02 julho 2008

Pergunta

Há muitos tipos de perguntas. Há as perguntas comuns e as investigativas; as abertas e as fechadas. Há, também, as perguntas de esclarecimento (o que você quer dizer com...), as perguntas que questionam suposições (qual é a sua suposição...), as perguntas que questionam razões e evidências (por quais critérios você fez esse julgamento...), as perguntas sobre pontos de vista ou perspectiva (de que outra forma se poderia expressar isso...), as perguntas sobre perguntas (como essa pergunta vai me ajudar...).

Os animais formulam perguntas? Não, eles não precisam perguntar porque têm respostas para todas as suas necessidades. Com fome, dirigem-se ao mato para caçar a sua presa; com sede, vão ao rio; com frio, escondem-se debaixo de uma árvore. O homem, ao contrário, pergunta porque tem necessidade de buscar conhecimento. Nesse mister, o perguntar por perguntar não é produtivo, pois deixa-nos atolados em nossa superficialidade. Para ir à profundidade do saber, temos de cavoucar muita terra, ou seja, fazer perguntas cada vez mais relevantes.

Observe Allan Kardec à época da codificação da Doutrina Espírita. Conta-se que ele começou a freqüentar as reuniões mediúnicas, em que o Espírito Zéfiro respondia às perguntas – geralmente levianas – dos seus freqüentadores. De início, levava um caderno, sentava-se no fundo da sala e anotava tudo o que lhe chamava a atenção. Depois de algumas sessões, perguntou à médium que recebia este Espírito: há possibilidade de se formular perguntas ao Espírito Sócrates? Não é preciso dizer que a partir dessa pergunta, os fins e objetivos da reunião tomaram outra direção, e propiciaram a publicação de O Livro dos Espíritos.

Às vezes somos convidados para expor um assunto muito batido. Uma boa técnica é tratá-lo como um questionamento. Se, por exemplo, o tema sugerido foi "O Consolador Prometido", poderíamos enfocá-lo com a seguinte pergunta: o Espiritismo é o Consolador Prometido? Sim? Não? Por que? Com isso, teremos de argumentar a favor do Espiritismo, ou seja, fazer suposições que o caracterizam como o consolador enviado por Jesus. Ao mesmo tempo, podemos anotar os contra-exemplos, isto é, o conteúdo doutrinal daquelas religiões que se arvoram como sendo o Consolador Prometido e não se encaixam nos paradigmas do mesmo.

Esses questionamentos levam-nos a pensar sobre o tema, não para amontoar conhecimentos sobre conhecimentos, mas para formar uma linha de raciocínio, um pensamento sólido, em que as nossas palavras expressem a essência da Doutrina Espírita. Não há necessidade de ficarmos citando, a todo o momento, esta ou aquela fonte; o mais importante é sabermos divulgar a Doutrina no seu tríplice aspecto. Aí, sim, vamos adquirindo confiança e determinação em nossa fala, tendo plena consciência de que não sabemos tudo, mas o pouco que sabemos, sabemo-lo criteriosamente.

Uma pergunta, muitas vezes, provoca o surgimento de outras perguntas. Isso é muito bom, porque vamos adquirindo um cabedal de conhecimentos, sem o perceber. Perseveremos, pois, neste árduo trabalho de tudo questionar, pois a mente que não investiga acaba adquirindo a preguiça de raciocinar.

São Paulo, 13/4/2005

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