29 junho 2008

Estóico e Historicidade

Diógenes de Laércio diz que Aristipo era um ser humano que procurava se adaptar a tudo (tempo, pessoas e circunstâncias), nem que para isso fosse necessário mentir. Aristipo, respondendo à pergunta "qual a vantagem dos filósofos?", diz: "Se as leis desaparecerem, nossa vida em nada mudaria". Horácio, por sua vez, lembra-o como um exercitador do domínio de si: "Volto aos princípios de Aristipo e tento submeter-me às coisas em vez de elas me submeterem". Em outras palavras, devemos aceitar as coisas como elas advém. 

Tanto para Aristipo como para os estoicos, ser histórico é interpretar papéis. Interpretar papéis liga-se ao conceito de ator. Lembremo-nos da metáfora do ator evocada por Epicteto, no Enchiridion (Manual) e nas Diatribaì: "Lembra-te de que és ator de um drama que o autor assim quer: curto, se ele é curto: longo se ele é longo. Se é um papel de mendigo que ele quer para ti, mesmo este interpreta-o com talento... Pois tua tarefa é a de interpretar corretamente o personagem que te foi confiado; quanto a escolhê-lo, é fato de outro..."

Alguns trechos da vida de Zenão e de outros estoicos demonstram que a aparência estoica é, também ela, uma forma de ensinar a doutrina. Na carta que o rei da Macedônia, Antígonas Gônatos, endereça a Zenão em sua velhice, ele pede o ensino do filósofo, não só para si, mas para todos os macedônios, pois um rei virtuoso é, também, ter um povo virtuoso. Ele conclama Zenão a relacionar-se consigo: "Penso ser superior a ti em fortuna e reputação, mas que te sou inferior em inteligência, em saber, em felicidade, essa felicidade perfeita que tu possuis..."

Diógenes Laércio observa que Zenão "Era muito acomodado... Evitava grandes afluências. Nunca passeava com mais de duas ou três pessoas... Quando repreendia alguém, não o fazia francamente nem completamente, mas por longínqua alusão... Ele ultrapassava a todos tanto pelo aspecto como pela dignidade, e, por Zeus, por sua felicidade. Viveu até os 98 anos sem doença. Eis o epigrama do Ateneu sobre todos os estoicos, em geral: ó vós, sábios nas palavras estoicas, vós que colocastes sobre as páginas sagradas pensamentos tão belos, que a virtude da alma é o único bem. Ela, só ela, conserva a vida humana e as cidades..."

Entende-se, assim, porque certos filósofos deixaram marcas profundas na história. Platão deixou o "amor platônico". Os cínicos também nos deixaram o adjetivo "cínico" devido a uma intrigante inversão interpretativa, difícil de detectar e extensa para explicar, e sobre a qual se deve refletir. Os estoicos nos legaram, por seu aspecto exterior e hábitos de vida sem fausto, freqüentemente noticiados, a qualidade de força de caráter e a aceitação do sofrimento.

Por tudo isso, reverenciemos os clássicos do pensamento. Eles não mediram esforços para legar à Humanidade essas verdades imorredouras.

Fonte de Consulta

GAZOLA. Rachel. O Ofício do Filósofo Estóico: O Duplo Registro do Discurso da Stoa. São Paulo: Loyola, 1999. (Leituras Filosóficas)

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