08 setembro 2006

A Verdade não Pode Ser Contestada

Na Antiguidade clássica grega, a filosofia era concebida como "a arte de viver", em que a doutrina (ou teoria) deveria harmonizar-se com a existência (ou o modo de viver e de morrer). De acordo com tal definição, o verdadeiro filósofo não é aquele que cria sistemas de idéias, mas aquele que vive de acordo com o seu pensamento, ou seja, aquele que procura ardentemente a verdade, independentemente de agradar ou desagradar aos seus semelhantes.

Sócrates, Platão, Aristóteles e outros pensadores nos ensinaram que a verdade não pode ser contestada, pois no justo momento que a estivermos refutando, seremos refutados por ela. O erro pode proliferar-se por algum tempo, como acontece na parábola do joio e do trigo, contada por Jesus. Contudo, na época da colheita, o trigo é recolhido e o joio descartado. Do mesmo modo é a verdade em relação ao erro: não é por crescer em poder que este se tornará verdadeiro.

A verdade nem sempre está nos fatos, pois estes podem ser manipulados e adquirir as características de verdadeiro. A verdade está na percepção do ser que, através de suas lentes interiores, vai se descobrindo para novas e variadas verdades. Acontece, porém, que nos portamos como "os olhos do morcego durante o dia". A realidade está à nossa frente, com toda a sua exuberância e sabedoria. Como não conseguimos vislumbrá-la na sua totalidade, perdemo-nos nas suas minudências insignificantes.

A verdade – do grego aletheia, formada de alpha (privativo) e lanthano ("escondo") significa o que não está escondido. Como se explica? Dado o nosso livre-arbítrio, podemos escolher o caminho do erro, mas chegará o dia em que deveremos nos voltar para a verdade. Por isso, diz-se que a verdade surpreenderá todo o mundo. É que a lei de ação e reação forma uma espécie de determinismo em nossa existência. O ensinamento de Jesus retrata bem esse pensamento: "Não há nada oculto que não venha à luz". Chegado o momento propício, a verdade inicia a sua marcha e nada poderá detê-la.

A verdade é o ser das coisas. Aristóteles diz-nos que não conhecemos o verdadeiro sem conhecer a causa. Cita o exemplo: o fogo é quente no grau máximo porque é causa do calor nas coisas. Este pensamento de Aristóteles é um verdadeiro antídoto para as ideologias vigentes, pois estas manipulam o verdadeiro e substituem-no pelo considerar verdadeiro. Pergunta-se: quem derrubou a ideologia do marxismo? Não foram outras ideologias, mas a própria coisa e a realidade, ou seja, a verdade do ser.

Olhemos tudo pela essência que lhe é própria. A filosofia nada mais é do que essa busca incessante da verdade, no sentido de melhorarmos a percepção do mundo que nos rodeia.

Fonte:

REALE, Giovanni. O Saber dos Antigos: Terapia para os Dias Atuais. Tradução de Silvana Cobucci Leite. São Paulo: Loyola, 1999.

São Paulo, 18/11/2003

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