30 dezembro 2009

Problemas Filosóficos

Problema filosófico é a proposição de uma questão para a defesa de uma tese. Ubaldo Nicola, no livro Antologia Ilustrada da Filosofia, descortina-nos 200 problemas e as suas respectivas teses. Eis algumas questões levantadas.

Qual é a tarefa da filosofia? A verdade pode ser ensinada?
No que consiste o trabalho do filósofo? Qual é o processo de investigação mais adequado pra alcançar a verdade?
Que relação existe entre teologia e filosofia?
Como se deve pensar em Deus?
O que se pode afirmar da divindade?
Como conciliar a eternidade de Deus com a finitude temporal do mundo?
Se Deus é eterno não é lógico que o mundo também o seja? Senão, o que fazia Deus antes de criar o Mundo? É imaginável um Deus inativo?
O que se pode afirmar de Deus?
A existência de Deus pode ser provada por meio de um raciocínio lógico?
Pode-se distinguir o verdadeiro conhecimento da opinião? Em que condições se pode alcançar a verdade?
Existe uma verdade não opinável? No que consiste o conhecimento humano?
Qual é a estrutura do Universo?
Qual a origem do mundo? Existe um princípio primordial (arché) do qual tudo deriva?
Qual é a lei que governa o mundo? Em que consiste o pensamento?
O que é a alma? É imortal? O que confere vida ao animal, separando dele no momento da morte?
Para que vale a pena viver? A morte do corpo implica o fim definitivo do indivíduo? Existe vida depois da morte?
O que é o amor?
O amor é positivo mesmo quando se manifesta como paixão, enamoramento, desejo sexual?
Por que existe uma atração sexual entre pessoas do mesmo sexo?
Por que os homens desejam conhecer?
Em que consiste a inteligência?
Quais são os pressupostos de toda pesquisa científica?
Em que consiste a virtude? Existe uma regra geral do comportamento?
Como se deve viver?
Qual o melhor modo para ordenar a própria vida? Em que consiste a felicidade? É bom termos muitos desejos?
Qual deve ser o critério condutor do comportamento humano?
É possível viver sem sofrer? O que torna o homem sempre inquieto e insatisfeito?
Se Deus é bom, quem criou o mal?
Onde nasce a tendência dos homens a praticar o mal? Por que se praticam ações maldosas em propósito e sem utilidade?

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Maria Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.
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19 dezembro 2009

Contos e Enigmas Filosóficos

Em Filosofia, costumamos usar frases enigmáticas, contos, poesias e perguntas capciosas, para exercitar o pensamento. Quando o ser humano está absorto nessas questões, ele parece que se transporta para um outro mundo, o mundo da imaginação. Há personagens impossíveis em movimento, povoamento de outros planetas, as águas deslocam-se para as fontes, os animais opinam, os deuses se tornam seres carnais.

Jean-Claude Carrière, depois de dez anos de pesquisa, edita, em 2008, o livro Contos Filosóficos do Mundo Inteiro. Relata-nos que houve muita dificuldade em organizar os tópicos esparsos. Há, porém, uma falha: não colocou os títulos em ordem alfabética, o que facilitaria a sua busca. De qualquer modo, é um livro que deve ser lido, pois consegue nos elevar acima de nós mesmos e das nossas pretensas dificuldades.

Escolhamos um título: o cômodo escuro. Como está disposto este assunto? Três atitudes humanas podem ser definidas a partir de um cômodo escuro. Num cômodo escuro, um homem procura por alguma coisa. É um cientista. Num quarto escuro, um homem procura por uma coisa que lá não se encontra. É um filósofo. No mesmo quarto escuro, um religioso procura por alguma coisa que lá não se encontra e exclama: — Eu encontrei!

Os casos relatados são muitos; estão distribuídos nas suas 300 páginas. A tônica desses contos, dessas perguntas, dessas questões, desses enigmas é despertar o pensamento, geralmente por meio da controvérsia. O ideal não é querer memorizar todos esses textos, mas escolher aqueles que se coadunam com o nosso modo de pensar, com os nossos gostos e os nossos sentimentos. 

Continuando, podemos anotar a seguinte poesia:

Do repouso dos humanos implacável inimiga
Tornei mil amantes invejosos da minha sorte
Eu me alimento de sangue e encontro a vida
Nos braços daquele que procura minha morte.
(A pulga)


Há inúmeras formas de enfrentarmos o tédio e não deixarmos que o desespero tome conta de nós. Quando o trabalho nos causar estresse, deixemo-lo momentaneamente e usufruamos dessas ilações do pensamento. Somos levados para um mundo diferente, um mundo onde a imaginação pode tudo como sói acontecer em filmes e novelas.


Fonte: CARRIÈRE, Jean-Claude. Contos Filosóficos do Mundo Inteiro. Tradução de Cordelia Magalhães. São Paulo: Ediouro, 2008.
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09 dezembro 2009

Metafísica e Número

“Desde a mais alta antiguidade o mundo foi considerado uma construção matemática, cuja harmonia não podia ser, naturalmente, senão de essência divina”.

A Metafísica é a ciência primeira, o esforço que o ser humano faz para chegar à essência do Universo, de Deus e de tudo o que existe no mundo. Poderia ser um sinônimo de Filosofia, caso não houvesse a sua ligação indevida com o “sobrenatural”. Neste artigo vamos analisar a sua relação com os números.

O número exerce um poder sem limite. É ele que nos posiciona na vida. Estamos sempre no meio deles, fazendo contas, pagando dívidas, comprando mantimento. Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe, assim se expressa: “As pessoas crescidas adoram os números. Quando você lhes fala de um novo amigo, elas nunca perguntam o essencial: ‘Qual é o som de sua voz? Quais são os seus brinquedos preferidos? Ele coleciona borboletas?’ Elas sempre perguntam: ‘Qual é a sua idade? Quantos irmãos têm? Quanto ela pesa? Quanto ganha seu pai?’”

Algumas citações. De acordo com a Bíblia, Deus ordenou todas as coisas “segundo o número, o peso e a medida”. Leibniz: “Enquanto Deus calcula e exerce seu pensamento, o mundo se faz...” e, em sua convicção, ele acrescenta: “O ateu pode ser geômetra, mas não sabe o que é geometria”. Descartes disse: “Eu não incluo, em minha física, outros princípios que não aqueles que aceito em matemática”. Hegel: “Nada há de real além do racional e nada há de racional além do real”.

Para Pitágoras, todas as coisas eram números e qualquer número era uma divindade. Deus era representado pelo número 1, a Matéria pelo número 2 e o Universo pelo número 12, resultante da multiplicação de 3 por 4. Havia, assim, uma unidade divina, absoluta e primordial, na qual ele vê a mônada das mônadas, ou seja, a imortalidade da alma, a pluralidade das existências e a organização harmoniosa do universo, em que os números têm um poder ilimitado.

Os números são símbolos. O que está por detrás deles é a busca da origem das coisas. Observe a Cabala – decifração dos textos sagrados pelo simbolismo dos números e das letras. Ela é, antes de tudo, a explicação de uma cosmogonia (formação do Universo), baseada nos números, considerados potências conscientes e ativas.
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Nova Ciência

Até a Idade Média, a ciência era descritiva e se baseava no Universo finito de Aristóteles. Prevalecia também a teoria geocêntrica de Ptolomeu. O marco inicial da teoria científica está na teoria de Nicolau Copérnico (1473-1543), astrônomo de origem polonesa, que negou ser a Terra o centro do Universo. Em seu lugar coloca o Sol, daí a teoria heliocêntrica. Está dada a partida para o Universo infinito e a Nova Ciência.

A Nova Ciência começa com Francis Bacon que, em seu Novum Organon, descortina-nos os fundamentos do método indutivo e experimental. Na lógica aristotélica, o caminho do conhecimento é dedutivo, ou seja, do geral ao particular. Francis Bacon propõe o método indutivo, do particular ao geral, capaz de estabelecer as leis rigorosas da observação empírica. Em linhas gerais, este método se baseia nas tentativas e erros e no aperfeiçoamento sucessivo das hipóteses. Conforme vão se sucedendo os experimentos, descartam-se os erros e mantêm-se os acertos.

Galileu dá prosseguimento ao método indutivo de Bacon. Para ele, o Universo está escrito em linguagem matemática. É preciso, assim, unir observação dos dados e cálculos matemáticos. Desta forma, o fator mais importante na experimentação científica é tornar mensuráveis os fenômenos da natureza. Galileu não está interessado na metafísica, nos porquês disso e daquilo. Ele procura os detalhes numéricos e não a especulação filosófica. Ao referir-se ao Planeta Júpiter, por exemplo, não está interessado em discutir quem o criou, mas saber a sua distância em relação aos outros planetas, a sua composição física e se há possibilidade de vida humana.

A teoria da gravitação universal de Newton leva a Nova Ciência ao apogeu. Para que isso ocorra, convém nos lembrarmos de todos os elos anteriores: heliocentrismo de Copérnico, as teorias de Kepler, as experiências de Galileu, a anatomia de Vesalius etc. Contudo, o que conta mesmo é o mecanicismo, ou seja, a explicação dos fenômenos da natureza segundo as leis mecânicas do movimento. A unificação do mundo se dá pelas leis mecânicas e não mais pela metafísica e a teologia.

Giordano Bruno, baseando-se na teoria heliocêntrica de Copérnico, elabora uma nova visão de mundo. O Universo é infinito e Deus está a ele incorporado (panteísmo). Esta concepção vai de encontro ao Deus transcendente da Idade Média. Com Copérnico, a Terra deixa de ser o centro do Universo, dando o seu lugar ao Sol. Com Giordano Bruno, o Sol deixa de ser o centro do Universo e o seu centro, como já dizia Nicolau de Cusa, está em todas as partes e em nenhuma.

A Nova Ciência, pela tônica do experimento, livrou-nos de muitos erros. É preciso, porém, colocar cada coisa no seu devido lugar, para que não sejamos tragados pelo endeusamento numérico.

Fonte de Consulta

Temática Barsa (Filosofia)
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18 novembro 2009

Autodefesa Intelectual

“O verdadeiro pensador crítico admite o que pouca gente está disposta a reconhecer: que não deveríamos confiar comumente em nossas percepções e memória”. (James E. Alcock)

Diariamente, lemos e ouvimos os noticiários dos jornais. As notícias pululam velozmente. Conforme for a aceitação do público, elas continuam na mídia; depois de algum tempo, caem no esquecimento. Por detrás de uma informação, há o interesse político e o da mídia de um modo geral, de sorte que a verdade nem sempre está à vista. Normand Baillargeon, em seu livro Pensamento Crítico: Um Curso Completo de Autodefesa Intelectual, discorre sobre este assunto.

Joseph Goebbels, ministro nazista de Informação e Propaganda do governo do III Reich, disse: “À custa de repetições e da ajuda de um bom conhecimento do psiquismo das pessoas envolvidas, deveria ser possível provar que um quadrado é de fato um círculo. Porque afinal o que são “círculo” e “quadrado”? Simples palavras e as palavras podem ser usadas até tornarem irreconhecíveis as ideias que veiculam”.

Para fazer uma crítica, não basta pegar a definição dada pelo dicionário, pois o dicionário fornece convenções de uma sociedade relativas ao uso das palavras, convenções explicitadas com o uso de sinônimos. A etimologia da palavra também não ajuda muito, pois o seu significado muda com o tempo. Importa mais procurar uma definição conceitual.

Os números e os gráficos também podem deformar a verdade; basta apresentá-los segundo um dado interesse. Observe a frase de Benjamin Dereca: “Existem três tipos de pessoas: as que sabem contar e as que não sabem”. Qual o enigma dessa frase? Benjamin Dereca está querendo nos mostrar que alguém não sabe contar, pois começa afirmando que há três tipos de pessoas, mas só cita dois.

Argumentar não é discutir. Discussão envolve opiniões. Argumentar é buscar a lógica da verdade.

Fonte de Consulta

BAILLARGEON, Normand. Pensamento Crítico: Um Curso Completo de Autodefesa Intelectual. Tradução de Patrícia Sá. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.
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11 novembro 2009

Montaigne: Ensaios

Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) nasceu e morreu na França. Seu pai era um rico comerciante de vinho, o qual teve oportunidade de proporcionar-lhe educação esmerada, sendo que, aos 13 anos de idade, sabia mais latim do que francês. Montaigne ficou famoso pelos seus Ensaios, dividido em três livros, escritos de 1580 a 1588. Muitos usufruíram de suas lições. Na lápide de Auguste Collignon, morto em 1830, aos setenta e oito anos, havia a seguinte inscrição: “vivera para fazer o bem, tendo haurido suas virtudes nos Ensaios de Montaigne”.

Toda a filosofia de Montaigne está condensada no lema socrático: Que sais-je? ("O que é que eu sei?"), que ele mesmo mandou cunhar numa moeda. Este lema explica-se pelo ceticismo. Trata a filosofia como um saber presunçoso. "A presunção é nossa doença natural e original", e a filosofia em seus altos voos metafísicos, é apenas um produto da vaidade humana. A razão, pensa Montaigne, não pode alcançar certeza alguma, mas o homem tem de se acostumar a viver na incerteza, e suportá-la estoicamente.

O objetivo dos Ensaios era deixar com amigos e conhecidos um retrato mental dele próprio, inclusive com os seus defeitos, sem método de classificação dos assuntos. Ele dizia: “Não pinto o ser, pinto a passagem, não a passagem de uma idade a outra, de sete em sete anos, como diz o povo, mas dia a dia, minuto a minuto”. Partia de si mesmo, tentando uma generalização do ser humano. Aproveitava o ensejo para combater o egoísmo e o preconceito que grassava na sociedade.

As suas ideias eram fundamentadas nos grandes escritores do passado, principalmente Plutarco. Os pensadores estóicos influenciaram-no sobremaneira. As suas inspirações vinham deles. A sua tese educativa visava a formação do juízo (particular e moral) mais do que a do juízo científico. Para Montaigne, a filosofia é a arte de conhecer para aprender a “viver bem” e a “morrer bem”.

Alguns pensamentos extraídos dos Ensaios: “Duvidar, negar mesmo, não é deixar de aprender”; “Por diversos meios chega-se ao mesmo fim”; “As ações julgam-se pelas intenções”; “Nas terras ociosas, embora ricas e férteis, pululam as ervas selvagens e daninhas, e para aproveitá-las cumpre trabalhá-las e semeá-las a fim de que nos sejam úteis”; “Uma mesma linha de conduta pode levar a resultados diversos”; “O homem não cede a outrem a glória que conquistou”.

Segundo a crítica, Montaigne é um naturalista sem pretensão, que se compraz nas observações de cada dia. Longe de ser um estado doloroso da alma, a dúvida é, para ele, o seu estado ordinário, uma espécie de crepúsculo psicológico cheio de uma forma indecisa, e que gosta de prolongar porque se sente à vontade, independente e desligado. Quando suspendia o juízo não era para desanimar as boas vontades: reservava o seu juízo para momento mais propício, pois nada lhe custava ficar na incerteza.

Cada pessoa é única. Montaigne, por exemplo, foi o primeiro filósofo a inaugurar os ensaios, sem classificação alguma. A sua única preocupação era a de registrar a tensão formada em seu ser em seu pensamento.
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12 outubro 2009

A Metáfora do Trilho

Metáfora é a mudança do sentido comum de uma palavra por outro sentido possível que, a partir de uma comparação subentendida, tal palavra possa sugerir. A palavra trilho pode sugerir-nos diversas ideias: de finito e infinito, de destino do ser humano, do bem e do mal, da perfeição, de um ideal a ser atingido, de um roteiro, dos desvios de rumo e da ansiedade.

Em uma viagem trem, podemos observar os trilhos paralelos que servem para a nossa volta. Ao redor deles, há pedras, dormentes, árvores e vegetação rasteira. Sentados próximo à janela, estas imagens deslizam suavemente aos nossos olhos. Se não tivermos nenhuma preocupação, o nosso pensamento pode acompanhar essas imagens e delas extrair material para futuras reflexões. Façamos este pequeno exercício.

Observando os trilhos, percebemos que há, entre eles, uma distância finita, que é a medida entre um trilho e outro. Esta medida é fixa e constante, pois serve de apoio para as rodas do trem. Ao mesmo tempo, os dois trilhos paralelos parecem que vão até o infinito, pois eles vão deslizando como se nunca chegasse ao fim. Embora pareça que não tem fim, sabemos que a última estação é o término, o fim, mas a impressão de infinito move a nossa mente, principalmente no sentido de expandir o nosso pensamento, as nossas ideias, os nossos ideais. Temos a impressão que caminhamos para o desconhecido, para o futuro, para aquilo que Deus está nos reservando.

Tomemos, por exemplo, a perfeição a ser atingida. Os dois trilhos podem significar os limites para as nossas ações no bem. Caso os ultrapassemos, ou seja, saiamos dos trilhos, sofreremos as consequências, pois praticamos o mal, e o mal não faz parte do nosso caminho de evolução espiritual. Ir além dos limites, trar-nos-á dor. Sofrendo-a com resignação, podemos voltar novamente ao caminho do bem, ou seja, entrar novamente nos trilhos da perfeição. Caso nos revoltemos, podemos continuar mais tempo fora dos trilhos da perfeição.

Podemos pensar: se eu conseguisse viajar sempre dentro desses trilhos, economizaria tempo e mais rapidamente chegaria ao porto do meu destino. A vida, contudo, não transcorre nessa harmonia linear. Ela tem altos e baixos, desvios, mudança de rota. Às vezes é preciso fazer uma pausa, parar, refletir, para melhor caminhar, tal qual nos ensinava Sócrates com a sua maiêutica. Lembremo-nos também de Paulo que, depois de aderir ao cristianismo, precisou ficar três anos no deserto, trabalhando no tear, para poder adquirir maturidade espiritual e desempenhar nobremente a sua nobre missão de levar a boa nova do Cristo aos pagãos.
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27 setembro 2009

Maquiavel

Nicolau Maquiavel, Nicollò Machiavelli, (1469-1527) foi político, historiador e escritor italiano. Nasceu e morreu em Florença. Foi chanceler e secretário das Relações Exteriores da República de Florença, cargos modestos, apesar dos títulos, limitando-se as funções à redação de documentos oficiais. Maquiavel é mundialmente conhecido pelo livro "O Príncipe". Deixou, porém, outros escritos, tais como, Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio, A Mandrágora, História de Florença, além de inúmeros tratados histórico-político, poemas e sua correspondência particular, organizada pelos descendentes.

Antes de Maquiavel, o governante de um país era comparado ao piloto de um navio, que tinha por objetivo conduzi-lo ao porto, sem que afundasse. Analogamente, o governante de uma República deveria conduzir o povo, sem dispersá-lo, para a prática da virtude. Maquiavel, em O Príncipe, aceita conduzir o povo sem avarias, porém faz silêncio sobre a condução do povo à virtude. Tem dúvidas quanto ao realizar a justiça. O Príncipe retrata o descontentamento do seu autor por ter sido banido da vida pública. O que está por detrás do livro é a aparência do bom e do virtuoso que o condutor do povo deve ter. Não importa se o ser humano é virtuoso, mais vale parecer virtuoso.

Maquiavel não é considerado um educador em termos do adestramento para a aquisição de conhecimentos e habilidades específicas, mas fundamentalmente, um educador da cidadania, que é a formação do ser humano, para que ele faça parte ativa de uma cidade. Em linhas gerais, Maquiavel trata de investigar se é possível encontrar uma solução pacifica em meio aos desejos ambiciosos e egoístas que predispõem os indivíduos à desagregação e ao conflito.

Maquiavel distingue uma moral do indivíduo, que visa à obtenção de virtudes, e outra para o estado, que visa a obter o bem comum, nem que para isso seja necessário o emprego do constrangimento, da coação e da persuasão. Maquiavel afirma que todo o julgamento moral deve ser secundário na conquista, consolidação e manutenção do poder. Ele diz: "Todos concordam que é muito louvável um príncipe respeitar a sua palavra e viver com integridade, sem astúcias nem embustes. Contudo, a experiência do nosso tempo mostra-nos que se tornaram grandes príncipes que não ligaram muita importância à fé dada e que souberam cativar, pela manha, o espírito dos homens e, no fim, ultrapassar aqueles que se basearam na lealdade".

Maquiavel inaugurou a astúcia inescrupulosa como método de governo. É a partir dele que o termo maquiavélico, como atitude amoral, passou a freqüentar, injustamente, o vocabulário político.

Apresentação em PowerPoint

Mais Textos em PowerPoint: http://www.sergiobiagigregorio.com.br/powerpoint/powerpoint.htm 

Palestra em PDF

Complemento 

Nicolau Maquiavel é muito mais falado do que lido, mais confundido do que compreendido, pintado como autor que afirmou que os fins justificam os meios — frase que não se encontra em nenhum de seus textos. 

A pecha do "fins justificam os meios" é proveniente de sua recusa por tratar a política como questões éticas. A sua obra é preconizadora do maquiavelismo, sistema político caracterizado pelo princípio amoralista de que os fins justificam os meios. 

Extraído de O Melhor de Maquiavel, por Cláudio Blanc, pela Idea Editora. Bauru, 2012. 


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02 setembro 2009

Símbolo e Simbologia

“Um sinal é uma parte do mundo físico do ser (being), um símbolo é uma parte do mundo humano da significação (meaning)”. E. Cassirer, An Essay mon Man, p. 32.

Há duas maneiras de representar o mundo. Uma direta, em que objeto se apresenta à nossa frente; outra indireta, quando por qualquer razão o objeto não pode se apresentar em “carne e osso”. A forma indireta representa o símbolo, que pode ser usado indiferentemente como “imagem”, “figura”, “ícone”, “ídolo”, “signo”, “emblema”, “parábola”, “mito” etc.

Símbolo é um sinal particular, que pode ser expresso com figuras, imagens, palavras e gestos. Do gr. symbolon = neutro - vem de symbolé‚ que significa aproximação, ajustamento, encaixamento, cuja origem etimológica é indicada pelo prefixo syn, com e bolé, donde vem o nosso termo bola, roda, círculo. Referia-se, deste modo, à moeda usada como sinal. O símbolo é, pois, tudo quanto está em lugar de outro.

Filosoficamente, o símbolo pode ser assim conceituado. Ao o passo que um sinal de um objeto de percepção é uma parte do objeto que evoca o todo ou a porção do todo que mais interessa ao sujeito, um símbolo é algo que evoca, não o objeto de percepção, mas a concepção que temos do objeto. Este poder de compreender e interpretar símbolos diz respeito à mentalidade humana. Os animais, por exemplo, não têm essa capacidade. Diz-se que o cão pode se impressionar com a vista de um gato, mas não sente reação alguma ao ver um desenho que represente o gato.

Todo símbolo é sinal, mas nem todo sinal é símbolo. O símbolo é a espécie e o sinal o gênero. Para que o sinal seja símbolo ele tem que estar no lugar de outro. O sinal pode ser apenas convencional, arbitrário. O símbolo, não. Este deve repetir, analogicamente, algo do simbolizado. Além disso, o símbolo é meio de acesso às realidades pessoais, misteriosas e inacessíveis a uma observação direta e imediata. Por exemplo: o signo bandeira simboliza os vários graus de heroísmo.

O ser humano, praticamente, não dispõe de um símbolo mais privilegiado para a comunicação do que a palavra. Imagine um indivíduo feito uma estátua. Nessa circunstância, é difícil sondar-lhe o pensamento e o sentimento. Porém, ao se expressar, torna-se logo conhecido. Além da transmissão de conteúdo, a palavra é muito mais um instrumento de comunicação espiritual: faculta ao ouvinte a elaboração de novas idéias sobre o discurso proferido.

A parábola, por definição, é uma narrativa alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior. Jesus falava por parábolas no sentido de despertar a curiosidade dos ouvintes para, depois, dar as explicações necessárias. Na realidade, as parábolas são verdadeiros conjuntos simbólicos do Reino de Deus e os simples exemplos morais.

A importância do símbolo é tamanha que a filosofia tem uma matéria chamada simbólica, cujo objetivo é estudar a gênese, o desenvolvimento, a vida, a morte e a ressurreição dos símbolos.
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28 agosto 2009

Linguagem e Interpretação

É o “eu” que pensa ou o “eu” que recebe o pensamento? Em se tratando de filosofia, o pronome eu deveria ficar em segundo plano. Fernando Santoro, em Patologia do Pensamento, diz: "É uma presunção moderna acharmos que somos os sujeitos do nosso pensamento. Eu não penso, sou acometido pelo pensamento". Pergunta: o que significa um “eu” para o pensamento? Em sua explicação, escreve: “Somos sujeitos ao pensamento, nunca nosso, mas infestado pela própria linguagem. A linguagem, ela sim, tem sua vida própria e espontânea e leva o pensar para onde bem entende. Inclusive, e principalmente, para nossos vícios de entendimento”.

Alguns são traídos pela linguagem; outros, não. Descartes, por exemplo, foi traído pela língua francesa, a qual não admite a ausência do sujeito na frase, nem que este seja apenas um pronome de referência, como é o caso de “il pleut” – “chove”. Nesse caso, quando ele fundamentou o seu cogito ergo sum, ele estava escrevendo em latim. Ao passar para a língua francesa, fica subentendido um pronome, o pronome eu. Os franceses diriam: “Eu penso, logo eu existo”.

Sócrates, de quem a Pítia disse não haver ninguém mais sábio, não se deixou enganar. Para ele, as palavras que a Pítia pronunciava em transe no Oráculo de Delfos eram enigmáticas. O discípulo de Sócrates, que foi a Delfos perguntar ao Oráculo se havia alguém mais sábio do que seu mestre, não imaginava que a resposta da Pítia (“Não há ninguém mais sábio”), tinha que ser interpretada diligentemente, como bem suspeitou Sócrates. Para Sócrates, a frase significava: “A Pítia disse isso, porque ela sabe que eu nada sei”.

A palavra pode ser interpretada de diversas formas: depende exclusivamente da nossa experiência de vida e do que conhecemos acerca de um determinado assunto. As pessoas que vivem plenamente as suas vidas não crêem em qualquer novidade, mesmo que esta venha pintada com as cores mais atraentes do mundo.

Fonte de Consulta

SANTORO, Fernando. Patologia do Pensamento. In: MEES, Leonardo e PIZZOLANTE, Romulo (orgs.). O Presente do Filósofo: Homenagem a Gilvan Fogel. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008.
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25 agosto 2009

Memória e Repetição

A repetição tem uma função primordial: ajuda a memorizar aquilo que temos necessidade de aprender ou de saber. Em filosofia, costuma-se repetir o modelo de um grande autor: Kant, Hegel, Descartes. Diz-se que a filosofia é histórica, porque cada filósofo parte de onde terminou o seu antecessor. Aproveita-se do que outro fez, segue alguns de seus passos e critica outros, podendo até formular novos sistemas, novas teorias.

Como repetir sem mecanizar? Esta é a grande dificuldade do aprendizado. O ser humano não tem o hábito de pensar por si mesmo, já afirmava Kant. É mais fácil repetir o que o outro disse. Em realidade, o aprendizado não é uma repetição automática, mas uma re-conceituação feita com as próprias palavras. Um pensamento alheio tem que ser captado e trabalhado segundo o entendimento e interesse do aprendiz. De nada adianta ficarmos repetindo frases alheias; elas têm que fazer parte do nosso ser.

“Pensar é pensar junto é co-pensar”. Não existe o pensador genuíno, original. Precisamos de informações alheias. Estas nos veem por intermédio daquilo que já foi pensado pelos outros; é uma espécie de estímulo para o nosso pensar. Surge, assim, a repetição como aprendizado. Esta, porém, não pode ser feita como uma máquina ou como o papagaio que simplesmente repete o que ouviu. Ao ler ou ouvir, o aprendiz deve fazer o esforço de compreensão, de expressar aquele pensamento com suas próprias palavras.
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Sapere Aude

Em 5 de dezembro de 1783, é publicado o artigo de Kant intitulado: Resposta à Pergunta: Que é Esclarecimento? “Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento”.

Kant (1724-1804) vivenciou a época do iluminismo, o século da luzes, em que tudo era posto sob a crítica da razão, inclusive a fé. Enquanto a Idade Média era considerada a época das sombras, pois impedia o livre-pensar, o iluminismo é a libertação do ser humano. Quer-se questionar tudo, desde o poderio econômico e político até as injunções da religião na vida de cada ser humano. Ao lado de outros pensadores, tais como Descartes, Kant deu a sua contribuição para a expansão das luzes do pensamento. Por isso, o sapere aude, ou seja, ouse pensar, pense por você mesmo.

Em suas prédicas, Kant separa o uso privado e o uso público da razão. O uso privado diz respeito à obediência que decorre do exercício de determinadas funções. Cita o exemplo do soldado, que mesmo discordando (uso público da razão) do seu chefe, deve obedecê-lo (uso privado da razão). Outro caso é o pagamento de impostos. Podemos discordar (uso público da razão), mas devemos pagá-los (uso privado da razão)

O principio da razão é pensar por si mesmo. Não é, contudo, fazer revolução ou o que se bem entender. Pensar por si é usar incondicionalmente a razão. Quando agimos dessa forma, acabamos discordando de muitos procedimentos em sociedade, pois a maioria deles é fruto do condicionamento em que fomos inseridos, quer pela mídia quer pelos usos e costumes, absorvidos ao longo do tempo.

O sapere aude kantiano não é nenhuma novidade. Sócrates, na antiguidade, já nos instruía sobre o “conhece-te a ti mesmo”. De qualquer forma, a sua lembrança faz-nos refletir sobre a essência do conhecimento, que deve ser construído por cada ser humano, segundo os seus próprios interesses e necessidades. Daí, andar nos trilhos traçados por outrem é trabalho fácil, mas trilhar o próprio caminho é tarefa mais árdua, pois implica contrariar opiniões e preconceitos.

Colocar no papel o que se viu, leu ou escutou é muito útil ao nosso crescimento moral e intelectual. É não dar trégua à preguiça mental, pois já foi comprovado que quanto menos usarmos o cérebro, mais ele se atrofia. Assemelha-se à passagem evangélica em que Jesus diz: “Ao que muito foi dado, muito será exigido, mas mais lhe será acrescentado”. Quer dizer, atividade chama atividade, pensamento atrai pensamento. O desânimo e a indolência entram na alma, porque não foram combatidos desde o início.

As circunstâncias podem exigir o uso da razão privada. Não tenhamos receio de colocá-la em prática. Contudo, em cada uma dessas ações, reflitamos também sobre o uso da razão pública, que é a prática da razão incondicional.
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19 agosto 2009

Temas para Debate

Os temas para debate, como o próprio nome diz, são frases ou questões que devem servir de estímulo para o exercício do pensamento. Não há necessidade de uma resposta exata, o que importa é pensar sobre o assunto. Façamos esse exercício.

1) A lógica é boa para o raciocínio, mas mal para a prática.

Pode-se começar o debate, indagando sobre a lógica. Será que todos os participantes sabem exatamente o que significa esta palavra? Suponha que, depois de algumas colocações, todos cheguem à conclusão de que a lógica é a “ciência da demonstração”. Mas, o que essa “ciência da demonstração” auxilia a vida prática? Vestir-se, fazer comida e consertar aparelhos são feitos com mais facilidade pelo conhecimento da lógica? Geralmente acontece o contrário, ou seja, as pessoas versadas nos raciocínios têm dificuldade de fazer essas coisas.
Lembremo-nos da seguinte passagem: “Tales observava os astros, e, olhos presos no céu, caiu um dia no poço. Uma serva da Trácia vem em seu socorro e, com zombaria, pergunta-lhe como cuida de saber o que se passa no céu, se não sabe ver o que tem diante de si, a seus pés”.

2. O todo é sempre a soma das partes?

O todo é quantitativamente a soma de suas partes, mas é, de qualquer forma, qualitativamente diferente, e, quase sempre, especificamente diferente. No todo, há algo mais que as partes, quer tomadas separadamente, quer como partes-de-um-todo, partes integrais, que o constituem quantitativamente ou partes essenciais quando componentes da essência ou natureza essencial de alguma coisa. (Santos, 1965)

Esta questão também é um exercício para o pensamento. Suponha o seguinte: há 12 laranjas espalhadas e uma cesta. Se colocarmos todas as laranjas na cesta, veremos que a soma das partes (quantidade) é igual ao todo (cesta de laranjas).

Suponha agora uma sala e 10 pessoas. Se colocarmos essas 10 pessoas na sala, a soma das partes (quantidade) será igual ao todo (sala com as pessoas). Acrescentemos, a este raciocínio, a sinergia, do grego “cooperação”. Quando as pessoas se comunicam entre si, diz-se que o resultado (qualidade) é maior que a soma das partes, pois houve ganho de conhecimento, criatividade.

Na mesma linha de pensamento, imagine uma orquestra, com 12 músicos. A soma de cada um dos músicos é igual ao todo, a orquestra de 12 músicos. Mas, todos tocando juntos produzem sinergia, ou seja, a música orquestrada, o que não se consegue individualmente.

Vejamos um outro exemplo: quando duas pessoas se encontram e trocam pães, elas não ficam nem mais rica nem mais pobre. Porém, quando duas pessoas se encontram e trocam ideias, as duas ficam mais ricas.

3. Relacione Essência e Acidente.

Tomemos o conceito de essência. No pensamento antigo, a essência define o fundo de uma coisa, ou seja, a sua substância, conforme declarou Aristóteles e opunha-se a acidente, já que a essência era imutável na identificação de um ser. Já o acidente poderia variar, conservando-se a essência.

Tomemos o conceito de acidente. Tradução de um termo aristotélico, muito utilizado pela escolástica, que designa o que pode, indiferentemente, estar presente ou desaparecer sem modificar o sujeito ao qual pertence. Por exemplo, é por acidente que um homem dorme ou um tecido é verde (o primeiro permanece homem quando não está dormindo, o segundo, tingido de vermelho, continua sendo tecido).

Exemplifiquemos: a essência é o nosso Espírito imortal; o acidente é o nosso corpo físico, mortal. O Espírito (essência) usa o corpo físico (acidente). No desencarne (morte), o corpo físico deixa de existir, mas o Espírito contínua vivo, mas em outra dimensão, ou seja, no mundo espiritual.

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo: Matese, 1965.
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13 agosto 2009

Pensamento e Pergunta

“Formule sempre perguntas adequadas”.

Hoje, há muita dificuldade de os jovens se libertarem dos preconceitos, mal-entendidos e crenças errôneas, advindas da mídia, incluindo os telejornais diários. Não percebem que essa avalanche de slogans e frases feitas lhes rouba o tempo que poderia ser mais bem aplicado em outros campos de interesse, ou seja, na educação de sua alma imortal.

Para exercitarmos a reflexão filosófica, lembremo-nos de algumas frases: “Inteligência, dá-me o nome exato das coisas! [...] Que minha palavra seja a coisa mesma criada novamente pela minha alma”; “Não quero fabricar cérebros que andam, mas aprendizes de homens”, disse Rousseau; de Einstein, vem: “Quero só pertencer a uma comunidade, a dos que buscam”.

Em geral, o interesse determina a ação. A pergunta revela esse interesse. O interesse, porém, está atrelado ao desejo. Perguntando, vamos expondo o nosso desejo, o nosso interesse. Nesse caso, é útil sabermos formular perguntas adequadas, pois sempre teremos respostas às mesmas. Não sejamos como aquelas pessoas que sempre perguntam o que querem para ouvir o que não querem. Quando a pergunta representa uma necessidade peremptória de nossa alma, com certeza teremos uma boa resposta, um bom aprendizado.

Pensamento e pergunta têm relação com a areté (virtude) socrática. Na época, havia uma discussão entre Sócrates e os sofistas. Para Platão, os sofistas eram os mercenários do saber, pois recebiam pela comunicação de seus conhecimentos. Eles afirmavam também que a virtude (areté) poderia ser ensinada, o que contrastava com Sócrates, que achava impossível de ela ser ensinada, quando muito aprendida.

Se quisermos ser professores-educadores, devemos ter à mão um acervo de perguntas-chaves. Eis algumas delas: O que você quer dizer com isso? Por acaso, você também não acredita nisso? Como é possível fazer isso? Como você pode afirmar? É a mesma coisa falar ou dizer? Você pode definir o que é isso de que está falando? Em que se baseia a sua opinião? É assim ou você pensa que é assim? Você pode apresentar uma prova? Você pode dar um exemplo?

Tenhamos também em mente os vocábulos gregos nosoterapia e logoterapia, que significam, literal e respectivamente, “atenção ao pensamento” e “atenção à palavra”. Esse dois termos constituem o fio da trama de nossa vida pessoal.

Fonte de Consulta

CAMPOS, Pedro Ortega. Educar Perguntando: Ajuda Filosófica na Escola e na Vida. Tradução de Antonio Efro Feltrin. São Paulo: Paulinas, 2008 (Coleção Educação em Foco)
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07 agosto 2009

Filosofia: Síntese Histórica

A filosofia difere da ciência, porque necessita da história. Nenhum filósofo começa do zero, mas acrescenta ao que o filósofo precedente já descobriu. Pode-se dizer que a história da filosofia é a soma das contribuições que cada filósofo deu ao quebra-cabeça que é a experiência humana. Vem um filósofo e dá uma solução, e todos aclamam como a melhor; tempo mais tarde, vem outro e dá outra solução para o mesmo problema, e assim sucede no tempo.


Síntese da História da Filosofia
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Virtude

Entendida de modo geral como disposição habitual e firme para o bem agir, a virtude apresenta obviamente algo de grande importância, tanto para os indivíduos como para a convivência social.


Anotações da Enciclopédia
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05 agosto 2009

Educar Através de Perguntas

Sócrates, na antiguidade, exercitava-se na maiêutica, método que consiste em gerar idéias complexas a partir de perguntas simples e articuladas dentro de um assunto. É possível até que tenha feito falsas perguntas, mas esse método permanece vivo até hoje, principalmente nos estudos de dinâmica de grupo. A paidéia grega do conhece-te a ti mesmo foi fundamental na apreensão da cultura grega e, ainda hoje, é aplicado para a formação do homem moderno.

O educador deveria se pautar na pergunta e no ensinar a perguntar. Geralmente, o aluno que sabe a resposta, tirou-a de algum livro ou de algum estudo anterior. O perguntar, pelo contrário, depende de um interesse pessoal, de uma aptidão intrínseca da alma. É por esta razão que os mais velhos ficam desorientados ante os questionamentos dos jovens, pois estes fazem as suas indagações espontâneas, sem se preocuparem com a tradição ou com um passado preconceituoso.

A ciência é o resultado das hipóteses, enunciados e corolários levantados ao longo do tempo. Por trás, porém, de cada corolário, de cada hipótese e de cada enunciado há uma pergunta. Por isso, diz-se que “o máximo da pergunta científica são os postulados, axiomas e teorias que são formulados por um pensamento prévio interrogador”. A filosofia também é construída por meio de perguntas. E, quanto mais se pergunta, mais se tem o que perguntar, pois o “sei que nada sei” socrático pode se dirigir ao infinito.

A pergunta formulada nas ciências difere da pergunta feita na filosofia. Nas ciências, a pergunta busca uma resposta positiva, geralmente expressa em números. Nesse caso, faz-se um corte na realidade e estuda-se um detalhe, aquilo que interessa ao pesquisador científico. Na filosofia, a pergunta busca a totalidade da realidade, a sua radicalidade. A radicalidade – que vem de radical, e, este, de raiz – é a reflexão profunda da experiência humana. Para aprofundar, precisamos cavar muita terra, pois há raízes que a penetram a distâncias intermináveis. .

A filosofia tem pressupostos, mas não preconceitos. Esta afirmação é sumamente importante, pois deixa o inquiridor completamente à vontade para qualquer tipo de questionamento. Ele pode obter informações de filósofos consagrados, mas não precisa fiar em seus sistemas. A sua meta é a verdade dos fatos, que é a perfeita correspondência entre o pensamento e a realidade, entre o ser e o objeto. Nesse sentido, a filosofia não é acúmulo de conhecimentos, mas um assunto pessoal, um modo de ser, uma forma de vida, como dizia Sócrates.

Na educação, a pergunta é imprescindível. Assim, quer estejamos estudando textos científicos, filosóficos ou religiosos, não nos esqueçamos de fazer as perguntas relevantes para a devida compreensão do tema proposto.
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04 agosto 2009

Paidéia Grega e Formação Cultural

Paidéia – do grego paidos (criança) significava inicialmente “criação de meninos”. É por isso que Werner Jaeger, grande estudioso da cultura grega, diz-nos: "Não se pode utilizar a história da palavra paideia como fio condutor para estudar a origem da educação grega, porque esta palavra só aparece no século V". Dessa forma, a palavra paidéia tomou outro rumo, ou seja, formação geral que tem por tarefa construir o homem como homem e como cidadão.

A paidéia grega ou a humanitas latina dizem respeito à formação da pessoa humana individual, a qual se fundamentava nas “boas artes”, ou seja, na poesia, na eloqüência, na filosofia etc. A República de Platão é a expressão máxima da estreita ligação que os gregos estabeleciam entre a formação dos indivíduos e a vida da comunidade. A afirmação de Aristóteles de que o homem é um animal político, devendo viver em sociedade, tem o mesmo significado.

A filosofia socrática do gnôthi se autón, “conhece-te a ti mesmo”, vai ser o elo propulsor da paidéia. Para os gregos, que davam muita importância à educação, o que interessava era a introspecção e a contemplação, características essenciais do filosofar. O filosofar levava-nos à aristocracia, governo dos melhores, e no caso, os melhores eram os filósofos. Aristóteles, com a sua dinâmica social, em que as pessoas deviam viver na pólis, complementa esse pensamento. Daí, o termo aristocracia social.

A Idade Média, dominada pelas verdades reveladas pela religião, modificou a função original da filosofia. Na Antigüidade, a filosofia era a busca do conhecimento, tanto externo quanto interno. Na Idade Média, a filosofia servia mais para os religiosos se defenderem da heresia e das crenças alheias. O caráter aristocrático e contemplativo, típico do ideal clássico, ainda permaneceu na Idade Média, mas com objetivos completamente diferentes e até antagônicos.

A filosofia moderna fundamenta-se no bildung (formação). Utiliza os mesmos quadros conceituais da paidéia antiga, ou seja, conhecimento de si mesmo, introspecção e contemplação, mas caminha em outra direção, toma outro rumo. Não é o encontro com o eu, mas um afastamento dele, pois procura desconstruir a tradição, o clássico. Observe a filosofia de Descartes: começa como se fosse uma tabula rasa, no sentido de passar uma borracha no passado, na tradição.

Observemos os fatos e extraímos deles a nossa própria interpretação. Como já se disse, “o que é clássico tem o condão de nunca se tornar obsoleto”. O mundo está cheio de novidades. Selecionemos aquelas que nos são úteis e descartamos as demais.
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16 julho 2009

Filosofia e Fraseologia

A filosofia nada mais é do que o pensamento que foi cuidadosamente considerado. Quando o ser humano não escolhe uma filosofia de reflexão, ele necessariamente se desliza para a filosofia de irreflexão, uma filosofia superficial, baseada exclusivamente em uma enxurrada de frases feitas, mais conhecida como fraseologia. A verdadeira filosofia deve se fundamentar na lei de causa e efeito, na argumentação lógica e racional dos fatos.

Suponha que alguém seja indagado a respeito do sobrenatural, e ele faça a seguinte observação: "Meu caro amigo, este é o século XX". Este indivíduo está, por esta frase, querendo dizer que no passado acreditava-se no milagre e no sobrenatural, mas hoje, não. Há, nesta colocação, um erro lógico, ou seja, o milagre e o sobrenatural não deixaram de existir simplesmente porque a Humanidade está no século XX. Se o milagre existia no século XII, deverá existir ainda hoje.

Como transformar uma resposta superficial numa resposta baseada na lei de causa e efeito, numa resposta científica. No século XII, acreditávamos no sobrenatural; no século XX, depois dos avanços da ciência, muitos fatos que eram tidos como sobrenaturais, não os são mais, porque as descobertas científicas os enquadraram nos cânones da lei natural. Há, entretanto, outros que a ciência ainda não conhece, os quais podem ainda pertencer ao sobrenatural. Mais dia menos dia, estes também poderão passar para o campo da lei natural.

Este é o exercício do pensamento lógico, do pensamento ponderado. Onde encontrar, porém, o pensamento fraseológico? Ele aparece nos slogans, no discurso midiático, na pronunciação de frases feitas. Daí, dizermos com Chesterton (1), que o homem prático será progressista, dedicar-se-á a feitos, não a palavras, dedicar-se-á aos negócios, à política, mas não será capaz de conhecer a própria filosofia, porque estará inteiramente envolto com as coisas práticas da vida e não as que são essenciais ao seu desenvolvimento mental e espiritual.

(1) Gilbert Keith Chesterton viveu o final do século XIX e a primeira metade do século XX, na Inglaterra anglicana. Escreveu 80 livros, centenas de poemas, umas 200 novelas, 4.000 ensaios e diversas peças teatrais. Chesterton não foi teólogo, apesar de ter nos deixado a biografia de São Francisco de Assis e de Santo Tomás de Aquino, com comentários teológicos que demonstram um profundo conhecimento das grandes questões da doutrina sagrada. Também não foi exegeta, nem economista e nem filósofo, mas em cada uma dessas áreas brindou-nos com excelentes ideias e comentários.

Extraído da Revista Conhecimento Prático Filosofia, n.º 18.


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06 julho 2009

Temas de Dissertação


Em que sentido pode-se falar de autor em filosofia?
Com que direito um filósofo pode dizer “eu”?
A filosofia pode prescindir da polêmica?
A reflexão filosófica é uma forma de monólogo ou de diálogo? (p.37)

É verdade que a filosofia procede por conceitos?
É verdade que o que se concebe claramente se enuncia claramente? (p. 71)

Qual a relação do ser com o dizer? (p.97)

Podemos pensar sem recorrer a imagens?
A oposição entre conceito e metáfora é filosoficamente justificada? (p.138)

Em que sentido pode-se dizer que um filósofo tem razão?
Convencer e demonstrar é a mesma coisa?
O que provam as provas em filosofia?
É possível não ser cético em filosofia? (p.200)

O que é um problema filosófico?
Pensar e exprimir o que é pensado é a mesma coisa? (p.241)

Extraído de
COSSUTTA, Frédéric. Elementos para a Leitura de Textos Filosóficos. Tradução de Ângela de Noronha Begnami ... [et al.]. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2001. (Coleção Leitura Crítica)
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10 junho 2009

Objetivismo e Modo de Vida Correto

O objetivismo e o modo de vida correto são um dos ramos da filosofia moderna. O objetivismo é proveniente da Ayn Rand; o modo de vida correto, do Budismo.

Ayn Rand (1905-1982), nascida Alissa Zinovievna Rosenbaum, foi uma controversa filósofa estado-unidense de origem judaico-russa, mais conhecida por sua filosofia do Objetivismo, e seus romances The Fountainhead ("A Nascente", sendo que o filme é conhecido no Brasil por "Vontade Indômita") e Atlas Shrugged ("Quem é John Galt?" no Brasil).

O objetivismo pode ser resumido em quatro princípios:

1) A realidade existe, independentemente da observação do homem, de seus sentimentos, desejos, esperanças ou medos.
2) A razão é o único meio do homem para perceber a realidade, sua única fonte de conhecimento, seu único guia de ação e seu meio básico de sobrevivência
3) O homem, cada homem, é um fim em si mesmo e não um meio para o fim de outros homens. Deve existir em função de seus próprios propósitos, não se sacrificando por outros nem sacrificando outros por ele.
4) A liberdade, num sistema político onde os homens se tratam como negociantes livres, em trocas voluntárias, com mútuo benefício e nunca como vítimas e executores, senhores e escravos.

Buda preconizava o discurso correto, a ação correta e o modo de vida correto. Em se tratando do modo de vida correto, há cinco aspectos relevantes:

1) não prejudicar os outros;
2) encontrar a "felicidade apropriada";
3) crescer espiritualmente;
4) simplifique;
5) ajudar os outros;

Embora seja difícil aplacar esses princípios, deve-se tê-los como modelos, tais como são os ensinamentos de Jesus. O não prejudicar os outros é não prejudicar o próximo, o planeta. O encontrar a "felicidade apropriada" é viver com os próprios recursos, sem excesso. Crescer espiritualmente é ver o lado espiritual dos trabalhos repetitivos. Simplifique, ou seja, nada de supérfluo, nada de extravagâncias. Ajudar os outros é ajudar a si mesmo.


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09 junho 2009

Aparência e Realidade

Na história da filosofia, a aparência teve dois significados diametralmente opostos: 1) ocultação da realidade; 2) manifestação ou revelação da realidade. No primeiro caso, a aparência vela ou esconde a realidade das coisas. É preciso transpô-la; no segundo caso, a aparência é o que manifesta ou revela a realidade, de tal modo que este encontra na aparência a sua verdade, a sua revelação. No primeiro caso, conhecer significa libertar-se das aparências (Sócrates e Platão); no segundo, conhecer é confiar na aparência, deixá-la aparecer.

Em metafísica, depois de Kant, o termo aparência caiu em desuso. Em seu lugar deve-se usar fenômeno. O termo aparência hoje em dia conserva um sentido psicológico, ou seja, toda a representação, ou melhor, toda a presentação que se considere diferente do objeto que lhe corresponde. O termo antitético é realidade.

O que se entende por realidade? O adjetivo real concerne às coisas e qualifica o que é dado, o que existe efetivamente. Indica, assim, o modo de ser das coisas existentes fora da mente humana ou independentemente dela. Consequentemente opõe-se por um lado ao que é aparente e ilusório, e, por outro lado, ao que é abstrato.

Aquilo que vemos é realmente o que vemos? Esta questão remete-nos ao próprio pensar do ser humano. Podemos simplesmente absorver uma informação (de modo passivo) ou, ao contrário, indagar se ela tem fundamento, se condiz com a verdade dos fatos. O nosso procedimento, como seres racionais, é o de questionar se a informação recebida tem um fundo de verdade. João, em seu Evangelho, já nos alertava para não acreditarmos em todos os espíritos. Antes disso, deveríamos verificar se eles são de Deus, ou se são mistificadores. Em outras palavras, desconfiemos das aparências.

A dúvida metódica de Descartes auxilia-nos a penetrar o nosso olhar além das aparências das coisas. Descartes analisa o conhecimento vigente e conclui que nada se lhe oferece, de modo indubitável, sobre o que possa fundamentar o seu trabalho. Tem que buscar alguma coisa fora da tradição, uma idéia, uma única que seja, mas que resista a todas as dúvidas. Ele coloca uma dúvida, não para simplesmente duvidar, mas para extrair da sua dúvida a verdade. Aristóteles, por outro lado, dizia: "... o que é diferente de alguma coisa é sempre diferente por qualquer coisa, e tanto assim que deve necessariamente haver algo de idêntico, pelo que são diferentes". (Metafísica, 1054b, 25 segs.) Parte-se, muitas vezes, do conhecido para o desconhecido.

Bibliografia Consultada

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.
DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993


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05 junho 2009

O Rito

As ciências sociais, para bem compreender os fenômenos que estudam, devem sair ou ultrapassar o nível de experiência ingênua: o irracional ou o que se apresenta como irracional deve ser transformado em racional.

Para os etnógrafos – que observam e registram as características morfológicas de um grupo étnico ou de uma sociedade viva –, uma sociedade desprovida de qualquer ritual seria uma anomalia. Acham que há sempre uma explicação para aquele gesto ou aquele modo de ser, embora o homem moderno nada veja.

Então, se o homem moderno, seja qual for a sua posição filosófica, julga extravagantes os ritos de seus semelhantes menos evoluídos, os etnógrafos e os antropólogos tentam perceber o que há de lógico no que parece ilógico. Nesse sentido, o rito é um terreno muito mais privilegiado do que o próprio mito, porque os gestos, o vestuário e outros tipos de manifestações podem ser observados in loco, enquanto o mito fica apenas no campo da teoria.

Mas o que é o rito? O rito é um conjunto de atividades organizadas e institucionalizadas, no qual as pessoas se expressam por meio de gestos, símbolos, linguagem e comportamento, transmitindo um sentido coerente ao ritual. É um ato que pode ser individual ou coletivo, mas que sempre, mesmo quando é bastante flexível para comportar uma margem de improvisação, permanece fiel a certas regras que constituem precisamente o que há nele de ritual.

A palavra latina ritus designava, aliás, não só as cerimônias ligadas às crenças relativas ao sobrenatural, como os simples hábitos sociais, os usos e os costumes (ritus moresque), isto é, à maneira de agir reproduzida como certa invariabilidade. O fim dos verdadeiros ritos é tanto o de afastar as impurezas como o de manejar a força mágica ou ainda de pôr o homem em contato com um princípio que o transcende.

Há grande diferença entre rito e ritual. O rito é associado ao mito, enquanto ritual diz respeito a quase tudo que fazemos. Nesse caso, o médico procede a um ritual para fazer a sua operação. O uso deste ou daquele vestuário, deste ou daquele gesto não pode ser considerado ritual. Pode ser apenas um costume, uma maneira de ser e de agir. Para enquadrar-se como rito, deve pertencer a um contexto específico, principalmente o religioso.

O mito, o rito e os rituais parecem-nos irracionais. Não importa. Procuremos estudá-los, meditando em sua pureza original. Quem sabe não podemos descobrir, por nós mesmos, a simbologia que eles representam?
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