16 setembro 2006

Felicidade em Aristóteles

As obras de Aristóteles – Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo e Magna Moralia – são ainda hoje a referência mais importante para quem queira estudar e escrever sobre ética. Tanto na Ética a Nicômaco como na Ética a Eudemo, Aristóteles procura definir e caracterizar o bem. Em ambas surge a noção de que "o bem do homem consiste no bom exercício da atividade humana". E qual é essa atividade? É atividade da alma racional, da razão, atividade esta que é disposta de acordo com a virtude. 

Antes de penetrarmos no tema felicidade, entendamos o significado de virtude: será ela uma paixão? Uma faculdade? Ou uma disposição? Paixão não é, pois o medo e o ódio nunca podem ser considerados virtudes. Faculdade, também não, pois uma faculdade tanto pode ser posta ao serviço do bem quanto do mal. É, na realidade, o resultante duma disposição voluntária. Assim, para Aristóteles, a virtude é um extremo na excelência, mas é uma posição média entre dois vícios, um por excesso e outro por falta.

A felicidade seria o prazer, a diversão, a honra? O que é que caracteriza o bem ou a felicidade? Para Aristóteles, a felicidade é o maior bem do homem e identifica-se com o viver bem e o fazer o bem. Não é prazer, nem diversão e nem mesmo honra. A felicidade estaria centrada no estudo teórico. Somente este tem o condão de proporcionar a felicidade, pois a pessoa que empreende o estudo teórico, empreende-o por conta própria, sem outro móvel que não seja o de estudar e o de continuar a estudar.

Vida feliz pressupõe tempo livre. As pessoas que estão voltadas essencialmente para o sustento físico não podem ser felizes, porque lhes falta o tempo livre e necessário para cuidarem de suas almas e disporem suas ações para os objetivos superiores da existência humana. Às vezes, a sorte ajuda no processo da felicidade, mas a felicidade em si não depende da sorte. A felicidade é um sentimento intrínseco da ação realizada. Não é a influência externa; é o bem que se fundamenta em si mesmo.

De nada adianta buscarmos coisas que estão fora de nós mesmos. Podemos, muitas vezes, agradar aos outros, mas desagradarmos a nós mesmos. Isso deve ser evitado. Observe que no livro Política, Aristóteles disse que a virtude ou as boas ações poderiam ser tanto particulares quanto sociais. Definindo o homem como um animal político, quis dizer que todos os homens devem ser solidários uns com os outros. A solidariedade se realiza na cidade. Para tanto, o interesse social deve vir antes do interesse particular. Surge a questão: podemos ensinar a virtude? Ela é passível de ser aprendida?

A virtude é ensinada pela educação, tornando-se com o tempo um hábito, uma segunda natureza. Essa segunda natureza é uma forma especial de fazer as coisas. E, uma vez adquirido, não se perde jamais. Observe que quando estivermos exercitados numa dada virtude, nada nos fará mudar de atitude. Alguém nos pede para fazermos algo que contrarie a nossa razão e a nossa ética. De imediato, recusamos o pedido. Para os outros pode ser uma ação banal, mas para o exercício da virtude é uma tarefa hercúlea que exige muito esforço da vontade, no sentido de continuarmos sendo o que somos, independentemente da avaliação alheia.

Estudemos os grandes pensadores da humanidade. Sempre poderemos acrescentar algo ao nosso passivo intelectual e moral.

Fonte de Consulta 
 
MARQUES, Ramiro. O Livro das Virtudes de Sempre: Ética para os Professores. Portugal: Landy, 2001.

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