02 julho 2008

O Pensamento Ocidental e o Taoísmo

O Tao é nome que se dá aos ensinamentos veiculados por Lao-Tsé, há 2.600 anos, na China, no livro o Tao-Te-Ching. De acordo com o seu autor, o Tao não pode ser definido, apenas conhecido, pela mesma razão com que não podemos definir Deus. O livro foi escrito numa única noite, como resposta ao homem da fronteira, que lhe pediu para ensinar tudo o que sabia da vida. Diz-se que quando Lao-Tsé escreveu o livro ele estava mais do que inspirado, ele estava iluminado. Ao longo de todo esse tempo, esse livro foi traduzido para várias línguas, servindo de subsídio para muitas filosofias e religiões.

Os ocidentais têm muita dificuldade de compreender o modo de atuar dos orientais. É que nossa cultura foi formada à beira do mar (Mar Mediterrâneo), em que imperava a racionalidade dos gregos, tais como Sócrates, Platão e Aristóteles. Assim, para os ocidentais a busca da verdade deve passar necessariamente pela argumentação, pela análise e pela dedução. Os chineses não têm essa preocupação; o conhecimento da verdade vem pela intuição, pelo não-atuar, por deixar a realidade se mostrar.

No que tange à arte, o mundo ocidental reteve as partes da eficácia e segue voltado para o valor monetário, ou seja, para a materialização dos arroubos do sentimento. Contudo a arte, na sua acepção mais acurada, é tornar consciente o que está no subconsciente. Nesse sentido, os chineses estão mais perto da verdadeira arte porque não evocam a personalidade e a individualidade como os ocidentais, mas radicalmente a paisagem, que é impessoal e mais próxima da natureza.

A metáfora da água é um dos símbolos mais ventilados no taoísmo. Enquanto nós, ocidentais, estamos à procura da erudição e da eficiência, os chineses se desenvolvem por meio do wu-wei (natureza) e do tzu-jan (espontaneidade). Eles não buscam o saber; isso é algo que emerge da situação, em virtude de uma não-ação, que não quer dizer inação. Por isso, o repouso do sábio assemelha-se à água. Quando a água está límpida e quieta, ela espelha melhor o seu conteúdo. Se estiver turva e agitada, não conseguimos ver mais nada. Do mesmo modo, o sábio precisa de repouso e tranqüilidade para espelhar toda a sua sabedoria.

Os chineses não confundem atividade com a agitação. O fato de uma pessoa ficar à beira do lago, sem nada fazer, não significa que esteja inativo. Ele pode simplesmente estar captando idéias, absorvendo forças e energias do cosmo, que lhes poderão ser úteis no momento aprazado. Para eles, basta que tomemos consciência do que se nos acontece aqui e agora, sem qualquer tipo de intervenção. As coisas simplesmente devem acontecer; o nosso trabalho consiste em observar, sem julgamento, e esperar a lei do retorno, pois a dualidade ou a separação não existe. As coisas formam um todo harmônico.

Em vista disso, não devemos nos preocupar com o fracasso e o sucesso. Eles não são dicotômicos; fazem parte da atividade humana. E, se assim pensarmos, iremos a qualquer lugar, sem medo do desconhecido.

Fonte de Consulta


RACIONERO, Luis. Textos de Estetica Taoista. Madrid: Alianza, 1983.

São Paulo, 30/03/2005


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