09 setembro 2006

Epicteto e sua Arte de Viver

Epicteto não nos deixou escritos filosóficos. Os pontos principais de sua doutrina foram preservados graças ao historiador Flávio Arriano, um de seus alunos. Arriano transcreveu em grego um número considerável de palestras de seu mestre. Essas palestras, conhecidas como os Discursos (ou Diatribes) foram originalmente reunidas em oito livros, dos quais apenas quatro subsistiram até nossos dias. O Manual de Epicteto (ou Enchiridion) é um conjunto de trechos selecionados dos Discursos que forma um resumo conciso da essência dos ensinamentos de Epicteto.

Epicteto nasceu escravo por volta de 55 d.C., em Hierópolis, Frigia, no extremo oriental do império Romano. Seu mestre foi Epafrodito, o secretário administrativo de Nero. Dado seu talento intelectual, Epafrodito mandou-o a Roma para estudar com o famoso professor estóico Gaio Musônio Rufo. Tornando-se o aluno mais aclamado de Musônio Rufo, acabou sendo libertado da escravidão. Epicteto ensinou em Roma até o ano 94 d.C., quando o imperador Domiciano, ameaçado pela crescente influência dos filósofos, expulsou-o de Roma. Passou o resto de sua vida no exílio em Nicópolis, na costa noroeste da Grécia. Ali fundou uma escola filosófica e passou seus dias fazendo palestras sobre como viver com mais dignidade e tranqüilidade.

A base de seus ensinamentos encontra-se na clara distinção entre aquilo que se pode controlar e aquilo que não se pode. Dizia ele que podemos controlar nossas opiniões, aspirações e desejos e as coisas que nos causam repulsa ou nos desagradam. Fora do nosso controle estão as circunstâncias, as intempéries do tempo e o fato de ter nascido rico ou pobre. Tentar controlar aquilo que não pode ser controlado gera angústia e aflição. Por isso, pede que evitemos assumir as questões dos outros, porque estas tiram-nos ou desviam-nos do nosso caminho.

Anotemos alguns de seus pensamentos: "tudo tem um bom motivo para acontecer"; "aceite os acontecimentos à medida que ocorrem"; "não são os acontecimentos que nos ferem, mas a visão que temos deles"; "nunca dependa da admiração dos outros, mas crie o seu próprio mérito"; "evite adotar os pontos de vistas negativos de outras pessoas, porque eles podem ser contagiosos"; "a busca da sabedoria atrai críticas"; "ao tentarmos agradar outras pessoas, corremos o risco de nos desviarmos para o que está fora de nossa esfera de influência".

Para Epicteto, a meta principal da filosofia é ajudar as pessoas comuns a enfrentar positivamente os desafios cotidianos e as dificuldades da vida. É, comparativamente, um modelo taoísta para o Ocidente, pois sua filosofia identifica-se com a arte de viver. Assim sendo, a filosofia deve responder ao apelo da alma. Pode-se dizer também que a verdadeira filosofia não envolve rituais exóticos, liturgias misteriosas ou crenças originais. É, sim, o amor à sabedoria, a arte de viver.

Embora devamos pensar por nós mesmos, uma reflexão sobre o modo de pensar dos outros, muito contribui para o nosso engrandecimento espiritual. Não importa de onde veio o ensinamento; basta apenas que o coloquemos em prática.

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