02 julho 2008

Que é e o Que Deve Ser

O ser humano, no seu dia-a-dia, age de acordo com a lei do menor esforço. Ele prefere atividades que lhe proporcionem prazer, bem-estar e ausência de contradição. Se algo lhe traz perturbação – obrigando-o a pensar – tem logo o desejo de deixar aquilo de lado e ocupar-se de outra coisa como, por exemplo, entretecer-se com jogos, buscar companhia e chafurdar-se na bebida. Ele não tem o hábito de pensar, amar e deleitar-se com a dificuldade. Só o faz quando se vê impossibilitado de fugir.

O nosso agir está preso a um imaginário social, a um estado utópico. Observe o trabalho dos marqueteiros em época de eleição: sabedores de que a emoção comanda a ação da maioria dos viventes, eles elaboram a propaganda política de forma a exaltar um candidato super-homem, que irá resolver todos os problemas da nação. Diante dessas imagens temos a impressão de viver em dois mundos, um real em que predomina o desemprego, a insegurança e o medo, e o outro, imaginário, em que tudo é pintado de verde a amarelo.

O sonho, a utopia, o vir a ser faz-nos desviar do que é. O que é é mais difícil, porque nos faz debruçar sobre os problemas, pensar em como resolver questões, em como arranjar dinheiro para pagar as contas no final do mês. É nesse sentido que se fala que o homem, por estar preso a um passado delituoso e a um futuro florido, esquece de viver o único momento que é real, ou seja, o momento presente. É justamente sobre esse momento, sobre essa realidade que deveríamos envidar todos os nossos esforços de compreensão.

O que é mostra-nos que devemos perceber a realidade, tal qual ela é, isto é, sem subterfúgios. E quais são esses subterfúgios? Pode-se contar às pencas: é a leitura de um livro, a ida ao cinema, o ligar o rádio, o assistir à televisão, o conversar com os amigos, as conversas ociosas, as tagarelices das rodinhas do fim de semana, a maledicência, a crítica e tantos outros. Essas distrações contribuem para a perda de tempo, tempo esse que poderia ser empregado na compreensão do que está acontecendo conosco.

Quais são os frutos de enfrentar o que é? Quais são as conseqüências desse auto percebimento? Paz de espírito, plenitude da vida e compreensão. Aqueles que se aceitam tais quais são acabam por diminuir o conflito interior. Eles não lutam a favor do que devia ser, eles simplesmente refletem sobre o que está acontecendo aqui e agora. Eles não dizem: "vou deixar para amanhã"; eles afirmam: "aproveitemos o dia de hoje, porque as horas que passam não voltarão jamais".

O auto percebimento traz-nos um ensinamento valioso. Faz-nos tomar consciência do nosso egoísmo, de nossa fraqueza, do nosso medo. E uma vez tomado consciência, o processo de transformação torna-se mais fácil.

São Paulo, 23/10/2002

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