27 junho 2008

Centro e Periferia

O homem é um animal racional. Esta definição evoca uma diferença específica, ou seja, a racionalidade distingue-o dos demais animais. Partindo-se dessa generalidade e apoiando-se exclusivamente na razão o homem acaba cometendo uma série de erros. Observe, por exemplo, as lucubrações de Descartes no seu cogito ergo sum, em que descobre Deus através da razão. Esquece que primeiro o homem sente Deus para depois racionalizá-lo.

O ser depois de ter penetrado na fase humana, em que adquire a razão, o livre-arbítrio e o pensamento contínuo começa a ter idéias. Inicialmente, capta-as de forma folk; e somente depois, de forma reflexiva. O método teórico experimental das ciências naturais, em que a razão é sublimada, acaba levando muitos cientistas a endeusá-la, criando um saber extremamente especializado, desconectado do todo que a filosofia sugere.

Ter o homem o seu próprio centro não é tarefa fácil. Geralmente pensamos o que os outros pensam ou pensamos o que eles querem que pensemos. Agindo assim, estaremos demorando-nos na periferia do nosso eu. Ler, informar-se e conhecer o que os outros pensam, não constituem demérito algum. O problema está em, a partir daí, começar a ter idéias próprias, pensar pela própria cabeça e criar a própria personalidade.

A construção do nosso próprio centro deve ser enfatizada. Na atualidade, não podemos mais alegar desculpas para fugirmos de nós mesmos. Repetirmos o que os outros dizem é fácil, porque não cria contradição. Porém, atendermos à voz da nossa consciência exige esforços hercúleos, pois o entrar pela porta estreita a que se refere o Evangelho não é caminharmos pelas facilidades da vida, mas, sim, seguirmos por uma estrada cheia de precipícios e de emboscadas, tendo a plena convicção de sairmos vencedores.

A vida em sociedade compõe-se de muitos e variados relacionamentos. Um homem não pode atender a todos os chamados, a todos os pedidos, ou estar em todos os lugares. Por isso, a disposição de dizer não quando se deve dizer não e dizer sim quando se deve dizer sim é extremamente valiosa. Isso auxilia a ficarmos dentro do nosso centro, porque só atenderemos àquilo que condiz com o cumprimento de nossos deveres. O que não fizer parte de nosso projeto de vida deve ser banido incontinente.

Agrademo-nos sempre a nós mesmos. Somente assim edificaremos o nosso centro e este será o nosso apoio para o resto de nossa existência.

São Paulo, 26/02/1997

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