02 julho 2008

Politeia de Zenão

Zenão é um estrangeiro, um barbarós, nascido por volta de 330 a.C. Chega na Grécia, em 316, ainda muito jovem. Como todos os estrangeiros, é visto como pouco civilizado, pois a raça grega é considerada superior às demais. Ao procurar o oráculo grego – para saber do que deveria se ocupar –, recebe a seguinte mensagem: "... torna-te... da cor dos mortos..." Interpreta-a como a necessidade de conhecer toda a cultura grega, desde Homero. No final de sua vida recebe todas as honras de cidadão grego, sem nunca ter pretendido tal condição.

Politéia – de polis, cidade, é a constituição de uma cidade, seu perímetro e suas leis. A politéia de Zenão é proveniente dos ensinamentos recebidos do estóico Crates, o cínico. A base desses ensinamentos está na formação do novo homem – integralmente interior – que, seguindo a nova physis, tornar-se-á o novo cidadão. Para tal finalidade, contudo, é necessária uma nova psyché. Para Zenão, ser homem é anterior a ser grego, jônico ou espartano. O importante é ser cosmopolita, cidadão do mundo, o que significa transcender os limites geopolíticos traçados pela historicidade.

A estrutura se sua politéia apresenta-se na união entre lei e natureza. Diz: "devemos considerar todos os homens como ‘démotas’ e cidadãos, e que o modo de vida segue uno e a ordem una, como um rebanho que numa pastagem se nutre em conjunto, segundo uma mesma lei". Além disso, afirma que: "não se devem construir templos aos deuses, mas possuir a divindade só no pensamento"; "não devemos construir a cidade com monumentos, mas com a virtude dos cidadãos"; "o mundo é uma verdadeira cidade por oposição às cidades presentes, estas não o sendo senão no nome".

Em sua Cosmópolis, o diligente é o virtuoso, é o sábio. A descrição do diligente é extensa: tem superioridade de comando, é disciplinado, tem vontade férrea, não se abate, tem pensamento correto, é ativo, tem convicção, é amigo, é fraterno. Zenão, neste particular, difere substancialmente das idéias de Platão. Para Zenão, todos os cosmopolitas são amigos, parentes, portanto, não há escravos. Platão, por sua vez, idealizou uma República em que os sábios governavam, os soldados a defendiam e os escravos a sustentavam com o trabalho braçal.

O novo homem, a nova physis e um novo conceito político pressupõem uma nova psyché, que se acomode às novas estruturas teóricas. Para isso, há que se unificar o físico, o psíquico e o político em função do par nomos/physis. O ideal monárquico ancora-se, assim, no comando de um aristós. Este, longe de pertencer a uma família aristocrática ou ter riquezas deve ser provido do que os deuses proporcionam a alguns seres humanos, isto é, certas disposições naturais para o comando.

Como vimos, a virtude do aristós já estava presente na mente e nos ensinamentos dos filósofos estóicos. Seria bastante útil se, presentemente, os homens de Estado pudessem se inspirar nesses grandes pensadores da Antiguidade.

Fonte de Consulta

GAZOLLA, Rachel. O Ofício do Filosofo Estóico: O Duplo Registro do Discurso da Stoa. São Paulo: Loyola, 1999.
São Paulo, 22/8/2007

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