29 junho 2008

Escolha e Concisão filosófica

O ponto de partida para a escolha de temas filosóficos deve estar centrado na acepção de Descartes, que no Discurso do Método, afirma não existir uma só matéria dentro de sua esfera que não esteja seguindo em discussão. Quer dizer, para os grandes problemas da vida haverá sempre muitas opiniões e muitos pareceres, ou seja, devemos estar abertos para a crítica e a contradição.

O ato da escolha pressupõe uma questão: por onde começar? O que se deve ler em primeiro lugar? J. O. Urmson, na sua Enciclopédia Concisa de Filosofia e Filósofos, enumera alguns livros para os iniciantes em filosofia: Diálogos entre Hila e Filon, de Berkeley; O Discurso do Método, de Descartes; Ensaio sobre o Entendimento Humano, de Hume; A República, de Platão; O Utilitarismo, de Mill; Os Problemas da Filosofia, de Russel. Insiste, ainda, que devemos ler todos eles com o espírito crítico.

A qualidade deve prevalecer sobre a quantidade, embora toda a escolha tenha os seus inconvenientes, porque muitos temas ficarão fora da seleção. Porém, se não corrermos esse risco nada produziremos de valor, visto que a compreensão de um assunto requer doses maciças de aprofundamento. É precisamente aí que reside a atitude filosófica, ou seja, saber distinguir entre o útil e o inútil. De qualquer forma, o mais importante é estar inteiro no tema que for escolhido.

Foi o que fez Urmson no livro acima citado. Sendo o seu objetivo resgatar o alcance da filosofia ocidental, deixou de lado as filosofias que tratam especificamente dos "aspectos práticos da vida", principalmente as filosofias orientais. Isso não quer dizer que esses assuntos não tenham valor. Talvez sejam até mais importantes do que os aspectos teóricos, mas, uma vez feita a escolha, deve-se seguir e deixar para os outros o estudo de tais temas.

Em filosofia, como em qualquer ciência, não existe um ponto final. Há sempre novos enfoques, novos relacionamentos, novos pontos de vista. Cabe-nos, sim, consultar os filósofos e cientistas que são mais claros e objetivos, a fim de ampliarmos o estoque do nosso conhecimento. Contudo, não devemos fiar na autoridade deste ou daquele, pois os grandes problemas da humanidade são mais frutos de opinião do que de verdade.

Busquemos o perfeito entendimento da vida e do relacionamento com o próximo. Se não conseguimos ainda absorver certos temas como gostaríamos, deixemos a cargo do tempo que tudo resolve e tudo aclara.

Fonte de Consulta


URMSON, J. O. Enciclopedia Concisa de Filosofía y filósofos. 2. ed., Madrid, Catedra, 1975.

São Paulo, 07/05/1997

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