09 setembro 2006

Frankenstein e a Lei de Sociedade

À pergunta: "Quem é Frankenstein?", responderíamos que ele é um monstro com passo arrastado, poucas e indistintas palavras, um rosto desmedido e o pescoço ladeado por parafuso. Dado o seu instinto de assassinar as crianças, diríamos que suas ações são contrárias àquelas praticadas pelos seres humanos normais. Com esta noção, temos a impressão de conhecer perfeitamente esta figura "mitológica".

Esta é a imagem que as diversas produções cinematográficas tentam nos passar. Acontece que no livro ele, longe de ser um bronco quase mudo, fala tão e eloquentemente que quase convence o seu criador e o leitor de sua bondade intrínseca, além de ser vegetariano e se vangloriar disso. Eis aí o paradoxo do conhecimento. Temos certeza de que conhecemos, mas estamos raciocinando com uma imagem falsa. É que a imagem do filme, muito mais forte do que o próprio livro, criou um "mito" e nós acabamos convivendo com ele, sem o percebermos.

Para uma avaliação mais correta de quem foi Frankenstein, devemos nos reportar ao seu autor, por sinal uma mulher de 19 anos, Mary Shelley, que escreveu esta peça literária, em 1816, no sentido de atender ao concurso familiar sobre contos fantasmagóricos, sugerido por Byron. Esse trabalho, longe de ser motivo de sensacionalismo, evoca a tradição antiga, a religião e a filosofia. No campo da tradição antiga, cita Ilíada; no campo da religião, fala "aos misteriosos medos de nossa natureza"; no campo da filosofia, evoca as ideias de Locke (tabula rasa), Rousseau (Contrato Social), Descartes (Discurso do Método) etc.

Os discursos da sociedade estão presentes em Frankenstein. Ele representa uma metáfora política, em que na primeira parte de sua existência tenta concluir o contrato com os outros homens; na segunda parte nega, pela violência, o contrato que os outros concluíram e o excluíram. Observa-se assim uma enorme contradição: ele quer se ajustar à sociedade, mas esta o rejeita. Fica no isolamento e na solidão, o que lhe engendra desejo de vingança. Por isso, o assassinato de crianças.

Uma reflexão mais profunda sobre esse mito deveria estimular uma mudança de atitude com relação aos aparentemente excluídos da sociedade. O sangue que corre nas veias do pobre não é da mesma natureza daquele que corre nas veias dos nobres? Por que a atenção dispensada aos ricos e o desprezo aos pobres? Se todos somos filhos de um mesmo Pai, se todos viemos de uma mesma origem, por que essa mania de grandeza com relação aos menos afortunados?

Tenhamos sempre em mente a procura da verdade. Muitas vezes ela se esconde atrás dos fatos. Cabe-nos, pois, revolvê-los se quisermos extrair o suco saboroso do conhecimento superior. 

Fonte de Consulta 

LECERDE, J. J. Frankenstein, Mito e Filosofia. Rio de Janeiro, José Olympio, 1991. 

São Paulo, 25/09/2000

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