29 junho 2008

A Experiência e o Filosofar

O problema do ponto de partida do filosofar reveste-se de vários e distintos matizes. Primeiramente, há que se considerar o "assombro", a "surpresa" e o "desespero" que incitam o homem a filosofar. Posteriormente, deve-se estabelecer a prioridade lógica para que se tenha a rigorosidade dos seus conceitos. Alguns filósofos buscam uma verdade absolutamente certa; outros falam de uma primeira realidade que sirva de base para tudo o mais. Porém, sempre que estabelecemos uma origem, indagamos de uma origem anterior, de modo que o perguntar não tem fim. Por isso, uma reflexão sobre a experiência humana facilita a nossa compreensão do filosofar. Empenhemo-nos, pois, em estudá-la.

A experiência humana é considerada por alguns filósofos como o principal ponto de partida do verdadeiro filosofar. Ela não deve ser confundida com a experiência científica, em que se estabelecem hipóteses para serem comprovados empiricamente. A experiência humana constitui a realidade, fato básico do qual todos os outros fatos decorrem. Refere-se, primordialmente, à pessoa que tenha vivido muitos, variados e intensos estados psíquicos. Em síntese, ela fundamenta a totalidade do ser.

A experiência humana diz respeito ao "eu", ao "outro", ao "nós" e ao mundo. O eu não pode ser analisado isoladamente, pois sempre está relacionado com o objeto. Observe o erro tanto do idealismo quanto do materialismo ao pretenderem reduzir o ponto de partida do filosofar a uma única realidade. O eu quando se expressa, expressa-se através de um juízo de valor: o pensado ao pensar, o desejado ao desejar, o percebido ao perceber. O cogito pressupõe um cogitatum. É somente pela síntese das concepções idealista, materialista e religiosa que podemos formar uma visão global da realidade que nos absorve.

Experiência pressupõe "resistência". Todo o objeto que quer ser apreendido mostra a sua resistência. Nesse sentido, a "resistência" é proporcional ao impacto que o sujeito exerce sobre o objeto. Por isso, nenhuma ideia nova é aceita com tranqüilidade. Ela precisa aclimatar-se nos corações daqueles que estão ligados a essa vivência conjunta. Observe a vida dos grandes homens: tiveram que rasgar horizontes através de toda a sorte de dificuldades. Assim, ao sermos incompreendidos, mesmo com a melhor de nossas intenções, não nos desanimemos, porque está ampliando-se a nossa visão de mundo.

A experiência deve ser concebida no tempo. O que fazemos nesse instante é conseqüência do que fizemos no passado e daquilo que intencionamos fazer no futuro. A calma nos grandes momentos de dificuldade e de tribulação é o resultado dos pequenos esforços feitos no passado. O acaso não existe: cada um é construtor do seu próprio destino. O importante é aprendermos a nos limitar dentro das circunstâncias que estamos inseridos.

Recebamos com naturalidade tanto a crítica como o elogio. A diversidade dos pareceres alheios não pode desviar-nos dos projetos existenciais que, conscientemente, traçamos para nós mesmos.

Fonte de Consulta

FRONDIZI, R. El Punto de Partida del Filosofar. Buenos Aires, Editorial Losada, 1945.

São Paulo, 25/11/1998

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