27 junho 2008

Autopercebimento

Ao nos movimentarmos na vida estabelecemos relações conosco mesmos e com o nosso próximo. Ao nos relacionarmos conosco mesmos e com os outros criamos problemas. Os problemas, de seu lado, nada mais são do que perturbações em nosso bem-estar. Eles podem originar-se de uma doença, de um sofrimento psicológico, de um desejo insatisfeito, do ódio, da injúria, do elogio etc. É sobre essa perturbação momentânea que iremos refletir nas próximas linhas.

É válido querer saber a causa do sofrimento? Não seria isso fugir dele? Quando queremos saber o porquê, isto é, se foi por causa de nossa incúria, ou de uma encarnação passada, o que estamos tentando fazer é aquietar o pensamento, dando-lhe um consolo. A atitude correta seria tomar consciência do sofrimento, tentando entrelaçar observador e coisa observada, pois se o sofrimento for analisado como se estivesse fora de nós, dá-se a impressão de que ele não nos pertence, o que dificulta a percepção.

A mente gosta de embalar-se na ilusão. Por que? Observe: geralmente atribuímos autodecepção aos nossos projetos de vida. A decepção aparece porque estabelecemos um hiato entre o que é e o que deve ser. Como todos nós queremos ser alguma coisa, porque o nada nos aborrece e nos dá um sentimento de inutilidade, acabamos projetando um devir acima do que é. Esta é a ilusão pela qual a maioria dos seres humanos é vítima. Como não bastasse, acabamos transmitindo aos nossos descendentes.

Devemos atender à vontade de Deus ou nos submetermos ao que é? Quando damos importância exagerada à vontade de Deus, deixamo-nos guiar por uma ideia, que é alheia a nós. Refletir sobre o que é é mais difícil. Temos que partir do nada, da nossa insignificância e, através do pensamento, ir construindo um modo peculiar de entender a realidade nua e crua. Lembremo-nos de que não existe nem o erro nem a verdade; falsos ou verdadeiros são sempre os nossos juízos com relação à realidade.

Qual a palavra mágica para a resolução do problema? De acordo com Krishnamurti, a solução do problema está no autopercebimento. O raciocínio é simples, mas de difícil aplicação. Temos de tomar como se fosse nosso aquilo que se nos apresenta. Quer dizer, não devemos fugir das admoestações, dos caminhos que temos de percorrer e das perturbações que temos de passar. É refletindo sobre o que vem à mente, sem censura ou outro subterfúgio, que conseguiremos aquietar o nosso cérebro para a real percepção do problema e sua conseqüente solução.

Tenhamos coragem de olharmos para dentro de nós mesmos. Somos o que somos. De nada adianta fazermos uma imagem que não corresponda ao que é.

Fonte de Consulta

KRISHNAMURTI, J. A Primeira e a Última Liberdade. Tradução por Hugo Veloso. São Paulo, Cultrix, 1960.

São Paulo, 23/10/2002

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