27 junho 2008

Alegoria do Novo Mundo

A crença na existência de uma terra desconhecida é uma constante nos escritos míticos e filosóficos. Na Antiguidade havia grandes textos como a Odisseia, a Eneida e os Argonautas. Posteriormente, quaisquer temas sobre o Novo Mundo eram comparados a esses heróis, que emprestavam à obra um ar de superioridade, de uma transcendência espiritual e filosófica.

A figura do herói é fundamental: é ele quem tem a audácia de romper as barreiras do sensível e penetrar no desconhecido. O herói, produto do conúbio de um deus ou de uma deusa com um ser humano, simboliza a união das forças celestes e terrestres. Sendo meio homem e meio deus, consegue penetrar nas entranhas da Terra, voar aos céus, subir montanhas, descobrir tesouros escondidos etc. Para ele nada é impossível, pois tem o apoio dos deuses e dos mensageiros do além.

Perscrutando a história, observamos a presença de muitos heróis e seus respectivos feitos. Entre os mais recentes, citamos: Os Lusíadas, de Luís de Camões (1572), que representam uma verdadeira atualização da Eneida; a descoberta da América por Cristóvão Colombo, em que este é considerado um predestinado, ou seja, um ser submetido à fatalidade; a invenção do telescópio por Galileu, que com esse aparelho consegue ampliar a nossa visão de mundo, diminuindo a distância dos objetos no Universo.

A grande dificuldade dos heróis: incompreensão, negação e esquecimento por parte de seus pares. Quer seja celebrado ou menosprezado por sua pátria, o herói descobridor é maldito como Prometeu, como Tífis que morre antes do final da expedição, como Colombo que é levado para a Espanha acorrentado e aviltado. Galileu teve que renunciar às suas descobertas científicas para não morrer sob a espada de Igreja. De modo que a população nunca esta preparada para receber um novo conhecimento. Falta-lhe a perspectiva do gênio, a visão daquele que entrou em contato direto com essa nova descoberta.

G. B. Marino, no seu livro A galeria, compara Galileu a Tífis e a Colombo em um soneto, que o conclui assim: "Mas tu, maior que um e que outro, ousaste explorar os campos secretos e inacessíveis do Mundo das Estrelas. E penetrando nesses recantos desconhecidos soubeste encontrar no seu seio profundo novas esferas, novos astros e novos sistemas". Com isso, quer nos convidar a um olhar utópico sobre a vida, no sentido de buscar algo acima de nossas cabeças.

Deixemos o nosso pensamento vagar por esse mundo inexplorado. Que maravilha. Não mais as trevas da Terra, mas a luzes do conhecimento superior invadindo a nossa mente e tomando conta do nosso proceder.

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