02 julho 2008

Prudência, Arte

A prudência é a qualidade de quem age com moderação, comedimento. É uma virtude que nos coloca de sobreaviso sobre tudo aquilo que é motivo de erro ou de dano ou que pode nos trazer algum constrangimento. Ser prudente é calcular, desconfiar, freqüentemente calar e, às vezes, rastejar, é imitar a serpente, para melhor se defender das serpentes.

Baltasar Gracian afirma: "Não há sorte e nem desgraça; o que há é prudência e imprudência". Quer tirar-nos a imagem que o senso comum forma sobre o êxito de uma pessoa, ou seja, que ele é devido à sorte ou aos bons ventos. Acontece que o bom êxito não vem por acaso. Ele é fruto de um trabalho árduo, de uma perseverança sem fim naquilo que se tem em mente, no objetivo a ser atingido. Compará-lo à sorte é uma comodidade dos espíritos levianos e pouco afeitos aos esforços do pensamento.

Uma das regras da prudência é não gerar expectativas nos outros. Despertar a curiosidade tem mais eficácia. Por que? Quando as pessoas exageram nas expectativas, elas não estão sendo coerentes com a realidade das coisas. O resultado, quase sempre, é a decepção. Observe os comentários da mídia com relação ao selecionado brasileiro: o melhor futebol do mundo, o favorito para ganhar a copa do mundo. A realidade: os atletas jogam abaixo dessa projeção, daí a crítica e a exigência de mudança.

É prudente não se revelar totalmente aos outros. Um certo grau de mistério é sempre preferível. O alimento deve ser dado quando o apetite estiver com fome. Por que forçar uma situação, quando o grupo ainda não aglutinou forças para tal realização? Saber esperar o momento certo para uma repreensão, para uma advertência, para um ensinamento. Jesus disse-nos para não colocar a candeia debaixo do alqueire, ou seja, sugeria-nos que falássemos de acordo com o interesse e a compreensão do interlocutor.

Estamos mais sujeitos a ouvir do que a ver. Significa dizer que a nossa vida se pauta muito mais pelas notícias do jornal, da televisão, do rádio etc. Não fomos ao local do evento para tirar as nossas próprias conclusões. Acabamos sempre tomando conhecimento pela visão dos outros, a qual agrega subjetividade, opinião pessoal. Por isso, é preciso desconfiar do enfoque televisivo, principalmente das propagandas governamentais. E se houver algum interesse por detrás de tudo isso? Como fica o nosso perfeito conhecimento da verdade?

Diante das contradições e incertezas de nossa vivência neste Planeta, conservemos sempre as nossas forças para o dia seguinte, pois quem se precata corre menos perigo.

Fonte de Consulta

GRACIAN, Baltasar. A Arte da Prudência: Aforismos Selecionados. Tradução de Davina Moscolo de Araújo. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

São Paulo, 27/6/2006

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