02 julho 2008

Pensar por si Mesmo

O exercício filosófico estimula-nos a tratar objetivamente todos os temas que se nos apresentam. A técnica utilizada é a mesma que apregoa Kant, ou seja, não devemos ser espectador de frutas em vitrine, mas operadores conscientes do nosso próprio pensar. Quer dizer, se somos apenas receptores passivos do conhecimento, não entramos propriamente no ato de filosofar; porém, se passarmos à "ação filosofante", apropriando-nos da idéia, da questão, do juízo dados, eles farão sentido para nós, pois, em vez de deixá-los do lado de fora, o nosso pensamento se apodera deles.

A análise filosófica deve ser o ponto de partida para adquirir o hábito de pensar por nós mesmos. De acordo com a etimologia grega a palavra análise significa não só decompor e discernir as diferentes partes de um todo, como também reconhecer as diferentes relações que elas mantêm entre si, quer com o todo. Em outras palavras, analisar é ousar refletir, questionar e por em dúvida o conhecimento vigente tal qual sugeriu Descartes na sua obra O Discurso do Método. Precisamos, pois, sem precipitação, cruzar, descruzar, comparar e buscar o máximo de aprofundamento que a nossa mente possa alcançar.

Perguntas e respostas fundamentam a análise filosófica. Nesse sentido, cada tipo de pergunta requer uma resposta específica. Com "o que é", pergunta-se qual a natureza de, portanto, busca-se uma definição. "Pode-se" ou "pode..." ou "é possível..." verbo e locução que concentram três idéias: possibilidade lógica, física e moral. "Em que" ou "como" ou "em que medida" pede-se para justificar o enunciado, explicar em virtude do que ele é justo. "É preciso" ou "deve-se" ou "é forçoso..." interroga-se sobre a questão da necessidade, da exigência. "É justo afirmar que..." ou "será verdade que..." ou "o que você acha de..." não se pede a nossa opinião, como se estivéssemos sendo entrevistados, mas uma reflexão sobre um juízo.

E quando o pensamento entra em pane? O que fazer? 1.º) decompor a palavra em todas as suas formas: verbo, adjetivo, substantivo, advérbio etc.; 2.º) fazer uso dos sinônimos e dos antônimos; 3.º) nada rejeitar a priori, pois somente após um confronto com o enunciado do problema é que teremos condições de aceitar ou não; 4.º) utilizar a técnica do "em outras palavras", a qual permite reformular a mesma idéia; 5.º) somente recorrer a um autor se o mesmo tratar do tema em questão.

A reflexão filosófica deve ser de fundo e não de forma. Muitas vezes direcionamos a nossa energia mental para assuntos que só servem para preencher o tempo. Lembremo-nos de que esta atitude não representa o verdadeiro exercício filosófico. Este, para ser verdadeiro, deve atender à nossa necessidade interior de construção do conhecimento. Percebamos, pois, que é somente com esse esforço hercúleo que o aprendizado torna-se propriedade do ato de pensar.

Estejamos sempre prontos para recomeçar. Quer queiramos ou não, a vida se nos apresenta eternamente de forma criativa, pois todo o momento é sempre único na passagem do tempo.

Fonte de Consulta

ARONDEL-ROHAUT, M. Exercícios Filosóficos. São Paulo, Martins Fontes, 2000.

São Paulo, 11/07/2000

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