) é a mesma em toda a parte do mundo. Entretanto, conota muitos outros significados. Na Índia, é considerado um animal sagrado. Este símbolo tem forte poder no relacionamento entre as pessoas. Nesse caso, quando quisermos ofender uma pessoa, basta tratarmos mal a sua vaca, que repercutirá sobre o seu possuidor. Não faz muito tempo, houve uma celeuma sobre a quebra de uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida.

Além das dificuldades conotativas, religiosas, de condicionamento e de status social, deparamo-nos com a mentira. A mentira é uma espécie de imposição para nos fazer crer que algo é diferente do que realmente é. Os discursos políticos, por exemplo, precisam ser estudados e analisados nos seus mínimos detalhes, pois muitos deles trazem um viés dos dados e da análise da conjuntura nacional e mundial.

Lembremo-nos de que quanto mais nos desvencilharmos dos nossos condicionamentos e dos nossos preconceitos, mais aptos estaremos para nos aproximarmos da verdade. Dizer “é possível que estejamos em erro” é muito útil, pois obriga-nos a revisar aquilo que tínhamos por verdade inconteste.

Fonte de Consulta: Capítulo IV (A Verdade Pode Ser Plural?), de Promover Harmonia: Vivendo em um Mundo Pluralista, de Michael Amaladoss, S. J. Rio Grande do Sul: Unisinos, 2006.

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12 maio 2010

Justiça e Verdade

Justiça. Em seu sentido restrito, é a vontade de conceder o direito a si próprio e aos outros segundo a igualdade. Em seu sentido moral, respeitar cada um a si mesmo e ao próximo. Verdade. É uma adequação entre o Sujeito (inteligência) e o Objeto (realidade). Do latim adaequatio intellectus et rei. Em sentido mais elevado, uma completa interpenetração de inteligência e ser.

Para Aristóteles, a justiça é o principal fundamento da ordem do mundo. Ela não está dissociada da pólis, da cidade, ou da vida em sociedade. Ela não é adquirida nos livros ou mesmo pelo pensamento. Ela tem que ser construída na vida prática, isto é, pela obediência às leis da pólis e pelo bom relacionamento com os cidadãos.

Justiça humana e justiça divina. A justiça humana, através de leis estabelecidas pelas autoridades de um determinado país, julga e castiga os delitos cometidos. Uma pessoa fica reclusa por vários anos. Atendeu à lei do homem. E com relação à justiça divina? A justiça divina vê o sujeito na sua totalidade, incluindo as suas diversas encarnações. Pode-se dizer que a justiça humana pune os crimes factuais; a justiça divina, os essenciais. Nada fica incólume. Nesse caso, é possível que o sujeito tenha cumprido a sua pena na Terra, mas não o tenha saldado com relação à justiça divina, que vê o que se passa no íntimo do ser.

Tudo o que é justo é verdadeiro? Em principio, tudo o que é justo deve também ser verdadeiro. Acontece que vivemos num mundo imperfeito. Nesse caso, podemos cometer muitas injustiças em nome da justiça, pois como determinar com exatidão o que é justo e o que é injusto? Conta-se o caso de um habitante de um mundo superior em visita ao nosso. Em suas observações, detectou: 1) uma pessoa ser presa por ter roubado um pedaço de pão para saciar a sua fome; 2) outra, que havia dizimado centenas de seres humanos em batalhas sangrentas, ser condecorada. Disse: vamos esperar mais uns 500 anos para ver como estará a justiça no Planeta Terra.

Costumamos reclamar que Deus é injusto e que não merecemos tanto sofrimento. Pergunta-se: as aflições são justas? Dada a limitação do nosso conhecimento, achamos que Deus é injusto, que Ele nos manda uma prova além de nossa força. Tudo isso é puro engano. Cada um de nós está no devido lugar, para a realização do seu progresso material e espiritual. Nada que se nos acontece, acontece por acaso.

Os filósofos da antiguidade já nos diziam que, no justo momento em que quisermos refutar uma verdade, seremos por ela refutados. Cristo, nas suas pregações, disse: “Não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a se tornar conhecido" (Mateus 10.16b). Daí, a certeza de que diante da verdade só nos resta aceitá-la de bom grado, seja agradável ou desagradável.

A justiça, a verdade e o bem são os conceitos mais sagrados para a humanidade. Saibamos apreendê-los e colocá-los em prática em nosso dia-a-dia. 

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07 maio 2010

Virtudes Cardeais

Platão, no livro IV da República, descreve as qualidades que uma cidade deve ter para o seu funcionamento racional. Essas qualidades são enumeradas em função de quatro virtudes, chamadas de fundamentais, e que mais tarde denominaram-se virtudes cardeais. Elas são: prudência (sabedoria), fortaleza (coragem), temperança e justiça.

Vale a pena notar que essas virtudes, primeiramente, dizem respeito à cidade, no sentido de termos cidades retas, ou cidadãos que agem segundo a reta razão. Somente depois é que o termo passou a ser aplicado ao próprio cidadão. Isso tem certa razão, pois Platão achava que não havia diferença substancial entre o público e o privado. As coisas devem valer muito mais pelas ideias que lhe são próprias.

Prudência (sabedoria). O que é uma cidade sábia? É a cidade que age segundo certa ciência, a ciência de saber escolher. Nesse caso, escolhe-se o melhor, segundo a natureza de cada coisa, pois Platão entendia a virtude como a potência que cada objeto tem em si mesmo. Por exemplo, a função da planta é produzir frutos Assim, a direção da cidade deveria ser feita pelo rei-filósofo, pois ele, segundo a sua natureza, era o mais sábio para o fazer, porque veio para desempenhar essa função.

A fortaleza (coragem) é um sentimento ou virtude que evoca a força. Observe o guerreiro. Ele não pode ser covarde, pois se assim o for não terá condições de defender a cidade dos inimigos. Daí, dizer que a coragem é a defesa da opinião própria, mesmo quando atacada por todos os lados e por todas as pessoas. A paciência, ligada à fortaleza, é a disposição interior de enfrentar as vicissitudes da vida: dor, morte, desilusão.

A temperança, segundo Sócrates, é uma ordenação e ainda um poder sobre certos prazeres. Assim, a temperança refere-se à contenção dos prazeres sensitivos dentro dos limites estabelecidos pela razão. Diz-se que a moderação é a temperança no comer, a sobriedade é a temperança no beber e a castidade é a temperança no prazer sexual.

No estabelecimento da cidade, Platão disse que “cada um deve ocupar-se de uma função na cidade, aquela para a qual a sua natureza é mais apta por nascimento” (Rep., V, 433 c). Isto equivaleria também à justiça, pois implica “executar a tarefa própria e não fazer a dos outros”. (Rep., IV, 433 a). hodiernamente, poderíamos dizer que a justiça consiste na atribuição, na equidade, no considerar e respeitar o direito e o valor que são devidos a alguém, ou alguma coisa.

Como vemos, temos muito que aprender a respeito das virtudes. O mais importante é não deixarmos que esse termo caia no esquecimento, como sói acontecer nos dias presentes, sendo este o principal empecilho para o nosso desenvolvimento moral e espiritual.

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