02 julho 2008

O Sucesso

Os sociólogos preferem se concentrar nos "fracassos" e não nos "sucessos". Em termos sociais, os pobres, as pessoas que dormem debaixo da ponte e os favelados são classificados como fracassos. Os bem-sucedidos, ou seja, aqueles que encontraram a sua carreira, casaram-se e tiveram filhos são classificados como sucessos. Como, portanto, tratar do sucesso, ou melhor, daquilo que vem depois de obter o sucesso? Foi o que fez Ray Pahl, em seu livro, Depois do Sucesso, pela editora Unesp.

O sucesso, na antiguidade grega, era um termo carregado de culpa e de medo. Não tanto pela aquisição de riqueza, mas pela ultrapassagem de seus limites. Aludiam ao termo koros. A palavra koros era usada para descrever o comportamento do ser humano que ultrapassava os limites da ganância. Esse homem agarra mais do que lhe é necessário, como o glutão que continua a empanturrar-se quando já não tem mais fome. Hesíodo, Sólon e Teógnis achavam que a cobiça e a corrupção dos governantes eram o pior dos males de seu tempo.

Na sociedade moderna, especificamente depois da Revolução Industrial, na Inglaterra, e do surgimento do Capitalismo, nos Estados unidos, o sucesso passa a ser visto como a aquisição de uma profissão, de uma carreira. Keneth E. Boulding, autor de vários livros de economia, chama-nos a atenção para a escolha de uma profissão. Ele nos alerta para os desvios de cérebros vigorosos, que poderiam ter dado uma enorme contribuição na ciência, voltarem-se para o Direito, onde poderiam se tornar juiz e, com isso, alcançar um status bem mais elevado do que um simples cientista.

A procura por cargo e status trouxe, às modernas sociedades, um fato novo: a ansiedade e o estresse. Pergunta-se: por que o homem trabalha tanto, mesmo depois de ter obtido o sucesso? É que a riqueza, por mais paradoxal que pareça, clama por mais riqueza. A insaciabilidade humana difunde-se na acumulação de bens. Com isso, muitos seres humanos, que obtiveram o sucesso, acabam se julgando fracassados. Faltou-lhes o cultivo da alma, a parte mais importante do seu ser.

Paralelamente ao sucesso, acrescentamos o surgimento dos meios de comunicação de massa e os avanços da informática, principalmente pelos infinitos usos proporcionados pela Internet. A globalização tende a padronizar usos costumes: um filme, rodado na Coréia do Sul, tem o mesmo teor sanguinário e violento dos filmes americanos. Hoje, o incentivo ao consumo pelo cartão eletrônico, é sem limite. A mídia nos diz: "Consuma, consuma e será feliz". Vamos ao Supermercado e não temos nenhum receio de fazer a compra do mês, para pagá-la em trinta ou sessenta dias.

Obter o equilíbrio psíquico, físico e espiritual não é tarefa fácil. Urge voltarmos aos clássicos, a fim de aprendermos, com eles, a impor limites às nossas necessidades. A falta de dinheiro é, muitas vezes, o verdadeiro estímulo ao nosso progresso moral e espiritual. Quem sabe se o seu excesso não estaria prejudicando a nossa felicidade?

Fonte de Consulta

PAHL, Ray. Depois do Sucesso: ansiedade e identidade fin-de-siècle. Tradução de Gilson Cesar Cardoso de Sousa. São Paulo: Unesp, 1997. (Biblioteca básica)

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