30 junho 2008

Poder: Emergência e Predisponência

O poder - do grego kratos - manifestou-se desde a Antiguidade até os nossos dias sob diversas formas: inicialmente a teocracia, em que a divindade dá as leis que regulam a ordem social; segue-se-lhe a aristocracia, ou o governo dos melhores, secundada pela oligarquia, governo de poucos e a monocracia, governo de um; posteriormente, surgem a democracia, governo do povo, a plutocracia, governo dos ricos e a oclocracia, domínio das "vontades" populares. Essas fases cráticas não obedecem a uma exatidão mecânica, pois dependem do grau de intensidade envolvido em cada momento histórico.

Em toda e qualquer sociedade, independentemente de sua estrutura econômica ou social, podemos perceber pelo menos quatro características fundamentais do temperamento humano: 1ª) pessoas com tendência acentuada para o transcendente, para o místico, para o religioso; 2ª) pessoas que revelam um ímpeto empreendedor, amando a ação pela ação; 3ª) pessoas em que predominam os valores utilitários, que tendem a organizar a produção e a riqueza; 4ª) pessoas que acentuadamente obedecem, que prestam serviços.

Em todos os seres humanos há essas tendências, ou emergências que se atualizam mais ou menos intensivamente nos vários graus de predisponência. Convém, aqui, fazer uma ressalva ao marxismo. A análise meramente materialista-histórica não alcança corretamente a gestação das classes sociais, porque as vê como produto de uma estrutura meramente econômica, desligada dessas emergências espirituais que são inatas em cada ser vivente.

A historiologia - filosofia da história - deve ser reformulada. Embora as idéias materialistas tenham influenciado fortemente a filosofia moderna, convém verificar que os homens, antes de tudo, são almas pensantes. Daí advém os estados criativos e intuitivos da mente humana, isentos de qualquer finalidade utilitária, restringindo-se tão somente à perfeita identificação com o "eu" superior. Jungidos ao consumismo imediato, falseamos o princípio ético da nossa realização pessoal.

A posse do poder, sendo acompanhada pela ambição de muitos, acaba por confundir os meios com os fins. Nesse sentido, as emergências individuais que deveriam ser maximizadas acabam sendo negligenciadas. A política, que é uma técnica de harmonizar os interesses individuais com os sociais, passa, nesses momentos, a ser uma técnica de conquista do poder e da conservação do mesmo. É por isso que se vê as crises na história, porque há sempre uma separação entre os que governam e os que são governados.

Tenhamos em mente que o poder deve ser exercido para administrar o bem público. Utilizá-lo em benefício próprio pode ocasionar graves transtornos à consciência.

Fonte de Consulta

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. Ed., São Paulo, Editora Matese, 1965.

São Paulo, 22/08/1997

Nenhum comentário: