01 julho 2008

O Mestre Ignorante

O Mestre Ignorante é o título de um livro de Jacques Rancière, filósofo francês, que foi desafiado a ensinar francês aos holandeses. Os holandeses nada sabiam de francês e ele nada sabia de holandês. Como foi possível a comunicação sem um meio comum, a decodificação da mensagem? Para atingir tal desiderato, valeu-se do Telêmaco, uma espécie de dicionário francês que serve para quase tudo. Pode, assim, exercitar-se na arte de ensinar e de aprender.

A questão central do livro: como um ignorante pode ensinar outro ignorante? A sua experiência – os alunos holandeses aprenderam com ele – colocou em dúvida a figura do professor explicador, aquele que sabe e ensina aquele que não sabe. Para ele, esse professor explicador causa mais mal do que bem à educação. Acha que aqueles que recebem esse tipo de educação acabam não tendo a curiosidade de buscar o conhecimento por si mesmo, pois quando tiverem dúvida, terão a quem perguntar. E assim não fazem o esforço da busca. 

Em vista disso, desenvolve o tema do professor embrutecedor, ou seja, do professor que faz o aluno entender. É aquele que, a cada dia, procura novas formas de ensinar, novas técnicas, a fim de ter certeza de que o aluno está compreendendo. Esses professores acabam criando uma situação dual para a inteligência: os que sabem ficam de um lado e os que não sabem do outro. Esta dicotomia é ruim, não só para a educação, como também para o próprio processo da inteligência. Acredita que todo educador deveria partir do pressuposto de que todos somos igualmente inteligentes.

Ranciére adota a tese do ensino universal. O ensino universal é aquele que pressupõe a igualdade da inteligência. Assim sendo, não existe um explicador que sabe e um ignorante que não sabe. Importa mais saber relacionar o conhecimento com o todo do indivíduo. Nada pode entrar na vida do sujeito se não tiver uma ligação com o seu todo. Somente unindo a parte com o todo é que podemos dizer que o sujeito está realmente aprendendo. É a esse esforço que ele se dedica em toda a sua obra.

A experiência mostrou a Jacotot que alguns estudantes se ensinaram a falar e escrever em francês, sem o socorro de suas explicações. Eles haviam aprendido sozinhos e sem o mestre explicador, mas não sem mestre. Como um ignorante pode ensinar outro ignorante? Pode-se ensinar o que se ignora, desde que se emancipe o aluno, isto é, que se force o aluno a usar a sua própria inteligência. Para emancipar há um requisito, ou seja, ser emancipador.

O pensamento deve pensar para que possa cada vez mais continuar a pensar no sentido de transcender o que pensa para se tornar o que poderia ser.

Fonte de Consulta

RANCIÈRE, J. O Mestre Ignorante: Cinco Lições sobre a Emancipação Intelectual. Tradução de Lílian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica, 2002 (Coleção: Experiência e Sentido)

Um comentário:

Roberto Henrique disse...

Excelente texto dessa obra importantíssima nos nossos dias atuais.