04 julho 2008

Valor e Juízo de Valor

A palavra valor é polissêmica, ou seja, impregnada de diversos sentidos. Lingüisticamente falando, ela vem de valere, que significa ser forte, ter boa saúde. Toma, também, o sentido de qualidade, de coragem, de virtude. Na matemática, fala-se em valor de uma variável, de uma função, de uma grandeza. Em Economia, estabelece-se a distinção entre valor de uso e valor de troca. Em Economia Política, usa o termo valor nominal para designar as distorções quanto ao poder de compra do consumidor. Em Sociologia, o valor social é definido em termos de idéias, normas e conhecimentos técnicos.

O valor, em Filosofia, recebeu o nome de axiologia, de axios, em grego, o que é preciso, digno de ser estimado. Expressa a primazia do querer sobre o inteligir. O valor não pode ser transformado em conhecimento, pois este envolve o raciocínio, a lógica, a teoria. Pode-se dizer que o valor está mais ligado à intuição, ao sentimento, uma espécie de sexto sentido que os grandes homens da humanidade têm ao se relacionar com um fato qualquer. Eles captam a essência num piscar de olhos.

Em termos de construção do conhecimento, a Ciência explica como funciona, o que a coisa é, no sentido de buscar as causas mais próximas. À Filosofia cabe explicar o porquê daquele fato. A ciência é o que é; tem o condão de ser positiva, ou seja, estabelecer hipóteses e testá-las. A Filosofia relaciona-se com o que deve ser, emite um juízo de valor. Isto, contudo, não quer dizer que o cientista não filosofa e nem que o filósofo não faz ciência. Não é porque o cientista fez um corte na realidade, para melhor compreendê-la, que ele não vislumbrou o todo.

A separação entre juízo de realidade e juízo de valor é outra dificuldade. Diz-se que a realidade é o que é e o juízo aquilo que dela se pensa. Acontece, porém, que tanto a ferramenta científica quanto a ferramenta filosófica estão relacionadas com o mesmo fato observado, e nem sempre é fácil separar uma análise da outra. Observe, por exemplo, a seguinte sentença: o copo de leite está quente. Nele há um juízo de realidade e um juízo de valor. Pode-se entender que o leite está quente, e não deve ser tomado, ou que o leite está quente, não frio, factível de ser tomado.

Há diferença entre o observador e a coisa observada? Krishnamurti, filósofo indiano, acha que o observador e a coisa observada é uma e única coisa, pois não podemos separar aquele que olha do objeto visto. Quando reclamamos de nossas ações, dá-se impressão que a ação não foi cometida por nós, mas por um elemento transcendente a nós mesmos. Dentro desse raciocínio, acabamos achando que sempre estamos com a razão e o outro em erro. É ele que nos perturba, e não nós que o aborrecemos. Onde está a verdade?

Como vemos, cada vez mais os valores científicos, filosóficos e religiosos se comprimem no sentido de nos fazer aproximar, o mais possível, à verdadeira realidade, aquela realidade que nos liberta do erro.

Fonte de Consulta

AGATTI, Antonio Paschoal Rodolpho. Os Valores e os Fatos: o Desafio em Ciências Humanas. São Paulo: Ibrasa, 1977. (Biblioteca Psicológica e Educação, 87)

São Paulo, 12/9/2003.



Um comentário:

MSC disse...

Seguindo sua linha de raciocínio, onde estão o juízo de valor e o de realidade na seguinte afirmação: "Ela está usando uma saia curtíssima."?