01 julho 2008

Mirandum

A filosofia é definida, desde a sua origem, como a capacidade de o ser humano espantar-se com as coisas ao seu redor. Para Platão e Aristóteles, a metafísica se originava na admiração (mirandum). Eis porque os primeiros filósofos, contemplando o espetáculo familiar da abóbada celeste, e sentindo-se colhidos de admiração perante o movimento das estrelas e dos planetas, a si próprios formularam questões a propósito de um espetáculo até então passivamente aceito por todo o mundo.

O que significa a palavra mirandum? É o maravilhoso, o sobrenatural, aquilo que transcende a percepção do concreto. É como se o ser humano procurasse algo além do objeto, algo além desta própria vida, o incomensurável. Esse esforço tem por objetivo captar a totalidade da vida, não a fornecida pela tradição teológica, mas aquela construída "de baixo" para cima, como sói ser a função precípua da Filosofia. É preciso, pois, refletir sobre o maravilhoso, porém sem precipitação e sem preconceito.

Sócrates, depois que deixou o jovem matemático Teeteto tonto de admiração, diz: "É precisamente essa atitude que caracteriza o filósofo; este, e não outro, é o começo da Filosofia". Aristóteles e S. Tomás diziam que o ato de filosofar se assemelha à poesia: "Tanto o poeta quanto o filósofo se ocupam do maravilhoso, daquilo que suscita e alimenta a admiração". Goethe, já em idade avançada diz: "Eis que existo para admirar"; "O grau supremo a que o homem pode chegar é a admiração".

A filosofia moderna – revestida da pretensa racionalidade –, deixa de lado o espanto para se chafurdar nos caminhos da dúvida. Descartes, por exemplo, começava por duvidar de tudo, passando uma borracha sobre tudo o que tinha aprendido até o momento para, depois, através da razão, ir construindo paulatinamente os conceitos. Chega, inclusive, à noção de Deus: como um ser finito pode captar o infinito? Somente com o auxilio de algo infinito, que é o próprio Deus. Esqueceu-se de dizer que Deus é encontrado pelo sentimento e não pela razão.

A reflexão sobre o mirandum leva-nos necessariamente à noção de Deus, da esperança e da caridade. Para o funcionamento do Universo, há necessidade de um Criador, de um Organizador, o qual denominamos Deus. Para as incertezas da vida, necessitamos da esperança, uma espécie de crença nas impossibilidades, mas com a certeza de que tudo vai dar certo. E por último, a caridade, que é a disposição de fazer o bem ao próximo sem nenhuma expectativa de recompensa.

Como vemos, a capacidade de ver as mesmas coisas com outros olhos, não é tarefa fácil. Exige uma mente aberta às inspirações do alto. Somente assim poderemos transcender o imanente do dia-a-dia.

Fonte de Consulta

PIEPER, Josef. Que é Filosofar; Que é Acadêmico? Tradução de Helmuth Alfredo Simon. São Paulo: EPU, 1981.

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