02 julho 2008

A Sofística e os Sofistas

Na história da filosofia, a sofística sempre entrou como parte da retórica ou da literatura, mas não da filosofia. Presentemente, há uma retomada das pesquisas sobre esse tema. Na Europa, do século XX, cunharam o termo "logologia" (por oposição à ontologia), que é uma reflexão sobre o logos. Em linhas gerais, trata-se do modo como construímos o nosso modo de falar. Nos Estados Unidos, alguns autores falam da "neo-sofística", movimento que revaloriza a retórica, principalmente o papel das emoções e das circunstâncias na construção das falas.

A ideia que fazemos dos sofistas foi nos transmitida por Platão. Até então havia muita confusão sobre o que é ser sábio, sofista e filósofo. Para Platão, os sofistas são os personagens que dialogam com Sócrates, servindo de contraponto para que este defina o que é o filósofo. Platão dizia que os sofistas eram "imitadores de sábios", pois apenas aparentavam sabedoria. Eles, além de cobrarem pela educação, preocupavam-se apenas em ensinar a manipulação das palavras como forma de persuadir e ganhar um debate, seja de que forma fosse.

Estudos recentes sobre os pré-socráticos e a publicação do Dicionário dos Filósofos Antigos, que está sendo elaborado por diversos estudiosos europeus e publicada aos poucos (o quarto volume, publicado em 2005, vai até a letra O) podem mudar o status quo platônico sobre os sofistas. Nesses estudos pré-socráticos, cita-se As Nuvens, comédia escrita por Aristófanes em que Sócrates é caricaturado como intelectual. Para Aristófanes, Sócrates é ao mesmo tempo um pesquisador da natureza e um manipulador de discursos, pois tinha como objetivo principal o êxito nos seus negócios.


A força da antilogia na compreensão da sofistica. Antilogia quer dizer contraposição de argumentos, um discurso formulado contra outro. Os discursos duplos exploram a indeterminação relativa das circunstâncias. Diógenes de Laércio nos diz que Protágoras foi o primeiro filósofo a levantar a questão de que tudo pode ser sempre visto sob dois aspectos opostos. Conforme a circunstância, o justo pode ser injusto; o injusto, justo. É justo mentir tanto ao inimigo quanto ao amigo. Suponha que um familiar precise tomar um remédio e não o queira. É justo colocá-lo na comida, sem que ele o saiba? Sim. Nesse caso, evitou-se um mal maior, ou seja, a sua morte.


A sofística ocupa-se da antropologia. Os sofistas querem pensar as coisas humanas como um conjunto de relações, a partir de exigências sociais e políticas, para além das teorias sobre o ser ou sobre a natureza. Os costumes, os hábitos e as leis de uma comunidade são os seus temas principais. Questionam o modo como os governos estão fazendo as leis, como estão se inserindo numa guerra ou mesmo numa ação de solidariedade para com as pessoas de sua comunidade.


A retórica é um de seus pontos centrais. A retórica pode ser entendida tanto como uma técnica do discurso como uma reflexão sobre o mesmo. A invenção da política, na antiguidade, muito contribui para a sua propagação, pois as pessoas tinham que usar a sua palavra para persuadir e convencer os seus oponentes. Acontece que a arte da persuasão não se reteve apenas à política. Ela se popularizou e era necessária em qualquer circunstância em que fosse necessário o uso da palavra, inclusive em discussões triviais que as pessoas tivessem que defender uma opinião ou mesmo um ponto de vista.

Justo e injusto são a mesma coisa. Depende tanto da circunstância quanto da visão do observador. Este é o aprendizado que extraímos desse estudo sobre a sofística e os sofistas.


Fonte de Consulta

MARQUES, Marcelo P. Os Sofistas: o Saber em Questão. In: FIGUEIREDO, Vinicius (org.). Filósofos na Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2007, vol. 2.


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