16 setembro 2006

Filosofia e o Mundo do Trabalho

O mundo do trabalho é caracterizado pela produção. É um fazer ininterrupto de coisas com o propósito de aumentar o bem-estar da humanidade. Daí o desejo insaciável que nos estimula a consumir cada vez mais. Como somos homo faber antes de sermos homo sapiens, acabamos dando ao trabalho o fim último de nossa existência. No mundo do trabalho, a tecnologia e a economia de escala são requeridas insistentemente, e acabam nos aprisionando cada vez mais a este mundo material. Em muitos casos, a preocupação excessiva com o que comer e com o que vestir leva-nos a um esgotamento nervoso. 

O que diferencia o "útil" do "inútil"? O útil é sempre meio, intermediário. Ele não vale por si mesmo, mas pelo poder de intermediação. Uma cadeira é útil porque foi criada para as pessoas sentarem. Ela não é útil a si mesma, ou seja, ela não se senta nela. A palavra inútil, por sua vez, significa: 1) que não tem fim algum; 2) que tem um fim em si mesmo. Entre as atividades que têm um fim em si mesmo, anotamos a filosofia, a arte e a religião. Todas compreendem uma espécie de gozo metafísico do Espírito.

A filosofia transcende o mundo do trabalho. A filosofia se atém ao "bem comum" enquanto o trabalho à "utilidade comum". O bem comum é muito mais amplo do que a utilidade comum, pois engloba a totalidade do ser. A filosofia, embora inútil, não vive sem o mundo do trabalho. Há uma certa complementaridade entre esses dois conceitos. Santo Tomás de Aquino dissera certa vez que para haver o bem comum há necessidade de haver pessoas que se dediquem à arte do inútil e da contemplação, atividades essas completamente opostas às requeridas pelo mundo do trabalho.

A pseudofilosofia pretende também transcender o mundo do trabalho. Em Platão, Sócrates pergunta ao sofista Protágoras: "Que ensinas aos jovens que se achegam a ti"? E Protágoras responde: "O objeto de meu ensino é a prudência, quer na administração da própria casa, quer no modo de melhor influir na coisa pública, pela palavra ou pela ação". Todas essas pseudo-atitudes não só não transcendem como acabam enclausurando ainda mais as pessoas ao mundo do trabalho. 


Embora o inútil seja uma atividade totalmente livre, muitos acabam sendo condenados a buscá-la. Observe que algumas pessoas, por mais que queiram tratar das coisas materiais, são impulsionadas por uma força superior, a tratar exclusivamente das coisas relacionadas à melhoria do pensamento, sem outro qualquer interesse. No atendimento a esta nobre missão, acabam sendo incompreendidos e desprezados pelos outros seres humanos. Jesus Cristo, por exemplo, foi um desses incompreendidos, que veio nos ensinar a lei do amor e nós o condenamos a morrer na cruz, entre dois ladrões. 

Atendamos fielmente às nossas predisposições interiores. Seguir os apelos da consciência pode nos trazer muitos problemas. Contudo, vejamos a conseqüência de cada ação para a vida futura. Lembremos: Se o homicida soubesse, de antemão, as dores que o futuro lhe reserva, com certeza não praticaria tamanho crime. 

Fonte de Consulta

 

PIEPER, Josef. Que é Filosofar?; Que é Acadêmico? Tradução de Helmuth Alfredo Simon. São Paulo: EPU, 1981.

São Paulo, 12/12/2005

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