28 janeiro 2009

Tédio: Significado e Transgressão

De acordo com Lars Svendsen, em Filosofia do Tédio, o conceito de tédio está associado ao conceito de significado e de transgressão. Para explicitar a sua tese, fez um intenso trabalho de pesquisa, consultando diversos pensadores acerca do tema. Entre eles estão: Adorno, Heidegger, Kierkegaard, Nietzsche, Pascal, Schopenhauer e Wittgenstein.

Kierkegaard descreveu o tédio como "a raiz de todo o mal". Rochefoucauld, referindo-se à corte francesa, disse: "Quase sempre somos entediados por pessoas para as quais nós mesmos somos entediantes". Para Pascal, "o homem sem Deus está condenado à diversão". Para Nietzsche, o tédio é "a 'desagradável calma' da alma" que precede os atos criativos, e enquanto os espíritos criativos o suportam, "natureza menores" fogem dele. No romance Lucinde (1799), no capítulo "O Idílio do Lazer", Friedrich Schlegel escreve: "Toda atividade vazia, agitada, não produz qualquer coisa senão tédio – o dos outros e o nosso".

O tédio é um fenômeno moderno. Ele surge quando não sabemos o que fazer com a passagem do tempo. Na era pré-moderna, falava-se da acédia, um conceito sobretudo moral. O demônio do meio-dia (daemon meridianus) é um tipo de acédia, o mais ardiloso de todos, pois ataca o monge em pleno dia, fazendo com que tudo lhe pareça uma ilusão. O demônio o faz detestar o lugar onde se encontra - e até a própria vida, lembrando-o dos atrativos que tinha antes de se devotar a Deus. Segundo Evágrio, quem consegue resistir à acédia, mediante vigor e paciência, será também capaz de resistir a todos os outros pecados e encontrará aí a alegria.

O tédio relaciona-se com informação e significado. Sabemos que informação e significado não são a mesma coisa. Significado consiste em fazer uma conexão da parte com o todo; a informação, não. Podemos encher o nosso cérebro com dados, fórmulas e as mais variadas técnicas, mas sem significado algum para nós. Nesse caso, temos de distinguir o essencial do acessório, a novidade, da verdade. Quantas não são as informações que recebemos diariamente que nada tem a ver com o nosso crescimento moral? O tédio aqui representa a perda de significado.

A transgressão, por seu turno, é a satisfação da necessidade que só se sacia na novidade. Para fugir ao tédio, procuramos os divertimentos, as festas, as peças teatrais, as viagens, as discotecas, os barzinhos etc. Nada disso, porém, preenche-nos intimamente. Incita-nos, pelo contrário, a fugirmos de nós mesmos. Contudo, com mais ou menos tempo, o tédio volta a nos visitar, pois desprezamos a verdadeira necessidade de nosso espírito, que é a evolução espiritual.

Renunciemos às novidades, às diversões e ao culto às celebridades. Apliquemos os nossos recursos pessoais na obtenção dos conhecimentos que irão conosco para o além-túmulo.

Fonte de Consulta 

SVENDSEN, Lars. Filosofia do Tédio. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
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23 janeiro 2009

O Acessório e o Essencial

Sócrates e Platão, na Antigüidade, enalteceram a morte e nos trouxeram a certeza da imortalidade. Segundo eles, “o verdadeiro filósofo vê na morte a meta e a realização de sua própria vida, pois só quando a alma fica livre do corpo ele alcança o conhecimento do verdadeiro ser, das Ideias”. Acrescentam que a “morte é a completude da vida, mas não para todas as pessoas, apenas para o filósofo”. Para Sócrates, “o medo da morte é um sinal de que um ser humano não ama a sabedoria, mas o corpo”.

Em vista do exposto, podemos questionar o modus operandi de nossa vida, notadamente aquilo que costuma visitar os nossos pensamentos. Será que não estamos perdendo tempo em coisas acessórias e deixando de lado aquelas que poderiam auxiliar a iluminação de nossa alma imortal?

À noite, por exemplo, ficamos horas e horas diante da televisão assistindo a novelas, filmes e telejornais. É necessário ficarmos tantas horas diante dela? Qual o limite entre o lazer, a necessidade de informação e a robustez do nosso espírito? Do mesmo modo, é a navegação na Internet. É realmente necessário o tempo gasto com jogos, conversas on-line e verificação de e-mails? Quantas dessas atividades poderiam ser eliminadas, sem nada prejudicarem o nosso desempenho vital e peremptório?

Sonhos, devaneios, imaginação. Quantas dessas situações estão tomando mais tempo do que o necessário? Dada a urgência de fazermos isso e aquilo, deixamos muitas coisas começadas e pouco acabadas. Lembremo-nos, contudo, do provérbio: “something tempted something done” (algo tentado, algo terminado). Os grandes pensadores, principalmente os clássicos, advertem-nos para estarmos inteiros no que estivermos fazendo, ou seja, concentrados na edificação de nossa própria alma.

As orientações dos clássicos devem ser ouvidas, pois elas nunca ficam obsoletas. Eles nos incentivam a cultivar as coisas essenciais da vida, aquelas ligadas à nossa evolução moral, intelectual e espiritual. Quando não lhe damos ouvidos, podemos seguir diversos caminhos que nada ajudam essa tal evolução. É o caso de nos perguntarmos sobre a morte e o morrer: se os bons deuses quisessem nos levar esta noite, como seríamos recebidos no mundo dos imortais?

Reflitamos sempre sobre os pressupostos clássicos. É possível que, sem o percebermos, estejamos nos desviando do caminho reto. Recordando os seus exemplos, podemos nos emendar e voltar a trilhar o caminho do bem.
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21 janeiro 2009

Exemplo dos Clássicos

"A essência do que é clássico é nunca se tornar obsoleto, mas ser um estímulo para a renovação, em todos os tempos".

Platão e Aristóteles são considerados os clássicos da Antiguidade. As teses que desenvolveram sobre o bem e o mal, a virtude e o vício, a justiça e a injustiça servem-nos de reflexão para os dias que correm. Há quem diga que a filosofia contemporânea nada mais é do que um apêndice da filosofia de Platão. Deveríamos consultá-los, não para fazer uma história da Filosofia, mas para tê-los como companheiros, como estimuladores de nossa renovação mental e espiritual.

Para Platão e Aristóteles, a felicidade é a vida bem-sucedida na comunidade. Não é o dinheiro, não é a riqueza, mas a realização plena do indivíduo junto com os outros seres humanos. Eles enquadram todas as ações dentro do princípio do bem. Somente aquele que sente o bem pode falar da bondade. As suas idéias servem para combater a progressiva individualização em que caminha a sociedade moderna, principalmente pelo uso dos celulares, da Internet e das modernas inovações do mundo da informática.

O bem está relacionado com a filosofia prática e não a teórica. A filosofia prática pressupõe ação, movimento, afazeres. Nesse sentido, a discussão do conceito do bem não nos leva muito longe, porque o bem não pode ser explicado por um conceito. Ele se revela no âmago de cada um de nós. Sócrates, por exemplo, dizia: "Para uma boa pessoa não há mal, nem na vida nem na morte". Platão, por sua vez, afirmava que "A direção errada do olhar da alma leva a um conceito errado do bem".

A busca da felicidade exige que saibamos viver em sociedade, que saibamos aceitar as contrariedades, que saibamos tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais. A Psicologia Social ensina-nos que todas as pessoas gostam de ser tratadas como se fossem únicas. É preciso descobrir o que cada um é para poder ajudar com eficácia. Essa aprendizagem mostra o grande esforço que cada um de nós deve fazer para cumprir a sua missão nesta vida.

Quando nos propomos a fazer o bem, temos que olhar para o bem, refletir sobre ele e enfrentar os percalços que ele possa nos oferecer. Qualquer desvio tem conseqüências futuras, pois um pequeno desleixo hoje pode provocar séculos de sofrimento amanhã. Muitos são os que não atinam para este raciocínio. Por que temos que ser moralmente bons? Por que temos que ser justos? Estas questões, que são de todos os tempos, devem ser repetidas para que nos lembremos de nossos deveres de cada dia.

Libertemo-nos dos fogos-fátuos das coisas insignificantes. Fixemos o nosso olhar no bem, pois ele representa o modelo de nossas ações em sociedade.

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14 janeiro 2009

O Método e o Ensino de Filosofia

A função da escola é "passar" o saber, o que requer continuidade. O assunto de hoje deve estar ligado ao de ontem, o de amanhã ao de hoje, e assim por diante. Depois de um dado período de tempo, temos o resultado, que é o acréscimo de conhecimento ao estoque inicial que o aluno possuía. Para que um conteúdo seja transmitido, fala-se em método de ensino. Contudo, não existe um único método de ensino; há, sim, pluralidade de métodos.

Um método eficaz, numa determinada situação, pode ser um anti-método em outra. O círculo, considerado como o mais democrático dos métodos de ensino de filosofia, pode ser objeto de controle muito mais acentuado do que a aula magistral. Depende muito mais das pessoas que o usam do que dele propriamente dito. Suponha que o professor facilitador esteja imbuído de ideologias, de planos velados de controle. Quem poderá afirmar que, usando o círculo, será mais democrático? Há que se distinguir entre o que o professor é e o método que ele usa.

Ensinar filosofia pressupõe estabelecer limites entre o que se sabe e o que não se sabe, que em Sócrates é a tomada de consciência de nossa ignorância. Assim sendo, o que mais conta é o diálogo. É na perspectiva de olhar o outro como igual a nós mesmos que poderemos estabelecer uma relação contínua de ensino e aprendizagem. Respeitando o aluno, o professor poderá "passar" a sua matéria, porque poderá criar um círculo de amizade e amor.

E, se hoje, assistimos aos mais variados tipos de violência nas escolas é porque a relação entre professor e aluno não está embasada no amor e no respeito. Krishnamurti já nos dizia que se o mundo é violento é porque todos nós o somos individualmente. Observe que o controle da navegação das crianças na Internet é uma forma velada de violência. Não podendo convencer pelo diálogo, os responsáveis partem para a força, para o desamor.

No ensino, há necessidade de um mestre. O mestre insere-nos numa doutrina; depois, nos tornamos mestres e inserimos outros discípulos, e assim sucessivamente. Isso não deve ser uma mera repetição, pois cada um, além de receber ensinamentos do seu mestre deve se fazer mestre de si mesmo. Observe o procedimento num Centro Espírita conceituado. Chegando ao mesmo, somos instruídos por aqueles que chegaram antes. Entramos em contato com eles e seguimos as suas orientações. Depois de algum tempo, somos nós a encaminhar outros frequentadores.

A função do mestre não é somente ensinar, mas criar condições para que o educando potencialize as suas virtualidades. Para isso, precisa despertar-lhe o interesse pelas coisas novas, a fim de adquirir uma nova visão de mundo.
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