27 junho 2008

Voltaire: Cândido ou Otimismo

Voltaire (1694-1778), cujo nome verdadeiro era François-Marie Arouet, escreveu o Cândido ou o Otimismo por volta de 1758 e o publicou em 1759. Esse livro se insere na história do problema do mal, cujo início é reportado ao dilema de Epicuro: "Ou Deus quer extirpar o mal deste mundo e não pode, ou pode e não o quer; ou não pode nem quer; ou finalmente quer e pode. Se quer e não o pode, é sinal de impotência, o que é contrário à natureza de Deus; se pode e não o quer, é malvadez, o que não é menos contrário à sua natureza ; se não quer nem pode é simultaneamente malvadez e impotência; se quer e pode (o que de todas as hipóteses é a única que convém a Deus), qual é então a origem do mal sobre a Terra?"

Historicamente, várias correntes de pensamento tentaram encontrar uma solução ao problema apontado por Epicuro. Dentre elas, cita-se o maniqueísmo, seita cristã criada no século III. De acordo com o maniqueísmo, há dois princípios no universo: um princípio bom (Deus) e um princípio mal, que a dogmática religiosa denominou diabo. Santo Agostinho, em Confissões, discorda de tal afirmação: ele tenta mostrar que o mal não tem ser, ele é apenas a ausência do bem. Daí dizer que quando o homem comete o mal ele apenas se afasta do bem. Conseqüentemente, deve retornar a ele, porque é o único que tem substância.

No século XVII, Leibniz, com a sua Teodicéia, – de theos (Deus) e dike (justiça), significando justiça de Deus – dá também a sua contribuição à história do problema do mal. As suas teses fundamentam-se no otimismo filosófico ou no princípio da razão suficiente. O princípio da razão suficiente é aquele segundo o qual nada existe sem uma razão para ser assim e não de outro modo. De acordo com Leibniz, a única razão de este mundo existir e não outro é que este é o melhor. O fim do todo é bom, aquilo que vemos como mal se deve à limitação de nossa perspectiva parcial, sempre limitada e incompleta.

Voltaire era adepto do otimismo filosófico – crença de que há um funcionamento ordenado do universo e de todos os eventos. Contudo, o terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755, dizimando e ferindo muitas pessoas, fê-lo mudar de ideia. A partir daí, opõe-se a esse pensamento. Primeiramente, ataca a religião cristã quanto ao dogma do pecado original. O filósofo se pergunta: se o otimismo está certo, qual é o lugar do pecado original na organização perfeita? Depois, faz diversas comparações entre o mal que vê e aquela ordem que o otimismo apregoa.

O Cândido ou o Otimismo é uma crítica ao otimismo filosófico. Voltaire pretende mostrar que a causa – tudo que existe tem uma razão de ser –, apontada pelo otimismo filosófico, não é capaz de se sustentar perante o testemunho do mundo. Defende, em contrapartida, o otimismo prático, aquele se expressa no aqui e no agora. A recusa do otimismo global leva-o a recusar, também, a identificação que era feita pelo otimismo filosófico entre ordem e bondade ou beleza.

O Cândido, de Voltaire, é um ingênuo à espera dos ensinamentos da história. E só consegue obtê-los no final do relato, quando se livra da perspectiva otimista – ilusões da metafísica e do dogmatismo filosófico – e se junta aos amigos para ter uma vida tranquila por meio do trabalho.

Fonte de Consulta

BRANDÃO, Rodrigo. Voltaire e as Ilusões da Metafísica. In. FIGUEIREDO, Vinicius de (Org.). Seis Filósofos em Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertechia, 2006.

Nenhum comentário: