04 julho 2008

O Virtual e o Atual

A palavra virtual origina-se do latim medieval virtualis, que provém de virtus, força, potência. De acordo com os escolásticos, virtual é o que existe em potência e não em ato. O virtual tende a atualizar-se. Uma árvore está virtualmente numa semente. Filosoficamente considerado, difere da imaginação, da ilusão e mesmo do termo virtual que se usa em cinema e televisão. Em realidade, virtual e atual são dois estados de um mesmo problema, de uma mesma questão. O atual nada mais é do que uma resposta ao virtual.

Todo o ser humano tende à perfeição. Para explicar esta tese, partamos da seguinte afirmação: "Deus criou todos os Espíritos potencialmente perfeitos". Contudo, para que o fato se torne realidade, cada um deverá ir paulatinamente atualizando essa perfeição. Nesse sentido, tanto faz o Espírito estar no mundo dos encarnados como no mundo dos desencarnados, pois a inexorabilidade do progresso é irreversível. Ou seja, quer queiramos ou não, todos seremos guiados para os caminhos que devemos percorrer para atingir tal desideratum.

O Espírito pode captar as mensagens de mundos mais elevados. Não é algo imaginário, ilusório, visto que as projeções de luz ficam plasmadas no cosmo. Observe o trabalho dos profetas, aqueles que tinham capacidade de prever o futuro. Eles, com uma visão mais acurada, puderam penetrar nos acontecimentos que ainda estavam por vir. Allan Kardec, em A Gênese, explica-nos a questão, lançando mão de um exemplo: um homem ao pé da montanha e o outro no topo. O que está em baixo não consegue ver o que está do outro lado; o que está no topo, sim.

Na perspectiva da virtualização há que se distinguir o trabalho do emprego. O emprego é uma tarefa que temos de realizar, durante um certo período de tempo, para receber um determinado salário, a fim de manter a nossa subsistência. O trabalho, por seu turno, diz respeito à realização pessoal, à vocação e à espiritualização do ser. O trabalho é muito mais valioso que o emprego, pois há muita gente que tem emprego e não tem trabalho e muitas que trabalham 24 horas por dia e não tem emprego.

O Mito da Caverna de Platão faz sentido. Ao colocar os homens dentro de uma caverna, de costas para a luz, de modo que só vissem as suas próprias sombras, Platão comunicava-nos a existência de um outro mundo, o mundo das essências, localizado no topos uranos, um lugar no espaço, ao qual todos deveríamos voltar quando cessasse a nossa passagem terrena. Lá, no mundo das essências, tudo existe em perfeição, como forma. O nosso trabalho consiste em nos ajustarmos a essas formas perfeitas.

Esforcemo-nos por deixar a nossa mente em plena atividade, evitando as reclamações de toda a sorte. Lembremo-nos da frase de Jesus: "Tendo sustento e com o que nos cobrirmos estejamos contentes". Eis a fórmula mágica de atualização das nossas virtualidades.

São Paulo, 02/06/2004

Nenhum comentário: