04 julho 2008

Zaratustra

Zoroastro (660-580 a.C.) é o suposto autor do Zend-Avesta, livro sagrado do mazdeísmo, cujo dogma essencial é o dualismo de dois deuses em luta: o da luz e o das trevas. O Zaratustra (ou Zoroastro) de Nietzsche é a antítese do Zoroastro histórico, pois as suas teses têm uma mensagem não-dualista. De posse desse princípio, adquirido em seus 10 anos de reclusão no topo de uma montanha, critica todo o tipo de idéia – religiosa, científica e filosófica –, que se fundamenta numa acepção dualista.

No prólogo de Assim Falou Zaratustra, critica Jesus e Platão. Aos 30 anos Zaratustra deixa a sua terra natal e vai meditar no topo da montanha. É uma contraposição a Jesus que, aos 30 anos, saiu para pregar a sua doutrina. Zaratustra convida o sol a entrar na caverna para iluminá-la. É uma tese oposta a Platão que, na sua teoria das idéias, expõe que um dos escravos, que ele chamou filósofo, deixa a caverna e vai ter com o sol (conhecimento). O livro todo versará sobre essa percepção dualista do ser humano.

A idéia central do livro é a morte de Deus. De acordo com Nietzsche, a morte de Deus pode ser vista: a) para o Homem, a morte de Jesus Cristo expiando na cruz os pecados dos homens; b) o Fato do desaparecimento de Deus de nossa cultura; c) para o Último Homem, supressão de um senhor demasiado exigente; d) para o Homem Superior, um desaparecimento que ele se recusa a levar em conta; f) para o Criador, uma etapa na criação do super-homem, etapa destruidora, necessária, com a qual ele se alegra, e cuja realização acelera, mas apenas uma etapa, à qual sucede uma etapa de reconstrução.

A meta a atingir é o super-homem. O super-homem é a linha de chegada do último homem, completamente reconstruído, em que a razão e a crença no além-túmulo estão superadas. É um homem que vive o "aqui e o agora", não se importando com o que há de vir, porque a conquista da sua felicidade se resume em aproveitar o dia que passa. Pode-se dizer que o super-homem já superou todas as etapas que o crescimento espiritual requer. Enfim, ele soube vencer toda a sorte de preconceitos e idéias dualistas que lhe foram passadas ao longo do tempo.

Para que o homem se torne um super-homem, ele necessita da vontade de potência. A vontade de potência é intenção profunda de um sair de uma potência; o que esse ser ou essa potência quer; é a vontade de superar a si mesmo; transcender. Nesse sentido, todo ser humano é vontade de potência, pois está sempre querendo ou negando alguma coisa.

A potência, a realidade mais profunda de todos os seres deve, em última análise, vencer o niilismo, que é a desvalorização do mundo em nome de um além-mundo ou, ainda, a depreciação do além-mundo e deste. A sua ênfase no aqui e no agora mostra que ser humano deverá envidar muitos esforços para se libertar dos apelos religiosos da recompensa futura. Ele terá que se esforçar para viver o presente, com bastante coragem para agir e sofrer em benefício da verdade.

Assim Falou Zaratustra é um bom exercício para a edificação do nosso pensamento. Sopesemos cada uma de suas afirmações, procurando separar o joio do trigo, no sentido de uma construção racional de uma nova moral.

Fonte de Consulta

HÉBER-SUFFRIN, Pierre. O "Zaratustra" de Nietzsche. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

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