02 julho 2008

Prudência

O oráculo de Delfos recomendou o Gnothi seauton, ou seja, o Conhece-te a ti mesmo. Esta advertência pode ser traduzida como buscar-se cada um a si mesmo, penetrar cada qual no seu âmago, no sentido de extrair de si o substrato necessário para o percurso na vida. Não se deve buscar levianamente, mas com vigor, brio e determinação. Pode-se dizer que quem busca se faz e se desfaz na busca.

Na época de Heráclito, a organização militar inibia o golpe afoito. Todos os soldados tinham que avançar ombro a ombro. Para eles, a prudência (sophrosyne), substituindo o ardor (thymós), determina domínio dos impulsos e respeito à incumbência dos companheiros, pois a evasão de um prejudica a eficiência de todos. Por isso, o conhecimento adequado de si mostrará a posição correta de cada um entre os demais. O homem convive em compromisso de reciprocidade. A prudência solicita a participação responsável de cada um na tarefa de todos.

Buscar-se, conhecer-se eqüivale a prudenciar. Mas, ser prudente nos dias atuais, não é uma tarefa fácil, visto que a busca nova gera risco e medo do desconhecido. Os rotineiros, se deliciando com a repetição de suas ações, não percebem esse tipo de sofrimento, pois para eles tudo está bem e não precisam de ter o trabalho de pensar. O conto do peixinho vermelho serve para ilustrar o nosso pensamento. Segundo essa lenda, ele convivia numa lagoa com outros peixes grandes. Certo dia resolve ir ao mar e se distancia dos demais. Depois de aprender muito lá fora, volta para ensinar aos que ficaram, e dizer-lhes que deveriam seguir o seu exemplo, ou seja, ir ao mar alto. Moral da história: voltou sozinho.

Enxergar bem, ouvir bem são virtudes. Virtuoso é o que funciona bem. Prudenciar é virtude maior porque ela preside as demais. A dissertação de Sócrates sobre a coragem exemplifica esta noção de prudência. Observe que ele fora até um general e perguntou-lhe: "Você, que é general, poderia me dizer o que é a coragem?" Este lhe responde que a coragem é atacar o inimigo, nunca recuar. Mas Sócrates contrapondo-se, diz: "Às vezes é melhor recuar para melhor contra-atacar". Aí está a prudência.

O prudente é a pessoa que se conhece, e, portanto, sabe o lugar que deve ocupar no Universo. Para ele, tanto o acaso como o inesperado não existem. Ele raciocina em termos de lei de causa e efeito. Se faz o bem ao próximo, é lógico que vida lhe trará um bem futuro; se pratica o mal, sabe que irá sofrer as conseqüências do referido ato. Como poderia, então, esperar algo que desconhece? Como o destino pode destinar algo a alguém que não tenha por destino aquilo?

"Sejamos simples como as pombas e prudentes como as serpentes". Quer dizer, tenhamos plena consciência dos nossos atos e adaptemo-nos à circunstância em que estivermos colocados, a fim de darmos a nossa contribuição ao bem geral.

Fonte de Consulta

SCHÜLLER, D. Heráclito e seu (Dis)curso. Porto Alegre, L&PM, 2000. (Coleção L&PM Pocket, n.º 204)

São Paulo,11/03/2002

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