24 setembro 2006

Tao e o Vazio

Tao quer dizer caminho, natureza. Esta palavra foi tirada dos ensinamentos de Lao-Tse (que viveu na China provavelmente no séc. VI a.C.), a quem se atribuiu o Tao te Ching , isto é, o livro do caminho e da virtude. Em oposição ao caráter racionalista do ensinamento de Confúcio, Lao-Tse enveredou-se pelo ensinamento místico, religioso e contemplativo, em que a não-resistência assume importância capital. Presentemente, serve de estímulo aos líderes, tanto religiosos como políticos. 

A água, na filosofia taoísta, tem papel relevante. De acordo com Lao-Tse, a água é fluida, flexível e, por isso, adapta-se a qualquer situação, penetra nos poros e faz drenagem na terra. Ela se desloca para os lugares mais baixos, criando assim o símbolo da submissão. Nesse sentido, o homem do Tao deve ser humilde e ocupar o último lugar. Esta maneira de ver o mundo cria uma desordem no homem racional do ocidente, pois este quer, a todo o momento, aparecer nas páginas do jornal, mesmo que seja à custa do crime.

A filosofia taoísta ensina-nos muito sobre a transparência. Pergunta-se: que sensação teríamos se, ao levantarmos pela manhã, todos os que convivem conosco entrassem em contato direto com os nossos pensamentos mais íntimos, e descortinassem o nosso modo de agir? Se todos souberem o que todos pensam seríamos mais honestos para com os nossos semelhantes. Poderíamos facilmente parar de nos preocupar conosco mesmos, pois aceitaríamos naturalmente tanto o fracasso como o êxito. A nossa função seria apenas tomar consciência do que se nos apresenta aqui e agora.

Seguir a força do grupo é outra recomendação do Tao. Nada de querer que as coisas sucedam como desejamos; desejemo-las tais quais são. Para facilitar este trabalho, Lao-Tse recomenda: cortar a lenha na direção do veio, fluir com a correnteza do rio e içar velas ao sabor do vento. Quer dizer, não force para que as coisas aconteçam; espere o momento oportuno. O intrigante é que mesmo nada forçando, tudo se realiza. É daí que emerge a atividade fecunda de um grupo de trabalho, de um grupo de estudo, pois cada participante sente-se responsável pela realização geral.

O Tao prescreve a não formulação de projetos, de planos, nem mesmo da luta entre virtude e vício. Para o taoísmo, o que importa é a surpresa que a vida nos oferece a cada momento. O planejamento meticuloso de tudo o que formos fazer impede-nos de penetrar na essência do Tao. Deixando tudo por conta da natureza, da sabedoria divina, teríamos mais chance de obter o êxito, pois faríamos tudo dentro de um plano superior, que sabe melhor do que nós o que é importante para a nossa evolução espiritual. 

Tomemos consciência do nosso estado mental e emocional. Somente assim construiremos um futuro cheio de paz e harmonia.

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Universo e Filosofia

O Universo é tudo o que existe no espaço infinito: planetas, estrelas, galáxias, seres animados e inanimados, fluidos. A compreensão do universo está intimamente relacionado com a filosofia de vida de cada pessoa. Nesse sentido, quanto mais conhecermos o mundo que nos cerca, mais ampliaremos a nossa concepção de vida. 

Os grandes pensadores da humanidade não se preocuparam muito em explicar se o universo é limitado ou infinito, se é ou não eterno, se teve ou não um começo como Deus. Buda, por exemplo, limitou-se a ensinar o que é a dor e os caminhos para suprimi-la do ser humano. Confúcio dizia que primeiro de tudo deveríamos conhecer os homens e auxiliá-los. Sócrates achava que há uma harmonia incomensurável no universo e, para compreendê-la, basta somente conhecer a nós mesmos. Jesus fala-nos das várias moradas, porém enfatiza-nos a amar ao próximo como a nós mesmos. 

A dádiva do livre-arbítrio muda tudo . Ao invés de assimilarmos as lições desses grandes mestres, insistimos em fazer a nossa caminhada através da dor, cometendo os maiores deslizes com relação às leis naturais. Assim, não somos suficientemente humildes para aceitar o nosso nível de limitação, e, querendo sempre mais, criamos confusões em nossa mente e na daqueles que nos ouvem. Se não prestarmos a atenção, poderemos destruir o Planeta que nos serve de morada, em virtude da maciça alocação de recursos para a construção de armas nucleares. 

Escolhendo um determinado caminho, sempre teremos explicações que o satisfaçam. Assim sendo, aceitando o monismo ou o dualismo, o materialismo ou espiritualismo, o ateísmo ou o panteísmo, encontraremos diversos argumentos que os sustentam. E mesmo que esses argumentos não se aclimatem em nossa consciência, a força intrínseca deles, faz-nos aceitá-los como argumento de razão, de modo que o nosso pensamento se acomoda e ficamos satisfeitos conosco mesmos.

Lembremo-nos de que a tarefa do filosofar é distinguir a filosofia dos filósofos da Filosofia. A Filosofia é um questionar constante, um exercício mental em que estamos sempre procurando a verdade, entendida como um processo ativo e dinâmico de obter novos conhecimentos. A filosofia dos filósofos, por outro lado, é a representação das ideias desses pensadores, seres humanos falíveis como todos nós, e, portanto, sujeitos às limitações de seu próprio pensar. Muitas vezes, enveredando por um determinado fluxo de ideias, os filósofos acabam por criar o dogma, elemento que mais a Filosofia combate. 

Olhemos o Universo sem ideias preconcebidas. Tomemos cada situação, cada encontro, cada conversação como se fosse o acontecimento mais importante naquele momento. Criando este hábito, onde quer que estejamos, estaremos sempre aproveitando melhor a nossa existência.

São Paulo, 27/04/2001
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Platão e Aristóteles

Aristóteles (384-322 a.C.) foi discípulo de Platão (427-347 a.C.), que foi discípulo de Sócrates (470 a 401 a.C.). Eles fazem parte do período clássico da Filosofia grega da Antiguidade. Aristóteles frequentou por 20 anos a Academia de Platão. Enquanto aluno, respeitava o seu mestre, porém divergia muito das suas ideias, afirmando, inclusive, que era amigo de Platão, mas muito mais da verdade. Pergunta-se: no que divergiam?

A divergência entre Platão e Aristóteles estava centrada na construção do conhecimento. Platão – idealista – acreditava que as ideias provinham de um outro mundo, o mundo das essências, denominado topus uranus. Aristóteles – realista – acreditava que as ideias provinham das sensações ou do mundo circundante do aqui e do agora. Aristóteles achava que o ser humano não devia ficar preocupado com a contemplação do mundo das idéias, mas viver intensamente o momento presente. 

A percepção do conhecimento implicava modos diferentes de analisar as questões: Poder-se-ia vê-las pelo lado sensível ou pela contemplação. Tomemos como exemplo a felicidade. Segundo Platão, a felicidade diz respeito a uma vida futura, àquilo que o indivíduo poderia esperar pelo que fez de bom ou de ruim nesta vida; Aristóteles, ao contrário, achava que a felicidade era o bem supremo do homem, pois todo o ser humano que alcançasse o fim pelo qual foi criado atingiria esse estado de felicidade.  

Sobre a relação ensino-aprendizagem. Platão achava que o indivíduo já trazia no seu subconsciente o conhecimento adquirido em outras vidas. Cita Sócrates ensinando matemática ao escravo. As perguntas de Sócrates faziam desabrochar no escravo o conhecimento que já possuía dentro de si mesmo. Para Aristóteles, o conhecimento tem que ser formado no mundo circundante. Ele é como uma tabula rasa que deve encher a sua memória e o seu intelecto de novos conhecimentos.

De acordo com Marcelo Perine, em Quatro Lições sobre a Ética de Aristóteles, "Para Platão, a phronesis (sabedoria), mesmo quando dirige a ação, o faz elevando-se acima de si mesma, isto é, na medida em que é um conhecimento transcendente adquirido na contemplação da Ideia do Bem. A phronesis aristotélica, ao contrário, não é uma ciência contemplativa, mas sabedoria prática que dirige imediatamente a ação pelo conhecimento do singular e dos meios. Porém, essa sabedoria prática é verdadeira e, portanto, normativa, pois conhece universalmente o fim da vida humana, ‘fim que, seguramente, não é o bem-em-si de Platão, mas a contemplação do Deus da Metafísica’". 

Platão descortina-nos a contemplação de uma vida futura; Aristóteles chama-nos a atenção para viver o aqui e o agora. Cabe-nos, assim, fazermos uma síntese das duas concepções para que tenhamos uma vivência plena de sabedoria.


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16 setembro 2006

Taoísmo

taoísmo é uma doutrina filosófica e religiosa fundada por Lao Tse, que viveu na China provavelmente no séc. VI a.C., a quem se atribui o Tao Te Ching, Isto é, o Livro do Caminho e da Virtude. De acordo com o seu monismo panteísta, o Tao é o caminho para a salvação e o princípio eterno do qual procedem todos os fenômenos. Além desse monismo, sobressai, também, a ética do não-fazer, ou seja, a entrega à ação imanente do princípio cósmico e a renúncia em interferir nele ou obstá-lo.

O taoísmo surgiu como oposição ao caráter racionalista, terreno e prático do ensinamento de Confúcio. Contudo, a partir da chegada do Budismo, o taoísmo passa a sofrer de complexo de inferioridade. Por um lado, o confucionismo obriga-o a renegar as práticas ocultas e os deuses populares. Por outro, o budismo submete-o a uma pressão intelectual à qual ele é incapaz de responder. O taoísmo ultrapassou os limites geográficos da China e chegou no ocidente. Nesse mister, Holmes Welch, em 1957, contava 36 traduções inglesas do Tao Te King, enquanto não existia nenhuma crítica completa sobre o taoísmo.

Embora o Tao Te King proclame a supremacia do nada sobre o ser, do vazio sobre o pleno, isso não pode ser interpretado como uma negação da vida. Em sua doutrina prática, traça como objetivo último a salvação da alma ou a imortalidade do ser. Para tanto, há numerosos procedimentos, desde a alimentação frugal até os exercícios de meditação profunda. Para o taoísmo, a imortalidade refere-se à renúncia aos desejos, à posse, ao dinheiro etc. Os seus adeptos devem seguir o fluxo dos acontecimentos, sem forçar para que as coisas aconteçam dessa ou daquela maneira.

O taoísmo instrui, também, sobre a guerra, em que todo o combatente deve estar sujeito ao princípio único, ou seja, deixar que o efeito se produza por si mesmo. Assim, o general não deve atacar frontalmente o inimigo, mas ir lentamente o isolando até que ele se considere vencido. Quer dizer, ir analisando pormenorizadamente o adversário, verificando o seu ponto fraco, de modo que quando o atacar, a vitória será imediata. Em outra ocasião, fala que o general deve levar os seus comandados para uma situação, sem recuo, tal que: ou lutam ou morrem. 

O taoísmo evoca a liderança construtiva. Nesse mister, faz uma alusão à água, pois esta se amolda em qualquer recipiente. Do mesmo modo o líder, ele deve ser flexível e seguir sempre a liderança do grupo, no sentido de beneficiar a tudo e sem querer que as coisas tomem um determinado rumo. O líder deve agir como uma parteira que, depois de ver o nascimento da criança, deixa-a por conta dos seus progenitores. Ele deve auxiliar o processo de crescimento do outro, mas sem se intrometer na sua execução. 

O taoísmo é uma filosofia que estimulou muitos escritores ocidentais. Com sua simplicidade e coerência, abre enormes campos de reflexões, em que podemos fazer comparações entre a racionalidade ocidental e o misticismo oriental.

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Química da Felicidade

A química da felicidade é sentir-se bem, mesmo sem uma boa razão. Por quê? Como sociedade, as nossas responsabilidades com a vida cotidiana tendem a ser negativas, ao invés de positivas. Observe o noticiário da mídia: morte, sequestro e guerra; além destes, a grande inutilidade da maioria programas televisivos; e para completar, os filmes de violência. A Psicologia informa-nos de que o nosso subconsciente registra todas as cenas, quer sejam verdadeiras ou fictícias. Para ele, tudo é verdadeiro. Por isso, o cuidado na escolha do que irá povoar a nossa mente.

Os relacionamentos são o ponto de partida para a nossa felicidade. Há relacionamentos que somos obrigados a suportar, quer sejam bons ou ruins: são os contatos com os nossos familiares. Contudo, há outros que podem ser desfeitos. É o caso, por exemplo, de termos sob nossa supervisão funcionários relapsos, que nos trazem problemas, deixando-nos na mão quando mais deles precisarmos. Estes podem ser substituídos por outros que, além de serem otimistas, acrescentam valor ao produto.

Passamos, a maior parte do nosso tempo, remoendo o passado ou temendo o futuro. É impossível nos libertar de nossa memória, mas se ela estiver atrapalhando o bom desempenho das nossas ações no presente, ela deverá ser revista. Se o remorso de um erro cometido no passado gasta muitas horas do nosso dia, não nos sobra tempo de repará-lo eficientemente. Do mesmo modo é a apreensão sobre o que há de vir. A concentração acaba provocando a ação. Nesse sentido, o provérbio "prepare-se para o pior e espere o melhor" não é verdadeiro. Se nos prepararmos para o pior, o nosso pensamento se concentrará nisso e acabará o atraindo para nós. A regra deve ser: "vivamos intensamente o momento que passa".

Problemas? Dificuldades? Quem não os têm? Qual é a melhor atitude a tomar? Um problema não pode ser colocado debaixo do tapete, como fazemos com o lixo de casa, pois ao avolumar-se, poderemos tropeçar nele e acabar nos machucando. Ele deve ser enfrentado tão logo surja. Mas há problemas e dificuldades que se repetem indefinidamente. Estes, com certeza, devem ser banidos do nosso foco de atenção. Pois aquilo que se perpetua pode ser a influência menos feliz de alguma entidade espiritual ou a nossa imaginação mórbida.

A felicidade requer tempo para meditação e reflexão. É aquele momento sagrado que todo o ser humano deveria reservar para si mesmo. Nesse mister, convém nos retirarmos do mundo exterior e debruçarmo-nos sobre o nosso interior. Seria como Santo Agostinho fazia todas as noites: repassava o dia para ver como fora em pensamentos, palavra e atos. Voltando para dentro de nós mesmos, podemos tomar consciência tanto de nossas fraquezas como de nossas potencialidades. É nesse clima de interioridade que podemos solicitar forças para suplantar as nossas limitações. 

Forjemos a nossa felicidade. Não esperemos circunstâncias exteriores favoráveis. Todo o momento é momento de vivenciá-la, pois ela depende de como estamos interpretando o mundo que nos rodeia.

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Virtude em Aristóteles

Aristóteles, em Ética a Nicômaco, II, 6, diz que a virtude é a disposição adquirida voluntária, em relação a nós, na medida, definida pela razão em conformidade com a conduta de um homem ponderado. Ela ocupa a média entre duas extremidades lastimáveis, uma por excesso, a outra por falta. Enfatiza, também, que, embora consista numa média, em relação ao bem e à perfeição ela se situa no ponto mais elevado. Como pode a virtude ser ao mesmo tempo média e ápice? 

Para entender corretamente o texto filosófico, devemos localizar os termos mais importantes, e suas noções. Assim, virtude (arétè) designa toda excelência própria de uma coisa, em todas as ordens de realidade e em todos os domínios. Aristóteles a emprega assim, embora lhe acrescente o valor moral. Disposição (héxis) é definida como uma maneira de ser adquirida. O latim traduziu héxis por habitus. A virtude só será habitus se se retirar desse termo o caráter de disposição permanente e costumeira, mecânica, automática. Mediedade (mésotès): este termo remete tanto ao termo médio de um silogismo quanto à média (ou ao meio termo) que caracteriza a virtude. 

Como, pois, entender que virtude é média e ápice? Aristóteles parte de um conceito geral e delimita-o depois. Diz, primeiramente, que a virtude é agir de forma deliberada; depois, fala em agir em prol do mais alto bem. Ao falar dela como héxis, enfatiza uma capacidade adquirida, constante e duradoura, o que elimina a pretensa qualidade inata. Assim, ao se comportar moralmente, o homem deve também se comportar racionalmente, ou seja, uma razão que já passou pela prova dos fatos; a mediedade, diz ele, é a que o homem prudente determinaria. E determinaria em função dos homens superiores a ele. Por isso é oportuno aconselhá-los a imitarem os melhores.

A mediedade opõe-se a dois vícios simétricos. Como estamos no campo da moral, o que vale não são as idéias, mas a prática dessas idéias. Perguntaríamos: quais são essas práticas que não são virtudes? Os vícios. Explicação: a natureza moral jamais é natural, e sim o resultado de uma maneira de ser adquirida – para mais ou para menos –, o que representa sempre um excesso. Por exemplo, a coragem é virtude delimitada por essa falta que é a covardia e esse excesso que é a temeridade. A virtude revela-se portanto como um meio termo.

A virtude não é média, ela é a média justa. Saímos do âmbito quantitativo onde tudo é colocado no mesmo plano e passemos ao âmbito qualitativo. Observe que tanto nas paixões como nas ações, há condutas que estão abaixo ou acima do que convém. A virtude não é assim uma média aritmética dos excessos para mais ou para menos, ela é o vértice de eminência, ou seja, é ela quem diz qual é o vício para cima ou para baixo. O óbolo da viúva, de que nos lembra o Evangelho, vem a calhar: a viúva que deu apenas uma moeda, deu mais do que o rico, pois enquanto este deu o que lhe sobrava, para ela a quantia representava uma privação.


Esta reflexão sobre a virtude em Aristóteles serviu-nos para melhor apreciar os termos que usamos constantemente. Devemos, assim, lembrar que a virtude é sempre uma disposição a ser adquirida na prática do bem. Ou seja, há sempre algo a melhorar.

Fonte de Consulta

FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica. Tradução de Paulo Neves. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2002. (Ferramentas) 

São Paulo, 09/08/2002
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Filosofia e o Mundo do Trabalho

O mundo do trabalho é caracterizado pela produção. É um fazer ininterrupto de coisas com o propósito de aumentar o bem-estar da humanidade. Daí o desejo insaciável que nos estimula a consumir cada vez mais. Como somos homo faber antes de sermos homo sapiens, acabamos dando ao trabalho o fim último de nossa existência. No mundo do trabalho, a tecnologia e a economia de escala são requeridas insistentemente, e acabam nos aprisionando cada vez mais a este mundo material. Em muitos casos, a preocupação excessiva com o que comer e com o que vestir leva-nos a um esgotamento nervoso. 

O que diferencia o "útil" do "inútil"? O útil é sempre meio, intermediário. Ele não vale por si mesmo, mas pelo poder de intermediação. Uma cadeira é útil porque foi criada para as pessoas sentarem. Ela não é útil a si mesma, ou seja, ela não se senta nela. A palavra inútil, por sua vez, significa: 1) que não tem fim algum; 2) que tem um fim em si mesmo. Entre as atividades que têm um fim em si mesmo, anotamos a filosofia, a arte e a religião. Todas compreendem uma espécie de gozo metafísico do Espírito.

A filosofia transcende o mundo do trabalho. A filosofia se atém ao "bem comum" enquanto o trabalho à "utilidade comum". O bem comum é muito mais amplo do que a utilidade comum, pois engloba a totalidade do ser. A filosofia, embora inútil, não vive sem o mundo do trabalho. Há uma certa complementaridade entre esses dois conceitos. Santo Tomás de Aquino dissera certa vez que para haver o bem comum há necessidade de haver pessoas que se dediquem à arte do inútil e da contemplação, atividades essas completamente opostas às requeridas pelo mundo do trabalho.

A pseudofilosofia pretende também transcender o mundo do trabalho. Em Platão, Sócrates pergunta ao sofista Protágoras: "Que ensinas aos jovens que se achegam a ti"? E Protágoras responde: "O objeto de meu ensino é a prudência, quer na administração da própria casa, quer no modo de melhor influir na coisa pública, pela palavra ou pela ação". Todas essas pseudo-atitudes não só não transcendem como acabam enclausurando ainda mais as pessoas ao mundo do trabalho. 


Embora o inútil seja uma atividade totalmente livre, muitos acabam sendo condenados a buscá-la. Observe que algumas pessoas, por mais que queiram tratar das coisas materiais, são impulsionadas por uma força superior, a tratar exclusivamente das coisas relacionadas à melhoria do pensamento, sem outro qualquer interesse. No atendimento a esta nobre missão, acabam sendo incompreendidos e desprezados pelos outros seres humanos. Jesus Cristo, por exemplo, foi um desses incompreendidos, que veio nos ensinar a lei do amor e nós o condenamos a morrer na cruz, entre dois ladrões. 

Atendamos fielmente às nossas predisposições interiores. Seguir os apelos da consciência pode nos trazer muitos problemas. Contudo, vejamos a conseqüência de cada ação para a vida futura. Lembremos: Se o homicida soubesse, de antemão, as dores que o futuro lhe reserva, com certeza não praticaria tamanho crime. 

Fonte de Consulta

 

PIEPER, Josef. Que é Filosofar?; Que é Acadêmico? Tradução de Helmuth Alfredo Simon. São Paulo: EPU, 1981.

São Paulo, 12/12/2005

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Felicidade em Aristóteles

As obras de Aristóteles – Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo e Magna Moralia – são ainda hoje a referência mais importante para quem queira estudar e escrever sobre ética. Tanto na Ética a Nicômaco como na Ética a Eudemo, Aristóteles procura definir e caracterizar o bem. Em ambas surge a noção de que "o bem do homem consiste no bom exercício da atividade humana". E qual é essa atividade? É atividade da alma racional, da razão, atividade esta que é disposta de acordo com a virtude. 

Antes de penetrarmos no tema felicidade, entendamos o significado de virtude: será ela uma paixão? Uma faculdade? Ou uma disposição? Paixão não é, pois o medo e o ódio nunca podem ser considerados virtudes. Faculdade, também não, pois uma faculdade tanto pode ser posta ao serviço do bem quanto do mal. É, na realidade, o resultante duma disposição voluntária. Assim, para Aristóteles, a virtude é um extremo na excelência, mas é uma posição média entre dois vícios, um por excesso e outro por falta.

A felicidade seria o prazer, a diversão, a honra? O que é que caracteriza o bem ou a felicidade? Para Aristóteles, a felicidade é o maior bem do homem e identifica-se com o viver bem e o fazer o bem. Não é prazer, nem diversão e nem mesmo honra. A felicidade estaria centrada no estudo teórico. Somente este tem o condão de proporcionar a felicidade, pois a pessoa que empreende o estudo teórico, empreende-o por conta própria, sem outro móvel que não seja o de estudar e o de continuar a estudar.

Vida feliz pressupõe tempo livre. As pessoas que estão voltadas essencialmente para o sustento físico não podem ser felizes, porque lhes falta o tempo livre e necessário para cuidarem de suas almas e disporem suas ações para os objetivos superiores da existência humana. Às vezes, a sorte ajuda no processo da felicidade, mas a felicidade em si não depende da sorte. A felicidade é um sentimento intrínseco da ação realizada. Não é a influência externa; é o bem que se fundamenta em si mesmo.

De nada adianta buscarmos coisas que estão fora de nós mesmos. Podemos, muitas vezes, agradar aos outros, mas desagradarmos a nós mesmos. Isso deve ser evitado. Observe que no livro Política, Aristóteles disse que a virtude ou as boas ações poderiam ser tanto particulares quanto sociais. Definindo o homem como um animal político, quis dizer que todos os homens devem ser solidários uns com os outros. A solidariedade se realiza na cidade. Para tanto, o interesse social deve vir antes do interesse particular. Surge a questão: podemos ensinar a virtude? Ela é passível de ser aprendida?

A virtude é ensinada pela educação, tornando-se com o tempo um hábito, uma segunda natureza. Essa segunda natureza é uma forma especial de fazer as coisas. E, uma vez adquirido, não se perde jamais. Observe que quando estivermos exercitados numa dada virtude, nada nos fará mudar de atitude. Alguém nos pede para fazermos algo que contrarie a nossa razão e a nossa ética. De imediato, recusamos o pedido. Para os outros pode ser uma ação banal, mas para o exercício da virtude é uma tarefa hercúlea que exige muito esforço da vontade, no sentido de continuarmos sendo o que somos, independentemente da avaliação alheia.

Estudemos os grandes pensadores da humanidade. Sempre poderemos acrescentar algo ao nosso passivo intelectual e moral.

Fonte de Consulta 
 
MARQUES, Ramiro. O Livro das Virtudes de Sempre: Ética para os Professores. Portugal: Landy, 2001.
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13 setembro 2006

Pensamento e Autodeteminação

Pensamento é a sequência de representações e conceitos. Não pertence ao tempo nem ao espaço. São generalizações que permanecem virtualizadas em nossa mente. O ato de pensar, como ato, é sempre novo, ou seja, é a atualização temporal e espacial do conceito. Exemplo: o círculo, como conceito, é sempre o mesmo. Ao pensarmos uma, duas, três ... ene vezes sobre essa figura, cada uma delas será, para nós, sempre nova. Este é o sentido da evolução criadora de Bergson. Para ele, todo o momento é criativo, porque nunca o vivenciamos anteriormente.

Há várias maneiras de pensar. A científica caracteriza-se pela disciplina e seriedade. É aquela em que o indivíduo conduz seus pensamentos de forma rigorosa, impedindo que a indisposição, a imaginação e a contrariedade obstruam o caminho que leva ao fim colimado. O verdadeiro cientista não mede esforços para observar os elementos dados, como, também, o de deduzir logicamente sobre os elementos não dados. A busca das causas é o móvel de suas perquirições.

Apesar dos cuidados, há os perigos da ciência, principalmente daqueles cientistas que opinam sobre assuntos alheios à sua especialidade. É o caso do médico que, depois de dissecar o cérebro do homem, concluiu que este não tinha consciência, porque nada encontrara. Além disso, devemos considerar que a ciência é elaborada de acordo com as evidências empíricas dos prováveis. Portanto, se uma nova descoberta surgir, devemos renunciar à teoria anterior.

A autodeterminação expressa a essência do ser. É o poder que temos de atualizar nossas virtualidades. O pensamento científico auxilia, mas são os aspectos psicológicos, ideológicos, religiosos e filosóficos que emprestam o maior peso à nossa deliberação na vida. As virtualidades podem ser ativas e passivas. Se ativas, já estão determinadas de uma forma; se inativas, sabemos que estão em ato sob uma forma, mas que podem ser assumidas de outra forma, isto é, que são especificamente diferentes do que podem ser.

O autodidatismo - aquele que ensina a si mesmo - ajuda-nos a compreender este tema. Logicamente, não estamos nos referindo à radicalidade do termo, pois, sem crítica, podemos nos enveredar para os erros de concepção. Queremos, sim, salientar os inauditos esforços na construção do conhecimento, especialmente, daqueles mentes privilegiadas, que amadureceram seus espíritos à luz das constantes pesquisas e das graves reflexões.

Pensemos, ponderemos e confiemos nas virtualidades de nosso ser. Talvez não percebamos de pronto, mas cada um de nós se converterá naquilo pelo qual se troca. 

Fonte de Consulta 

BOCHENSKI, J. M. Diretrizes do Pensamento Filosófico. 5. ed., São Paulo, EPU, 1973.
SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.

São Paulo, 04/08/1995
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Pôr Ordem nos Pensamentos

Um tema, embora confuso na sua origem, deve ser apresentado de forma ordenada. O orador, ou o escritor deve constantemente cuidar para engatar o vagão de seu pensamento ao de seus ouvintes. Pôr ordem nos pensamentos exige um esforço de se ter uma tese, os silogismos que daí dimanam e uma conclusão. Em outros termos, anunciar o tema, desenvolvê-lo logicamente, para depois concluir com mestria. 

Por que devemos definir os termos? A definição mostra que o orador ou escritor está preocupado com o real significado das palavras usadas. Definir não é uma artimanha intelectual, como muitos pensam, mas um senso de responsabilidade para com aqueles que estão na outra ponta do texto ou do discurso. Às vezes, queremos falar de modo empolado, como por exemplo, a “laicidade é um princípio democrático”. Mas o que significa laicidade? Será que o sabemos? E as pessoas que nos estão escutando?

A origem do conhecimento é universal, confuso, o que não quer dizer misturado. Todos temos uma ideia geral de Deus, do Universo, do homem e da planta. Para compreendermos melhor estes termos, saibamos dividi-los, ou seja, partamos sempre da ideia geral para as particulares, para os detalhes. Este princípio da aprendizagem implica outro princípio, que é o do passar do conhecido para o desconhecido. O conhecido é o geral; o desconhecido, o detalhe.

A opinião revela certa preguiça mental. Quando nos colocam um texto difícil ou com o qual não nos simpatizamos, imediatamente o deixamos de lado e vamos ao encontro de outras leituras mais acessíveis. A opinião, na maioria das vezes, representa apenas o nosso modo de pensar sobre uma coisa e não a coisa em si. Não nos expressamos de acordo como a coisa é, mas sim de acordo com aquilo que julgamos ser, com aquilo que só tem valor para nós. Não nos rendamos a esse modo de pensar, porque esse procedimento de maneira alguma nos conduzirá à descoberta da verdade.

De que vale assistir à TV, ler um artigo de jornal, um texto literário e não reter nada do que viu ou ouviu? Não será perda de tempo? Para obtermos as informações úteis e necessárias, convém observamos tudo de forma bem ampla, ou seja, extrair do momento presente tudo o que ele possa nos fornecer. Caso estejamos cansados, procuremos um outro tipo de atividade, especialmente aquela que nos distraia. Contudo, o esforço maior deve ser alocado para a obtenção de conhecimento, pois a vida é breve e deveremos prestar contas das horas que passam. 

No exercício de pensar, escrever e falar há sempre novas técnicas a serem aprendidas. Tenhamos a coragem de procurá-las, absorvê-las e colocá-las em prática em nosso dia-a-dia.


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Aristóteles


Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira, colônia greco-jônia, na península macedônica da Calcídia. Filho de Nicômaco, médico. Ainda criança, ficou órfão de pai e mãe. Quando contava 18 anos (367 a.C.) mudou-se para Atenas, o centro intelectual por excelência, e aí estudou 20 anos sob a orientação de Platão. Aos 50 anos de idade, abriu uma escola denominada de liceu, pela proximidade do tempo de Apolo Liceio. Foi tutor de Alexandre, o Grande. Anos depois, assim como Sócrates, foi acusado e condenado, mas fugiu para não permitir que Atenas pecasse duas vezes por causa da Filosofia. Os seus alunos chamavam-se Peripatéticos, quer porque tinham o costume de passear pelo jardim enquanto estudavam, quer porque o local fosse conhecido por Passeio (Peripatos).

A enciclopédia aristotélica distingue-se em quatro grupos: 1.º, os escritos e as doutrinas lógicas que servem de introdução geral a todo o sistema; 2.º, Filosofia especulativa, cujo fim é o verdadeiro supremo; 3.º, a Filosofia prática, cujo fim é a ação; a Filosofia criativa ou poética, cujo objeto é o produto artístico. A Filosofia especulativa compreende a Filosofia primeira, a Matemática e a Física; a Filosofia pratica distingue-se em Ética econômica e política; a Filosofia poética considera a arte e as formas específicas da Poesia e da Retórica.

O ponto básico da filosofia de Aristóteles é a sua divergência com relação à "Teoria das Ideias" de Platão. Ambos são realistas, mas Platão vê o seu realismo na "Teoria da Ideias", no mundo perfeito e imutável, no mundo das formas. Para Platão, o conceito já existe. O que temos que fazer é rememorá-lo. Aristóteles acha que o real é o sensível e que o conceito se forma pela abstração. Uma pessoa tem a forma de uma cadeira, outra pessoa tem outra forma de cadeira e uma terceira pessoa tem uma terceira forma de cadeira. Aristóteles pega todas as formas de cadeira, retira as diferenças e mantém o que é igual, formando o conceito cadeira, através de uma operação mental.

Platão estabeleceu os princípios da filosofia idealista, em que havia uma superioridade da razão. Com Aristóteles, o foco da atenção transfere-se para a experiência. Embora aluno de Platão, deste discordava fundamentalmente, chegando a ponto de dizer que ele era amigo de Platão, mas muito mais da verdade. O gênio de Aristóteles é, acima de tudo, ordenador, lógico. Uma de suas grandes ideias é a de classificação que permite agrupar os seres de acordo com suas semelhanças ou diferenças. Também se deve a ele a criação da lógica como disciplina própria.

O realismo aristotélico pode ser agrupado nos seguintes itens: crítica a Platão, a origem da filosofia, o princípio de identidade, as causas do ser, o ser como substância, o acidente, o movimento, Deus e sua natureza, a ordem e eternidade dos movimentos naturais, o homem como animal político e a virtude como justa medida. Este realismo dominou absolutamente a Idade Média, principalmente no período da Escolástica, e mais precisamente com Santo Agostinho. O uso exagerado do silogismo é uma prova cabal desse predomínio.

De acordo com Ramiro Marques, em O Livro das Virtudes de Sempre: Ética para Professores, Aristóteles constitui ainda hoje a referência mais importante para quem queira estudar e escrever sobre ética. Esses ensinamentos estão catalogados em suas três grandes obras: Ética a Nicômaco,Ética a Eutidemo e Magna Moralia. Magna Moralia, também conhecida por Grande Moral ou Grandes Livros de Ética, embora pouco editada e pouco conhecida, é uma obra de grande qualidade, pois complementa e aprofunda o que Aristóteles escreveu nas outras éticas.

Na ética de Aristóteles, a virtude está no meio. Você não deve estar mais à esquerda ou mais à direita. Literalmente, a frase está correta. A sua interpretação, porém, deixa a desejar. Devemos vê-la como o termo médio de uma polêmica e não simplesmente a virtude está no meio. A virtude deve ser construida conforme a discussão for tomando corpo, isto é, passando de um extremo ao outro. Esta noção de ética dá direção à sua política. Diferente de Sócrates e Platão, que é da polis, de Atenas, Aristóteles é o filósofo do Império, do Império de Alexandre, o Grande. 

Somos o arcabouço de toda a história da humanidade. Às vezes parecemo-nos originais, mas uma acurada pesquisa mostra que a essência do que sabemos já fora veiculado pelos grandes pensadores da humanidade.
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10 setembro 2006

O Ser e o Fazer


O que é o ser? O que somos no momento atual? Estamos fazendo do "fazer" uma rotina ou uma atividade refletida? As nossas ações são consequências de nossa vontade ou da vontade alheia? Até que ponto aquilo que consideramos útil é realmente útil? Agimos de conformidade com o conceito ou com o preconceito? Vemos somente a linha ou conseguimos vislumbrar as entrelinhas? Além do texto, observamos o contexto?

O "ser" de uma forma geral evade-se do "real". Ora pela fabulação e ora pela rotina. Pela fabulação, cria um mundo mágico, de fantasias e sente-se seguro nessas elucubrações. Pela rotina, age de conformidade com os clichês automatizados, sem perspectiva de inovação. Exemplo: todos os dias fazemos um trajeto para nos dirigirmos ao local do trabalho. A maioria de nós só muda esse trajeto quando acontece um desastre ou um congestionamento muito intenso, inviabilizando o prosseguimento no mesmo caminho, caso contrário continuaríamos por ele.

Para "sermos" e "fazermos" precisamos adquirir não só o direito de liberdade como também o dever de liberdade. Ouvimos constantemente a frase: "Todos têm direito à liberdade". Mas qual o significado de liberdade? Seria agir de conformidade com a consciência de cada um? Se assim for, estamos cuidando da formação de nossa consciência? Nota-se que a formação de uma consciência implica ter responsabilidade, portanto, ter conhecimento e o conhecimento dá-nos a dimensão exata de nosso dever perante o próximo e para conosco mesmos.

A liberdade, dentro de uma perspectiva ampla e profunda, não é tão simples quanto à primeira vista parece. Compreendamos que ela deve ser "construída" em cada um de nós. Significa dizer que formar a liberdade é estruturar a nossa personalidade, atuando de forma mais consciente no meio em que estivermos inseridos. "Ter bom senso é fastidioso" já nos dizia Bergson, pois preferimos viver na aparente segurança da mentira à envidar esforços para compreendermos a verdade.

À medida que avançamos nos estudos, tomamos consciência de nossa pequenez ante o infinito, mas ao mesmo tempo adquirirmos confiança que o conhecimento absorvido pode, através de nossas ações, acender uma luz de pirilampo na mente daqueles que estão circunstancialmente no caminho conosco.

São Paulo, 24/07/1993
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Filosofia e Religião

A Filosofia, por sua própria estrutura verbal — junção das palavras gregas philos e sophia —, que significam "amor à sabedoria", é um apelo ao uso do "logos", da razão. A Religião, pelo seu caráter místico, é um apelo à fé. Como conciliar razão e fé, razão e Deus, razão e crença é o trabalho árduo que muitos pensadores empreenderam ao longo do processo da evolução humana.

A filosofia, tal qual surgiu na Grécia, mostra uma nova maneira de construir o conhecimento, distanciando-o do processo mitológico vigente até então. Partindo da dúvida, da crítica, do paradoxo, quer chegar à verdade das coisas. Em termos religiosos, Sócrates fala-nos do seu "daimon", uma espécie de guia protetor, Platão desenvolve a Teoria da Formas, em que a essência das coisas estaria num outro mundo e Aristóteles instrui-nos sobre o Motor Imóvel, o Criador do universo. 

Como a religião cristã faz o anelo com a filosofia grega? De três maneiras: 1) como a morte de Sócrates foi vista como um martírio, a Igreja cristã julgou-o quase como um cristão pré-cristianismo; 2) os cristãos primitivos, tomando o demiurgo ou "Logos" (o "Verbo") platônico, por meio do qual o mundo é criado e as formas ideais são infundidas ao cosmo em permanente mudança, associaram-no a Jesus, o Verbo (ou "Logos") de Deus"; 3) como Aristóteles acreditava num "Motor Imóvel" (ou "Primeiro Motor"), um ser remoto e imutável que transmite ao mundo a mudança, a Igreja cristã veio a adotar o Motor Imóvel de Aristóteles como Deus cristão. 

Enquanto os cristãos apoiam-se na filosofia grega, as descobertas científicas levam muitos pensadores à negação de Deus e da religião. Assim, para Feuerbach (1804-1872), a religião baseia-se na dependência. Os seres humanos sentem-se impotentes num mundo estranho e por isso precisaram inventar Deus para confortá-los. Para Karl Marx (1818-1883), a religião é o "ópio do povo", algo que trazia uma ilusão de felicidade, mas nenhuma felicidade real, e que levava as pessoas a se concentrar na próxima vida e não nesta. Para Sigmund Freud (1856-1939), a religião é o complexo de Édipo da humanidade, uma ilusão, uma espécie de "neurose obsessiva mundial" cuja origem está nos "tabus", nas proibições.

Posteriormente a esses pensadores ateístas, surgem outros que dão primazia à existência de Deus. Entre eles, citamos Albert Einstein e Kant.Albert Einstein (1879-1955) confessou que era "um homem profundamente religioso". Para ele, o sentimento religioso era "um conhecimento da existência de alguma coisa que não podemos devassar, das manifestações da razão mais profunda e da mais radiante beleza, que só são acessíveis à nossa razão em sua forma mais elementar". Immanuel Kant (1724-1804), embora dando prioridade à filosofia, insistia que a religião tem de estar contida nos limites da razão. Ele escreveu: "É absolutamente necessário estar convencido da existência de Deus; não é igualmente necessário demonstrá-la".

À filosofia e à religião devemos acrescentar a ciência, pois esta é tríade pela qual o pensamento humano deve enveredar para descobrir as verdades que se escondem por detrás dos fatos. 

Fonte de Consulta 

RAEPER, W. e SMITH, L. Introdução ao Estudo das Idéias: Religião e Filosofia no passado e no presente. São Paulo, Loyola, 1997. 

São Paulo, 05/05/2001
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09 setembro 2006

Mudança Comportamental

A cada momento do dia estamos sujeitos a inúmeros focos de irritação: é o vizinho que faz barulho até altas horas da noite; o colega de trabalho que vai à reunião e não desliga o seu celular; a pessoa que nos pede algo emprestado e nunca mais devolve. Como convivemos com essas situações? Estamos sempre estressados ou não ligamos para esses acontecimentos? 

Comportamento. “Porto”, em latim, significa levar. Em português passou a forma reflexiva: portar-se. O prefixo “com” denota um modo global de levar-se, portar-se. É o conjunto organizado das operações selecionadas em função das informações recebidas do ambiente através das quais o indivíduo integra as suas tendências. Em sentido mais geral designa a mudança, o movimento ou a reação de qualquer entidade ou sistema em relação a seu ambiente ou situação. Mudar significa tornar-se diferente do que era, física e moralmente. 

As nossas encarnações passadas constituem o nosso passivo espiritual. É aí que estão registrados os nossos hábitos e automatismos, tanto para bem como para mal. A cada nova encarnação o Espírito utiliza-se desses dados para se expressar. A isso denominamos tendência, ou seja, as disposições de cada um de nós frente a vida. Pavlov, ao estudar os reflexos, denominou-os de reflexo inato e reflexo condicionado. Por reflexo inato entende-se uma resposta espontânea da espécie; por reflexo condicionado, uma resposta adquirida.

As nossas tendências podem dirigir-se para o vício ou para a virtude. É sumamente importante refletir sobre elas, ou seja, tomarmos consciência do nosso pensar, do nosso sentir e do nosso agir. Assim procedendo, vamos nos conhecendo melhor e observando a nossa própria conduta no seio da sociedade. É o que fazia Santo Agostinho, quando se avizinhava o sono noturno: repassava o seu dia para verificar como fora em pensamento, palavras e atos, no sentido de perceber algum mal que tivesse praticado em relação ao seu próximo.

A mudança do comportamento, mais especificamente o vicioso, não é tarefa fácil. Por que? É que todo o esforço para vencer os condicionamentos acabam por formar novos condicionamentos. Observe o indivíduo que quer parar de fumar. Para isso, ele começa a chupar bala; depois, não consegue para de chupar bala. Além do mais, a mudança exige um esforço hercúleo para não violentar o nosso eu. É que influenciado pelo que nos falam, não percebemos que o que importa é o crescimento do Espírito, as qualidades intrínsecas que vamos lhes acrescentando, o que naturalmente irá expulsar os vícios, pois eles não mais farão parte de nossos automatismos. 

Empenhemo-nos na autoconsciência. Quem sabe se essa busca de nós mesmos não seja o principal estímulo de nossa evolução espiritual, das mudanças para o bem que o nosso Espírito imortal almeja? 

São Paulo, 20/03/2002

Complemento

Os hábitos adquiridos ao longo do tempo funcionam como uma segunda natureza. A maneira de se portar de cada um revela as suas tendências, os seus gostos, o seu nível de conhecimento, a sua auto-imagem. Uma vez sedimentado, o hábito torna-se difícil de ser modificado. Contudo, mudar significa tornar-se diferente do que era, física e moralmente. 

A auto-imagem: se não gosta de si mesmo, quem gostará? Nesse sentido, qualquer pessoa pode criar o hábito de pensar de si próprio como cidadão digno, construtivo, que tem objetivos próprios para cada dia da vida. Pode fazer planos para o futuro. Pode, também, deixar de beber, de fumar, de comer demasiadamente. 

Peter J. Steincrohn, no livro Como Deixar de Matar-se a Si Próprio, diz: "Eis um truque proveitoso para o fumante inveterado. Reconhecer que, para grande maioria, o fumar é ação reflexa. A maneira mais fácil de se abolir um hábito é substituí-lo por outro." Por exemplo, quando tiver vontade de fumar, chupe uma bala.

MALTZ, Maxwell. Psicologia da Auto-Imagem: Viva Melhor e Mais Feliz com você Mesmo. Tradução E. Jacy Monteiro. São Paulo: Bestesseler, 1966. 
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Involuído e Evolvido

Pietro Ubaldi, filósofo italiano, escreveu diversos livros de cunho espiritual. Dentre as suas obras, a que mais se destacou foi a Grande Síntese. A linha mestra do seu pensamento baseia-se na oposição entre o homem involuído e o homem evolvido. Tencionamos, nessas linhas que se seguem, fazer uma reflexão sobre essa dinâmica do pensamento humano no sentido de extrair subsídios para uma mudança comportamental.

O par de termo involuído/evolvido nos dá idéia da dimensão espiritual do ser humano. O involuído caracteriza o homem ainda envolto com o mal, com o ódio e com a guerra. O evolvido especifica o homem no esforço da grande batalha, que é a prática do bem, do amor e da justiça. Essa dicotomia é importante, porque não podemos ficar no meio termo: somos justos ou não somos. É a questão da formação do caráter que nos diz que devemos agir sempre da mesma maneira nas mesmas circunstâncias.

O involuído está preso ao mal. Procura através da força, da guerra eliminar o mal que lhe tenham causado. Na realidade combate um mal com outro maior. Observe o Estado aplicando a pena de morte naquelas pessoas que cometeram crimes hediondos. Isso não leva a nada, pois a consequência é um nível maior de violência, visto que o fogo não se apaga com mais fogo, mas com água. O perdão é o único elemento que verdadeiramente elimina o mal. Sem ele, a humanidade está moralmente perdida.

Por que o perdão é o elemento fundamental da evolução do ser humano? Raciocinemos em termos da lei natural. De acordo com as instruções dos Espíritos superiores, a lei natural está gravada na consciência de cada um dos seres humanos. Ora, nós não precisamos usar a força contra aquele que nos causou dano, quer seja material ou moral; basta deixarmos tudo por contar dessa lei natural, que ela se encarregará de aplicar a justiça. O perdão não é apanágio das almas fracas; é a força dos grandes homens que acreditam em Deus e na sua justiça através do cumprimento de seus mandamentos.

A libertação do Espírito deve se basear na prática das virtudes. De nada adianta, após termos sofrido um mal, agravá-lo ainda mais com o nosso destempero emocional. É factível pensar que, se estamos encarnados neste mundo de provas e expiações, não somos seres angelicais. Contudo, nada nos impede de envidar todos os esforços possíveis para colocar em prática os estímulos amorosos enviados pelos nossos benfeitores espirituais. Basta apenas que tenhamos olhos de ver e ouvidos de ouvir, tal como nos orienta a mensagem evangélica de Jesus. 

Por pior a situação em que nos encontramos, devemos sempre serenar o nosso pensamento. Lembremo-nos de que as coisas nunca são como a nossa imaginação as pinta. É preciso muito tato para que, depois de ter feito a vontade de Deus, aceitar as injunções do destino.

 São Paulo, 12/02/2003
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Frankenstein e a Lei de Sociedade

À pergunta: "Quem é Frankenstein?", responderíamos que ele é um monstro com passo arrastado, poucas e indistintas palavras, um rosto desmedido e o pescoço ladeado por parafuso. Dado o seu instinto de assassinar as crianças, diríamos que suas ações são contrárias àquelas praticadas pelos seres humanos normais. Com esta noção, temos a impressão de conhecer perfeitamente esta figura "mitológica".

Esta é a imagem que as diversas produções cinematográficas tentam nos passar. Acontece que no livro ele, longe de ser um bronco quase mudo, fala tão e eloquentemente que quase convence o seu criador e o leitor de sua bondade intrínseca, além de ser vegetariano e se vangloriar disso. Eis aí o paradoxo do conhecimento. Temos certeza de que conhecemos, mas estamos raciocinando com uma imagem falsa. É que a imagem do filme, muito mais forte do que o próprio livro, criou um "mito" e nós acabamos convivendo com ele, sem o percebermos.

Para uma avaliação mais correta de quem foi Frankenstein, devemos nos reportar ao seu autor, por sinal uma mulher de 19 anos, Mary Shelley, que escreveu esta peça literária, em 1816, no sentido de atender ao concurso familiar sobre contos fantasmagóricos, sugerido por Byron. Esse trabalho, longe de ser motivo de sensacionalismo, evoca a tradição antiga, a religião e a filosofia. No campo da tradição antiga, cita Ilíada; no campo da religião, fala "aos misteriosos medos de nossa natureza"; no campo da filosofia, evoca as ideias de Locke (tabula rasa), Rousseau (Contrato Social), Descartes (Discurso do Método) etc.

Os discursos da sociedade estão presentes em Frankenstein. Ele representa uma metáfora política, em que na primeira parte de sua existência tenta concluir o contrato com os outros homens; na segunda parte nega, pela violência, o contrato que os outros concluíram e o excluíram. Observa-se assim uma enorme contradição: ele quer se ajustar à sociedade, mas esta o rejeita. Fica no isolamento e na solidão, o que lhe engendra desejo de vingança. Por isso, o assassinato de crianças.

Uma reflexão mais profunda sobre esse mito deveria estimular uma mudança de atitude com relação aos aparentemente excluídos da sociedade. O sangue que corre nas veias do pobre não é da mesma natureza daquele que corre nas veias dos nobres? Por que a atenção dispensada aos ricos e o desprezo aos pobres? Se todos somos filhos de um mesmo Pai, se todos viemos de uma mesma origem, por que essa mania de grandeza com relação aos menos afortunados?

Tenhamos sempre em mente a procura da verdade. Muitas vezes ela se esconde atrás dos fatos. Cabe-nos, pois, revolvê-los se quisermos extrair o suco saboroso do conhecimento superior. 

Fonte de Consulta 

LECERDE, J. J. Frankenstein, Mito e Filosofia. Rio de Janeiro, José Olympio, 1991. 

São Paulo, 25/09/2000
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Sócrates: Posições Filosóficas

Sócrates (470 a 401 a.C) afirmava que o conhecimento é a chave de todos os demais problemas. Interessou-se especialmente por descobrir um método para alcançar o verdadeiro conhecimento, distinto de simples opiniões. O método que desenvolveu consistia em eliminar, primeiramente, as noções falsas e depois proceder a minuciosas observações e desenvolver pensamentos, a fim de atingir o juízo universal. Em meio à diversidade de pensamentos, Sócrates procurou descobrir aquilo que era comum a todos, uma base que não admitisse contestação. 

O bem e o mal. Sócrates pensava que deveria haver um princípio básico do bem e do mal, uma medida que transcendia a toda e qualquer crença do indivíduo. Para ele, o maior bem da humanidade é o conhecimento. Acreditava também que “Nenhum homem é voluntariamente mau”; se souber que uma coisa é boa, preferirá fazê-la. A sua crença era tão intensa que passou a vida toda procurando auxiliar os homens a descobrir o que representa o bem. Daí a frase “Uma vida sem exame não merece ser vivida”. 

O destino e livre escolha. Com conhecimento o homem age de maneira acertada; sem conhecimento, corre o risco de agir com desacerto. Pelo conhecimento, o homem pode ter certa influência sobre o destino e a vida futura. De acordo com sua escolha, o homem pode exercer influência sobre a sorte que o espera. É o começo da crença na liberdade de escolha. No pensamento de Sócrates, muitas pessoas escolhem erroneamente e, em consequência disso, sofrem. Por isso, insistia em transmitir o verdadeiro conhecimento aos seus adeptos. 

O cidadão e o Estado. Sócrates não se cansava de perguntar a todos os que encontrava: “Que é Estado? Que é estadista? Que é governante dos homens? Que é um caráter soberano?” Embora não respondesse às perguntas, explicava que o conhecimento deve ser a preocupação de todo ser humano. O bom cidadão é aquele que, constantemente, está em busca do verdadeiro conhecimento e está sempre indagando. Quando o homem descobre o verdadeiro conhecimento – argumentava – age de acordo com ele e conduz-se com acerto em todas as relações com seus semelhantes. 

O homem e a educação. Sócrates, embora discordasse dos sofistas em muitos aspectos, participava da crença geral de que a educação torna o homem melhor cidadão e, com isso, mais feliz. Mas, ao passo que os sofistas se preocupavam mais com o homem como indivíduo, Sócrates o considerava como membro do grupo. Doutrinava que a coisa mais valiosa que o homem pode possuir é o saber, que se obtém eliminando as diferenças entre os indivíduos e descobrindo os elementos essenciais com os quais todos eles estejam de acordo. 

Para Sócrates, o princípio único, do qual tudo o mais decorre chama-se conhecimento. Esforcemo-nos, pois, na busca incessante do verdadeiro conhecimento.
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São Vitor e o seu Didascálion

Hugo de São Vitor, filósofo, teólogo, exegeta, místico, gramático, criador da Escola de São Vitor, em Paris, por volta de 1127, é o eminente escritor do livroDidascálion – A Arte de Ler, traduzido por Antonio Marchionni. Nesse livro, ele traça um programa de autoconhecimento, baseado na busca da Sapiência, o melhor método para se educar eficazmente. Vejamos alguns de seus ensinamentos. 

Didascálion significa “coisas concernentes à escola”. A sua didática é criar condições favoráveis para se adquirir a sapiência. Embora traduzimos sapiência por sabedoria, esta palavra não retrata fielmente o significado que Hugo lhe empresta. Deveria ser traduzida por Mente Divina, Verbo, Logos, Pensamento Divino. Isto porque, “tudo o que o homem quer saber sobre si mesmo está lá, na sua origem, no seu arquétipo, na sua forma boa, ou seja, na Sapiência”. 

Como o homem chega à Sapiência? Para Hugo de São Vitor, isso se faz em 5 etapas bem definidas: 1.ª) Leitura; 2.ª) Meditação; 3.ª) Oração; 4.ª) Prática; 5.ª) Contemplação. A leitura serve para buscar os conhecimentos, os motivos, os estímulos para a reflexão; a meditação é um discernimento crítico do que se leu; a oração serve para nos fortalecermos em Deus para o agir; a prática é o exercitar-se no bem; por último, a contemplação é a etapa de realimentação para o bem agir.

O que nos diz sobre a escola? Começa nos dizendo que a palavra escola tem sua origem na palavra otium, que pode ser traduzido como: a) não ação, repouso, tempo livre; b) dedicação aos estudos e à expansão da consciência. Observe que otium é, em grego, skholé, que significa pausa, parada, repouso e também colóquio científico, leitura, recitação. Deste último significado a skholé passa a indicar o lugar onde o mestre lê, dá lição, onde se discute, se pensa. Para São Vitor, Otium, é quietude exterior da vida para dedicar-se aos estudos dignos e úteis. O otium representa a verticalidade da vida, o artístico, o religioso, o cultural.

São Vitor pode ser considerado um verdadeiro mestre. Ele demonstra como é importante começar, inicialmente, por um ato de reverência a Deus no sentido de preparar o espírito para o estudo sério. No estudo lembrava ao discípulo a ruminação, a digestão lenta e vagarosa dos novos conhecimentos. Imaginamos que à semelhança de Descartes, ele não pedia aos seus alunos para buscar incessantemente a verdade, mas, ao contrário, que cada procurasse abrir-se à verdade. A sua personalidade contagia de modo saudável todos os que lhe têm contato.

Leiamos, reflitamos e contemplemos. Este é o verdadeiro tripé para forjarmos nossa alma na prática do bem e da virtude. Adquiramos o hábito de perguntar a nós mesmos e, lá no fundo de nossa consciência, teremos as respostas para as nossas dúvidas. 

Fonte de Consulta

SÃO VITOR, Hugo de. Didascálion: Da Arte de ler. Tradução por Antonio Marchionni. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2001. 

São Paulo, 13/11/2002
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Descartes e a Filosofia Moderna

As ideias desenvolvidas por Aristóteles (384-322 a.C.) influenciaram as especulações filosófico-religiosas da Idade Média. Esse período, denominado de Escolástica, retratava a dependência da Filosofia à Religião. Exercitava-se o intelecto, baseando-se nas regras do silogismo. Procuravam explicar logicamente o cristianismo, lutando por excluir o espírito místico do pensamento até então. A finalidade maior era conciliar fé com razão.

René Descartes (1596-1650) insatisfeito com as informações adquiridas dos mestres e dos livros, faz tábua rasa, e, constrói o seu próprio método de obtenção do conhecimento. O verdadeiro ponto de partida da Filosofia cartesiana é a matemática, visto oferecer evidência e certeza. Os princípios incondicionados desta ciência, permite a Descartes romper com o modelo de pensamento estabelecido pela Escolástica.

Para Descartes, a Filosofia depende da matemática. O fato dá origem a uma ideia fundamental: a verdadeira filosofia deve ser um tratado do método. Estabelece, assim, suas quatro célebres regras: 1) não admitir verdadeira coisa alguma que não se saiba com evidência que o é; 2) dividir cada dificuldade em quantas partes seja possível e em quantas requeira sua melhor solução; 3) conduzir ordenadamente os pensamentos, começando pelos objetos mais simples e fáceis de conhecer, para ascender, gradualmente, aos mais compostos; 4) fazer uma recontagem tão integral e razões tão gerais, que se chegue a estar certo de não omitir nada.

Seu método inclui a dúvida metódica. Como se explica? Parte do conhecimento centrado em si mesmo. Dizia: “Cogito ergo sum”, penso, logo existo. Mas o cogito, ao evidenciar a existência de quem pensa, permite estabelecer o seguinte raciocínio: se eu existo, sei que sou finito. Porém, a idéia do finito implica ao mesmo tempo a do infinito. Para Descartes, o infinito é Deus. Descobre Deus pela sua própria razão e não vindo de fora como o Deus de Platão e dos escolásticos.

As regras do seu método, o estabelecimento da dúvida, o conhecimento centrado na razão e o conceito de subjetividade transcendental influenciaram o pensamento filosófico posterior, tendo Spinoza, Malebranche, Leibniz e Kant como seus maiores seguidores. Hoje, a metafísica, traz em seu bojo, as influências cartesianas, quando muda o enfoque dado ao ser para o sujeito.

A Filosofia, ao contrário da ciência, pertence a uma história. Não resta dúvida que Descartes foi um dos grandes construtores dessa História da Filosofia. Estudemo-lo, assim, com mais ardor. 

São Paulo, 01/10/1993
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Sobre o Perguntar

Ensinar a pensar é, em suma, ensinar a perguntar.

Sócrates, na antiguidade clássica grega, inaugurou o método – a maiêutica –, que consistia em perguntar. As suas perguntas não tinham a pretensão de encerrar uma questão ou mesmo de ser a última palavra sobre um determinado problema. Seu objetivo era o de aprofundar o tema proposto. Dizia que, à semelhança de sua mãe, que era parteira e ajudava vir à luz uma criança, ele, através das perguntas, fazia vir à luz novas ideias, novos conhecimentos.

A relação ensino-aprendizagem pressupõe perguntar e responder. O professor, ao ensinar, faz perguntas e verifica se o aluno aprendeu aquilo que lhe foi transmitido. Há um condutor, o professor, ao qual o aluno deve obediência. A educação, porém, difere do ensino propriamente dito, embora faça uso dele. Na educação, todos participam do processo de aprendizagem. Na educação verdadeira, o aluno é quem deveria fazer a pergunta e o professor responder. Somos ensinados a responder e não a perguntar.

A resposta, muitas vezes, bloqueia o processo de construção de conhecimento. Quando já sabemos a resposta, não procuramos aprender mais. O comodismo não nos leva à pesquisa e ao debate sobre o tema, pois já o temos como definitivo. Se, porém, nos colocássemos humildemente numa posição de ouvir o outro, ou de aprender com o outro, com certeza estaríamos incentivando a pergunta, venha ela de onde vier.

O que é uma pergunta filosófica? A questão quem sou eu é uma pergunta filosófica? Depende muito da resposta que lhe dermos. Se simplesmente falarmos o nosso nome, a nossa idade, o nosso estado civil, tudo isso em nada contribui para o filosofar. Para que ela seja fundamentalmente uma pergunta filosófica ela tem a ver com a reflexão sobre o nosso modo de ser, o nosso modo de pensar, o nosso modo de tratarmos a nós mesmos e aos outros.

A pergunta é o foco diretor; ela delimita a resposta. Por isso, temos que reaprender a perguntar. Somente assim vamos dando maior legitimidade à nossa necessidade peremptória de viver. É a pergunta vinda de dentro de nós, do nosso âmago que nos traz o prazer de pesquisar, de buscar, de aprender. Há perguntas e perguntas. Convém, de nossa parte, procurar as perguntas relevantes sem, contudo, ter a pretensão de respondê-las totalmente. O importante é perguntar, pois alguém sempre saberá dar a resposta.

O alvo da filosofia é fazer perguntas certas, não descobrir respostas certas. Procuremos em nossos colóquios, em nossas reuniões de ensino, incentivar o surgimento das perguntas por parte daqueles que estão participando conosco.

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Reflexão e Sabedoria

Reflexão é uma espécie de movimento de volta a si mesmo (re-flexão), executado pelo espírito que põe em pauta os conhecimentos que possui. Sabedoria é uma compreensão superior do mundo e da vida, acumulada através da experiência e da meditação. O trabalho do filósofo é uma ação voltada para a busca do saber. Ironizado e desprezado, vivendo em meio à humildade, à pobreza e à castidade, segue a vocação que o destino lhe traçou.

A sophia da palavra filosofia não é, ao mesmo tempo, ciência e filosofia. É somente o desejo, a procura, o amor dessa sophia. É como estar a caminho. Nesse sentido, Jasper insiste em dizer que a essência da filosofia é a procura do saber e não sua posse. Do mesmo modo Kant afirma: "Não há filosofia que se possa aprender; só se pode aprender a filosofar".

O modelo de reflexão filosófica é maiêutica socrática, ou seja, o ato de interrogar e problematizar. Para a filosofia, perguntar é mais importante que responder, pois uma reposta suscita outra pergunta. Sócrates, criador do método, afirmava nada saber. Isto significa dizer que a matéria de reflexão não é o seu saber, mas o conhecimento que o interlocutor tira de si mesmo no transcorrer do dialogo.

A solidão do filósofo adquire todo o seu sentido. Preocupado com o conhecimento rigoroso e desinteressado, não se integra a nenhum meio. É como um inquilino no quarto de hotel. Sua consciência inquieta e insatisfeita lhe determina sua ação, muitas vezes, estranha aos demais seres humanos. Mas, isto nada mais é do que o ardor pela busca da verdade.

Segundo Nietzsche, as virtudes ascéticas — humildade, pobreza e castidade — constituem o misterioso sentido da vida de um filósofo. Isento de desejos, volta-se para a aquisição da verdade, tendo a certeza de que não a alcançará totalmente. A humildade filosófica consiste em dizer que a verdade não pertence mais a mim que a ti, mas se encontra diante de nós.

A reflexão, no âmbito da filosofia, é o elo de ligação para a conquista da sabedoria. Faz-nos ir além da ciência e da técnica, proporcionando-nos o contato com os conhecimentos superiores de nossa esfera.

Fonte de Consulta

HUISMAN, D. e VERGEZ, A. Compêndio Moderno de Filosofia.Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1966.

São Paulo, 23/09/1994
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Filosofia: Algumas Notas

As pessoas, em geral, tem uma impressão negativa da filosofia. Dizem que “a filosofia é a ciência pela qual ou sem a qual continua tudo igual”, “a filosofia é um saber especulativo inútil, que em nada contribui com a ciência e o conhecimento”. Há também algo genuinamente filosófico contado por Platão sobre Tales: "Enquanto observava as estrelas, olhando para o alto, Tales caiu em um poço. Presenciando o acontecido, uma espirituosa serva trácia diz-lhe gracejos: ele queria saber o que havia céu, mas permanecia-lhe oculto o que estava diante dele e a seus pés".

A filosofia precisa recobrar a sua originalidade, pois a sua profissionalização nos centros acadêmicos tem sido indigesta pelos demais seres humanos, principalmente pelas crianças e jovens. Se os filósofos contemporâneos colocassem o diálogo como centrum da filosofia eles facilmente substituiriam o caráter sisudo, acadêmico, hierático e hermético em que filosofia se transformou ao longo do tempo.

A sociedade, nos dias atuais, instrumentalizou-se e não dispõe de tempo para os arroubos filosóficos. O ser humano esta tão preso às aparências e aos formadores de opinião que abdicou do seu exercício de pensar. Pensar dá trabalho porque temos que romper com o comodismo e debruçar sobre os problemas que se nos apresentam tentando dar uma solução racional.

Sócrates, ao praticar naturalmente a filosofia, tinha um objetivo claro e definido: transformar opiniões em conceitos que, em outras palavras, é transitar da doxa para aepisteme. A filosofia não é conversação espontânea, pois esta ficaria sujeita apenas à discussão infindável sobre pontos de vista de um ou do outro litigante. O objetivo da filosofia é passar dessa opinião aos conceitos claros e límpidos como bem dizia descartes em seu Discurso do Método.

Olhemos criticamente o ensino da filosofia. Muitas vezes diz-se que a filosofia é contemplação, reflexão e comunicação. Isso não é verdade. Essas palavras referem-se mais a uma técnica do que à filosofia propriamente dita. Observe que contemplar não é criar, refletir pertence a todo o mundo e comunicar nada mais faz do que divulgar o consenso. Em outras palavras, a filosofia se utiliza dessas ferramentas como qualquer outra atividade intelectual.

Em filosofia, deve-se dar ênfase à discussão e não à exposição. Os participantes de uma reunião filosófica não devem ser passivos, ficar simplesmente ouvindo os outros. Eles devem também expressar as suas opiniões para poderem chegar ao conceito. Para tanto, não devemos nos envergonhar de buscar subsídios com os chamados mortos, tais como Sócrates, Platão e outros. Auguste Comte, o pai da sociologia, criou a sua religião natural que não era mais do que uma volta aos ensinos dos grandes pensadores desde a antiguidade até os dias presentes.

A filosofia é um tesouro oculto que ninguém poderá nos roubar. É um consolo na falta de tudo o mais, tal como emprego, família e amigos. Quanto menos coisas exteriores tivermos mais tempo teremos para nos dedicar às coisas do espírito. Em principio, não precisaríamos de mais nada porque, a filosofia, embora faça uso de tudo o mais, basta-se a si mesma. Seu principal objetivo é fazer o homem voltar-se para dentro de si mesmo no intuito de conhecer a sua própria ignorância e com isso educar-se para a vida de relação.

A filosofia é um contínuo perguntar. O ensino formal favorece mais as respostas do que as perguntas. Contudo, no âmbito da filosofia, deveríamos ensinar o aluno a perguntar. As perguntas mostram não só o estado de espírito do aluno como também o torna proativo, no sentido de ele mesmo buscar o conhecimento de que precisa e não esperando que venha do outro, o que fez a pergunta e tenta passar as suas informações para frente. A pergunta também revela uma virtude, ou seja, a virtude da humildade, porque nos coloca na condição de ouvir o outro, ouvir aquele que supostamente saiba mais do que nós.

Escolhamos sempre a filosofia como a nossa orientadora na vida. Cuidemos, contudo, que ela esteja sempre abaixo de Deus, para que a fé esteja sempre secundada pela razão e não o contrário.

Fonte de Consulta

FÁVERO, Altair Alberto et all. (Org.) Um Olhar sobre o Ensino de Filosofia. Rio Grande do Sul: Unijuí, 2002. (Coleção filosofia e ensino)

Um pequeno diálogo:
— O que senhor faz? — indaga o camponês.
— Sou professor de filosofia.
— Isso é profissão?
— Por que não? Acha estranho?
— Um pouco!
— Por quê?
— Um filósofo é uma pessoa que não liga para nada... Não sabia que se aprendia isso na escola.
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