01 julho 2008

Avesso da Liberdade

Avesso da Liberdade é o titulo do livro organizado pelo jornalista e professor Adauto Novaes. Ele é o resultado de um ciclo de conferências, construído na forma de diálogo entre os filósofos. Renato Janine Ribeiro, professor de Filosofia Política e Estética da USP, Renaud Barbares, Professor titular da História da Filosofia na Universidade Blaise Pascal, de Clement-Ferrand (França), Gerd Bornheim, Professor de Filosofia da Universidade do Rio de Janeiro, Olgaria Matos, Professora de Filosofia da USP e Fábio Konder Comparato, Professor de Direito da USP são alguns desses pensadores.

A invenção da liberdade, os caminhos da democracia e as cidades modernas, construídas sobre concepções, na maioria ilusórias, de democracia e liberdade, são, portanto, os três grandes temas deste livro. A idéia central subjacente refere-se à natureza do homem, que se define pela necessidade de liberdade, "necessidade espontânea que brota da essência do próprio ser". Contudo, por estar no mundo, o homem está sujeito a determinações exteriores: assim, muitas vezes ele não realiza a condição natural e humana de sua potência (que é ser livre) para se deixar dominar, tornar-se servo.

Paul Valéry, no seu ensaio Flutuações sobre a Liberdade, publicado em 1938, diz: "Liberdade: uma destas palavras detestáveis que têm mais valor do que sentido". O juízo de valor acaba dando a cada um o sentido que lhe apraz. Rousseau, por exemplo, fala que "Todo o homem nasce livre, mas em toda a parte se vê acorrentado". Voltaire, por seu turno diz: "Não concordo com nada do que você pensa, mas defenderei o seu direito de dizê-lo até o fim". A liberdade nos regimes comunistas é mesma dos países democráticos?

Liberdade é uma palavra polissêmica: ao longo da história ela foi construída pela teologia, pela metafísica, pela moral e pela política. Hoje, ela é entendida como liberdade-ídolo, mistificação liberal, inscrita nas bandeiras, nas constituições e na publicidade. Para bem compreendê-la devemos verificar em qual sentido a estamos usando, pois ela pode servir a muitas discussões, sem proveito algum para a construção de um saber sólido e verdadeiro. Ainda: na sua própria história, a liberdade traz o seu contrário, ou seja, a escravidão.

A liberdade comporta riscos, ilusões e fracassos, pois está carregada de atitudes emotivas, acepções religiosas, políticas e morais. A palavra que usamos hoje foi construída pelos mais diversos indivíduos e nas mais diversas circunstâncias, o que dificulta ainda mais o seu exato sentido. Observe, por exemplo, a propaganda de uma determinada marca de cigarro: uma pessoa saudável, montada num cavalo, à beira de um lago, usufruindo a liberdade de fumar. O que a propaganda não mostra? O vício que cria no consumidor. Este, ao tragar a fumaça do seu cigarro, limita os seus atos livres, porém não aparece nos comerciais.

Estejamos convictos de nossa liberdade. Não seremos livres pela nossa vontade, mas somente quando estivermos de posse de nossa potência de agir.

Fonte de Consulta

NOVAES, Adauto (Organizador). O Avesso da Liberdade. São Paulo: Cia Letras, 2002.

São Paulo, 3/5/2006

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