29 junho 2008

De Magistro

Santo Tomás de Aquino (1227-1274) foi um dos maiores expoentes da Escolástica. Para entendermos o seu pensamento, precisamos nos desvencilhar dos esquemas de interpretação da atualidade e penetrar no âmbito da disputatio da Idade Média. Joseph Pieper vê na quaestio disputata a essência da universidade: era um verdadeiro confronto de idéias, de razões, de argumentações. A vida da universidade agitava-se nesse conflito de idéias, tendo como pano de fundo os debates acirrados acerca da fé e da razão.

O De Magistro de Santo Agostinho (354-430) – memória de um diálogo havido com o filho Adeodato – é o ponto de partida do De Magistro de Tomás de Aquino. Diferentemente das discussões de Santo Agostinho, Tomás de Aquino insere-se nas Quaestiones Disputatae de Veritate, escritas entre 1256 e 1259. O problema fundamental era responder à pergunta quid sit Veritas? Esta questão, de fundo religioso, se amarrava com toda a problemática de Deus, do mundo e do homem. Entrava em jogo a verdade bíblica e a verdade grega, com as mediações trazidas pelos Santos Padres, os pensadores judeus e muçulmanos.

Ensinar é iluminar. A luz é uma metáfora, já nos apresentada por Platão no seu "Mito da Caverna". Esta metáfora chega a S. Tomás por S. Agostinho, para o qual a luz da verdade, partindo de Deus, ilumina diretamente a alma. Para S. Tomás, Deus age ordinariamente pelas causas segundas. No caso do homem, Ele infunde o lumen rationis que leva o intelecto à apreensão certa dos princípios que possibilitam – "iluminam" por sua vez – as conclusões. Tomás diz: "Verdadeiramente pode-se dizer que o homem é verdadeiro mestre, que ensina a verdade e ilumina a mente, não infundindo o lume à razão, mas ajudando o lume da razão para a perfeição da ciência, por meio daquelas coisas que propõe exteriormente".

A transmissão dos sinais. De acordo com S. Tomás, não conhecemos as coisas pelos sinais, mas pelos princípios que nos são propostos pelos sinais. Pelo conhecimento dos princípios conhecemos as conclusões, não os sinais. O docente propõe os sinais das coisas inteligíveis à potência sensitiva do discípulo e dessa potência o intelecto do discípulo recebe as intenções inteligíveis e as passa ao intelecto possível. Não são os sinais sensíveis que causam a certeza da ciência. Essa é causada pela certeza dos princípios, por sua vez causada pela luz da razão (infusa em nós pela ação divina).

Potência e ato. A função do mestre é atualizar a potência que está no aluno. O mestre é aquele que con-corre externamente, aquele que estimula o discípulo a "raciocinar", isto é, a passar do estado de virtualidade ao de atualização da inteligência. A atualização das virtualidades, inscritas em cada um de nós, vai depender de tempo, de circunstâncias e da vontade divina à nossa pessoa. Em uns, ela chega de maneira rápida; em outros, demora um pouco mais. Saibamos sempre esperar o nosso tempo.

O De Magistro – tanto de Santo Agostinho como o de Santo Tomás – mostra-nos que o homem pode ensinar a verdade, mas deixa claro que a apreensão da verdade por parte de cada discípulo vai depender essencialmente da providência divina.

Fonte de Consulta

CAMELLO, Mauricio J. O. S. Tomas de Aquino: De Magistro: Sobre o Mestre (Questões Discutidas sobre a Verdade, XI). São Paulo, Lorena: Centro universitário Salesiano, 2000.

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