21 outubro 2017

Filosofia e Antifilosofia

"Quem não filosofa pela filosofia, mas se serve da filosofia como meio, é um sofista". (F. Schlegel, Fragmentos do "Athenaeum")

Platão, em A República, diz que o homem vil e superficial não pode ter nenhuma comunicação com a filosofia. A filosofia não é opinião, mas a busca da arché, o Princípio de todas as coisas. A filosofia deve ser entendida, hoje e sempre, como a busca ou amor da verdade. A filosofia surge como diálogo de pensantes e se comunica pelo logos. 

O diálogo foi descoberto por Parmênides, Sócrates e Platão. O antidiálogo surgiu com os sofistas Protágoras, Górgias e Trasímaco. Os primeiros são os amantes do logos; os segundos, "amantes da opinião" ou filodoxos. Há, também, os "clássicos da doxa" ou da antifilosofia: Montaigne, Hume, Kant, Locke e Marx. Estes e outros são tentados a "revolver o logos próprio do homem e o Logos que é Deus fazendo-os ceder à "tentação" ratio-vitalística do mundano e, por isso, da opinião multíplice". 

Os sofistas preparavam para a carreira política e para o exercício de cargos públicos. Na época moderna, John Locke foi o começo desse novo período de erros e falácias. De um erro elevado a princípio nascem novos erros. Rosmini diz que o século XVII foi uma das idades "quase consagradas ao erro". Nesse sentido, o verdadeiro pensador deve ter a coragem de libertar a filosofia dos inúteis vínculos com o erro e a mentira. 

Um diálogo com concessões recíprocas já tem um vencedor: o erro. Há um só diálogo: o da verdade e com a verdade. De tanto respeitar o espírito humano, tem-se reverência pelo erro. A tolerância se exercita para com pessoas e não para com sistemas. A mente, quando se trata da lógica, da coerência, opõe-se à contradição. 

A verdade não se aprende com os sentidos. Este é o nó solfístico que deve ser combatido. Santo Tomás, em Summa contra Gentiles, livro II, c. LXVI, explica a diferença entre sentido e intelecto. Para ele, o sentido se encontra em todos os animais, está limitado às coisas materiais e não consegue conhecer a si mesmo. O intelecto está no homem, vai além das coisas materiais e pode refletir sobre si mesmo. Acrescenta que a metafísica, como ciência das causas primeiras, que os sentidos não podem conhecer. 

Saibamos diferenciar a filosofia da antifilosofia, o diálogo do antidiálogo, a verdade do erro. Por isso, a reflexão, o exame e a ponderação do bom senso. 

Extraído de 


SCIACCA, Michele Federico. Filosofia e Antifilosofia. Tradução de Valdemar A. Munaro. São Paulo: Realizações Editora, 2011. 
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O Trivium e as Artes Liberais

"As artes liberais denotam os sete ramos do conhecimento que iniciam o jovem numa vida de aprendizagem." 

O Trivium e o Quadrivium, conhecidos como as Sete Artes Liberais, eram o conjunto de estudos que, na Idade Média, antecedia o ingresso na Universidade. Trivium significa o cruzamento de três ramos ou caminhos e tem a conotação de um "cruzamento de estradas" acessível a todos. Quadrivium significa o cruzamento de quatro caminhos. 

O Trivium (Gramática, Lógica e Retórica) diz respeito às coisas da mente. O Quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia) diz respeito às coisas da matéria. Para Hugo de São Vítor (1096-1141), no Didascálion, "a gramática é a ciência de falar sem erro. A dialética é a disputa aguda que distingue o verdadeiro do falso. A retórica é a disciplina para persuadir sobre tudo o que for conveniente". 

Um estudo sobre o trivium da Idade Média leva-nos a comparar a educação contemporânea, que se fundamenta em produzir documentos (diplomas) daquela que se baseava nas artes liberais, em que o individuo procurava o conhecimento por sua livre e espontânea vontade. Nos tempos das "trevas", a educação tinha por objetivo retirar o indivíduo de seu comodismo e apresentar-lhe o mundo como ele é. 

No trivium, temos: Lógica é a arte de pensar; Gramática, a arte de inventar e combinar símbolos; Retórica, a arte de comunicar. A retórica assume papel preponderante, pois faz uso da gramática e da lógica, para comunicar os pensamentos e os conhecimentos.

A educação liberal é a mais nobre das artes, pois foca a mente do aprendiz. O aluno não recebe passivamente as informações. Ele é convidado a relacionar os fatos aprendidos com um todo unificado. Não é acumular fatos, informações, mas produzir conhecimento, pensar sobre os dados e tirar suas próprias conclusões. 

Fonte de Consulta

JOSEPH, Miriam. O Trivium: As Artes Liberais da Lógica, da Gramática e da Retórica. Entendendo a Natureza e a Função da Linguagem.  Tradução e Adaptação de Henrique Paul Dmyterko. São Paulo: É Realização, 2008.  

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12 julho 2017

Hegel e a Dialética

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) foi um filósofo alemão. O pano de fundo de sua filosofia é o idealismo absoluto, que já fora ventilado por outros filósofos, entre eles Schelling, mas somente com Hegel atinge a sua maturidade. No pensar absoluto, há uma identidade entre sujeito e objeto: "O absoluto é sujeito". 

Dialética. Na filosofia antiga e medieval é um sinônimo da lógica ou da arte de argumentação. Pode-se dizer que é a arte de discutir, a arte do diálogo. Como, porém, não discutimos só com os outros, mas também conosco próprios, ela acaba sendo considerada o método filosófico por excelência. Entre os gregos, chamava-se ainda dialética à arte de separar, distinguir as coisas em gêneros e espécies, classificar ideias para poder discuti-las melhor. 

A dialética platônica diferencia-se da dialética hegeliana. A dialética platônica encontra-se no mito da caverna: há homens voltados para o fundo da caverna, que só veem sombras. Um deles se vira (o filósofo) e busca a luz, ou seja, o conhecimento. Hegel, por sua vez, entende a dialética da seguinte forma: 1) cada coisa seria a união de opostos; 2) cada mudança origina-se em oposição (ou "contradição"); 3) qualidade e quantidade mudam uma na outra. 

Hegel parte da Tese  Ser, indeterminado, absoluto, pura potencialidade, o qual deve se manifestar na realidade através da Antítese  Não-Ser. Na contradição entre tese e antítese surge a Síntese  Vir-a-Ser. Esse raciocínio é aplicado tanto à aquisição de conhecimento quanto à explicação dos processos históricos e políticos. Para ele, a verdadeira ciência do pensamento coincide com a ciência do ser.

Bunge, em seu Dicionário de Filosofia, critica a dialética hegeliana:

  • "As partículas elementais são os contra-exemplos da primeira "lei". Cada caso de cooperação na natureza ou na sociedade arruína a segunda. A terceira "lei" é ininteligível na forma como se apresenta";
  • "A única lei dialética: em cada processo qualitativo, ocorrem (podem ocorrer) mudanças e, uma vez realizadas, novos modos de crescimento ou declínio começam. Ela não envolve o conceito de contradição, que é marca registrada da dialética".  

Comparemos a dialética da ideia de Hegel à evolução do princípio espiritual através da matéria, em Kardec. De acordo com Hegel, o espírito evolui, passando por sucessivas sínteses, tal qual o desenvolvimento de uma planta: semente, botão, fruto, novamente semente, ... De acordo com Kardec, os Espíritos são criados simples e ignorantes e, em cada reino da natureza, vão potencializando virtudes, até atingirem o estado de Espíritos puros, quando, então, não terão necessidade de reencarnar novamente.

Fonte de Consulta

BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo: Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

TEMÁTICA BARSA - FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.
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21 junho 2017

Tempos de Transição

Para grande parte dos pensadores esotéricos, o nível de inconsciência do ser humano é muito grande. Na grandes cidades, a violência aumenta assustadoramente; a corrupção dos organismos sociais está desenfreada, com políticos trafegando cotidianamente pelo ilícito com a maior naturalidade; os desequilíbrios psico-sociais são cada vez mais constantes; muitos escravizam e até matam por causa do dinheiro.  

São poucos os habitantes deste planeta que já adquiriram um nível de consciência exemplar. A grande maioria está presa ao egoísmo, ao esforço de posse, à guerra e à obtenção dos bens pela força ou pelo menor esforço. Contudo, há uma minoria que já despertou para a espiritualidade, para as ideias superiores do bem. Estes são os que dão sustentação ao mundo. 

Para entender e fazer parte dessa transição, temos que nos apresentar com a mentalidade aberta. Suponha a tese da existência de "disco voadores". Podemos, inicialmente, ignorar a existência deles, principalmente devido aos nossos racionalismos. Mas, o princípio científico pede que nos inteiremos da situação, que leiamos as obras que tratam do tema para, somente depois, emitir um juízo de valor. 

A preparação para uma nova era, a chamada "era do aquário", exige do ser humano um desprendimento da posse, um grau elevado de compaixão para com o próximo, no sentido de evitar todo o tipo de separação, principalmente do nós contra eles, ou de nosso credo contra o credo do outro. Por isso, a autoconsciência, já preconizada por Sócrates na Grécia antiga, é de suma importância para o nosso processo de evolução espiritual.

Tudo evolui, inclusive o planeta Terra. Se quisermos pensá-lo em termos espirituais, ele é o resultado de todos os pensamentos dos terráqueos. Nesse sentido, como o nível de pensamento não é dos melhores, pode-se supor que o seu envoltório fluídico seja de baixa qualidade. Como o planeta evolui, nós temos que evoluir para poder acompanhá-lo.  

Perseveremos no bem e façamos parte dessa minoria pensante, a fim de darmos a nossa contribuição ao progresso deste planeta que nos serve de morada transitória. 
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Cruzadas

As Cruzadas (em número de oito) foram expedições militares (1096 a 1271), empreendidas por cristãos da Europa Ocidental, com o objetivo de libertar o Santo Sepulcro, onde Jesus teria sido sepultado, do domínio muçulmano. Extensivamente, diz respeito aos movimentos de sentido idealista, visando à elevação espiritual dos membros de uma comunidade ou à solução de problemas sociais graves, como o do pauperismo e o da educação. 

O termo "cruzada" não aparece antes do século XIII e seu correspondente árabe (hurub assalibiyya = a guerra pela cruz) data de 1850.  Diante dos orientais, é uma guerra como tantas outras. Como os peregrinos se consideravam "soldados de Cristo" e "marcados pelo sinal da cruz" (crucessignati, em italiano), foi desta última expressão que se formou, por volta da metade do século XIII.  (Morrison, 2009, p. 7)

As Cruzadas tiveram dois tipos de causas: a) causa afastada, que se refere às constantes peregrinações individuais a Jerusalém; b) causa próxima ou um pretexto, levar socorro aos cristãos orientais que estavam sendo oprimidos pelos turcos, segundo se acreditava.

As Cruzadas, ao adquirirem características de uma expedição militar, precisava de justificativas jurídicas para o financiamento de tal empreendimento. Nesse caso, pelo "privilégio da cruz", a Igreja concedia indulgência aos cavaleiros que participassem do projeto. Concedia, também, indulgência aos que contribuíssem com legados e doações. Para completar seu financiamento, a Igreja estabeleceu o pagamento do dízimo, isto é, a décima parte dos benefícios ou das colheitas.

Desde a Primeira Cruzada, algumas pessoas consideravam loucos todos os que nelas partiam. No século XIII, após o aparecimento das "cruzadas desviadas" contra os heréticos, carismáticos e inimigos políticos do papado, as críticas de todo o tipo se multiplicavam. Inclusive com relação aos impostos cobrados para o financiamento de todas as cruzadas.

O Espírito Emmanuel, em A Caminho da Luz, diz que as Cruzadas, não obstante o seu caráter anticristão, sob a égide dos mensageiros de Jesus, este movimento propiciou alguns benefícios de ordem econômica e social para todos os povos. Na Europa, enfraqueceu a tirana dos senhores feudais. Intensificou, também, as relações entre Oriente e Ocidente. O contato com um civilização superior à dos ocidentais propiciou o estudo de suas ciências, da sua agricultura e da sua arte, incorporando várias dessas práticas à industria ocidental. 

Embora tenha sido um fracasso do ponto de vista político, permaneceu o ideal específico das cruzadas, ou seja, uma guerra "justa", limitada à libertação do Santo Sepulcro, pelo "Caminho da Cruz".

Fonte de Consulta

EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

MORRISSON, Cécile. Cruzadas. Tradução de William Lagos. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009 (L&PM Pocket Encyclopaedia). 
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01 novembro 2016

Teosofia


Teosofia. Etimologicamente, vem do grego theosophia. Significa comunicação com Deus, conhecimento de Deus ou ciência das coisas divinas. Foi usada em diversos sentidos, tanto na cabala quanto no neoplatonismo. O mais comum é remontar ao panteísmo emanantista inspirado no budismo e no hinduísmo, pregado inicialmente pela teosofista russa Helena Petrovina Blavatsky (1831-1891); depois pela inglesa Annie Wood Besant (1847-1933).

A Sociedade Teosófica foi fundada por Helena Blavatsky e H. S. Olcoott em 1875. Ao longo do tempo, houve algumas dissidências, principalmente após a morte de Blavatsky. Em termos práticos, somente aos iniciados é facultado o conhecimento secreto. Acreditam na reencarnação e na lei do karma. Depois da morte física, o espírito passa pelo purgatório, onde sofre modificações que o fazem penetrar no Devakhan, uma espécie de paraíso. É do paraíso que se dá a reencarnação em um novo corpo.

O êxito de Blavatsky e, concomitantemente da Sociedade Teosófica, foi o de adaptar o seu ocultismo às necessidades dos seres humanos, pois o Iluminismo e a ciência tinham desviado as pessoas da religião e de Deus. A teosofia despertava a esperança num mundo melhor. Observe que os autores teosóficos,  além de aceitarem o conhecimento intuitivo (ou místico) de Deus, mas sem revelação, acreditavam também que todas as crenças têm um fundo comum, que se consubstancia na compaixão e na fraternidade universal.

De acordo com Alfredo Nieva, em sua Enciclopédia de Conhecimentos Esotéricos, "A teosofia não é nem uma seita, nem uma religião, nem uma filosofia, nem um partido, nem tem cor política determinada, senão um reflexo da Sabedoria Divina, da Sabedoria de Deus (que é o significado etimológico da palavra Teosofia e não a sabedoria dos deuses), se sobressai acima de todas as religiões, escolas, partidos, filosofias e ciências, para do ápice do discernimento sinalar os pontos de contato e coincidência e conciliar as discrepâncias entre as manifestações do pensamento humano, a fim de encontrar uma unidade na aparente diversidade".

A sociedade teosófica admite representantes de qualquer crença religiosa. O seu objetivo é enaltecer a verdade e combater a superstição, a perseguição, a falsa ciência, o fanatismo. Proclama que, por mais divergentes que possam ser as crenças, todas elas se assentam em uma única verdade, ou princípio fundamental, que é a Sabedoria Divina dos grandes instrutores do mundo, contida na Bíblia Cristã, nos Vedas, em Pitágoras, em Sócrates. 



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13 setembro 2016

Cegueira do Real

A peça "Boubouroche" (1893) de Georges Courteline, reportada no livro O Real e seu Duplo, de Rosset, é um exemplo da cegueira do real, da ilusão. 

Resumo da peça: Boubouroche instalou a sua amante, Adèle, em um pequeno apartamento. Um vizinho de andar de Adèle previne caridosamente da traição quotidiana de que é vítima este último: Adèle partilha o seu apartamento com um jovem namorado que se esconde num armário toda vez que Boubouroche visita sua amante. Louco de raiva Boubouroche irrompe numa hora inabitual e descobre o amante no armário. Cólera de Boubouroche, à qual Adèle responde com um silêncio desgostoso e indignado: "Você é tão vulgar", declara ao seu protetor, "que não merece nem a mais simples explicação que logo teria dado a outro, se ele tivesse sido menos grosseiro. É melhor nos separarmos". Boubouroche admite os seus erros e perdoa Adèle. Moral da história: Boubouroche, mesmo desfrutando de uma visão correta dos acontecimentos, mesmo tendo surpreendido o seu rival no esconderijo, continua a acreditar na inocência da sua amante.

Reflexão de Rosset:

Imaginemo-nos apressados num volante, quando surge o sinal vermelho. Ao esperarmos o sinal verde, estamos aceitando o real. Por outro lado, podemos ignorar o sinal vermelho e continuarmos o nosso caminho. Este ato assemelha-se ao Édipo furando os próprios olhos. Isso também pode causar dano à nossa consciência, levando-nos ao suicídio. Há, ainda, um outro modo de atuar: percebemos que o sinal está vermelho, mas concluímos que é a nossa vez de passar.

O raciocínio que tranquiliza pode ser expresso da seguinte forma: "Há um rapaz no armário — logo Adèle é inocente, e eu não sou cornudo". Esta é, na verdade, a estrutura fundamental da ilusão: uma arte de perceber com exatidão, mas de ignorar a consequência. 

A técnica geral da ilusão é transformar uma coisa em duas, exatamente como a técnica do ilusionista, que conta com o mesmo efeito de deslocamento e da duplicação da parte do espectador: enquanto ocupa com a coisa, dirige o seu olhar para outro lugar, para lá onde nada acontece. Como Adèle para Boubouroche: "É bem verdade que há um homem no armário — mas olhe para o lado, ali, como amo você". 

Diz-nos que aceitamos o real, mas quando o nível de tolerância é suspenso, já não o queremos mais ver. Daí partirmos para uma recusa do real.

ROSSET, Clément. O Real e seu Duplo: Ensaio sobre a Ilusão. Tradução de José Thomaz Brum. Porto Alegre, RS: L&PM, 1976. 

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12 setembro 2016

Filosofia para Iniciantes CD

NOTAS EXTRAÍDAS DO CD "Filosofia para Iniciantes", em que Sílvia Sibalde entrevista Wesley Dourado, professor e coordenador do Curso de Filosofia da Universidade Metodista de São Paulo.

O ato de filosofar é debruçar-se sobre a realidade no intuito de procurar aquilo que não está imediatamente dado à nossa percepção. É ir além daquilo que aparece à superfície. 

A filosofia não busca a verdade, mas verdades. Seria como descobrir as verdades de uma dada comunidade.

O ser humano é questionador por natureza. Observe as crianças: estão sempre fazendo perguntas que podem deixar os mais velhos sem respostas. A realidade que nos cerca faz-nos questionar a todo o momento: política, religião, relacionamentos. Não convivemos muito bem com o mistério. 

As questões são sempre as mesmas ou mudam ao longo do tempo? Algumas questões permanecem, tais como a ética, a existência, o ser. As perguntas são as mesmas, mas as circunstâncias em que as respondemos são outras. 

A função da filosofia é preparar a pessoa para viver bem em sociedade. É o espaço para a crítica e criatividade, onde os indivíduos pensam o seu lugar no mundo. 

A filosofia se torna muitas vezes incompreensível porque deixa de lado o momento presente e preocupa-se com sua história, com os escritos de filósofos famosos. Hoje, há uma tendência de olhar a filosofia como uma tarefa do pensar e não propriamente uma volta ao passado. São os problemas do nosso momento, do nosso lugar que provocam o diálogo.

A filosofia contribui para a felicidade quando mostra que a pobreza, a velhice, a exploração infantil são problemas e que precisamos debruçar sobre eles. 

A princípio não há incompatibilidade entre fé e filosofia. Tanto Santo Agostinho quanto São Tomás já haviam demonstrado. Há, contudo, uma incompatibilidade com a fé televisiva, aquela que se vende como produto de supermercado.

O filosofar deve começar pelo próprio indivíduo, verificando quais são as suas dúvidas, as suas questões, tanto como indivíduo como alguém que se reconhece parte de uma sociedade. Depois, procurar na filosofia alguém que possa conversar sobre isso. Há textos na Internet que podem ajudar nesse trabalho. Exemplo: Scielo.

A filosofia surgiu no século VI a.C. Entre as diversas explicações sobre a origem da filosofia, cita três razões: 1) gosto pela associação; b) gosto pela opinião; c) sentido de pertença. Para tanto, faz referência ao Banquete de Platão. Antes disso, havia o mito. O mito explica a realidade como sendo consequência das forças e dos poderes divinos.

Os pré-socráticos, chamados de sábios, estão num processo transição entre o mito e a nova forma de fazer filosofia. A pergunta é a mesma da mitologia, ou seja, queriam saber a origem das coisas. Só que buscam a resposta não nos deuses, mas no uso da razão. 

Diz-se que a profissionalização da filosofia surgiu com os sofistas, que cobravam por seus ensinamentos. Não é verdade. A profissionalização é dos nossos dias. Na época, os sofistas ensinavam retórica, que é a arte do convencimento, aos jovens e, para tanto, recebiam em troca dinheiro. Sócrates ensinava, mas não cobrava. 

"Só sei que nada sei" é uma frase-chave no pensamento filosófico. O aparecimento de Sócrates implica o rompimento com os sofistas, com os políticos que tinham um pensamento muito raso e com os naturalistas, que estavam preocupados com a origem das coisas. Esta frase mostra que só Deus sabe e o sábio é aquele que reconhece que não sabe. A grande contribuição de Sócrates foi mudar a pergunta sobre a origem das coisas para o que é o ser humano. Ao se debruçar sobre essa questão vai se enverando pela politica,pela ética que são elementos da convivência humana. 

Na obra de Sócrates, há o termo "espanto", não apenas com relação à filosofia, mas as coisas de um modo geral. O ensino da filosofia se dá quando há o espanto, a admiração, que se poderia chamar de provocação. O aprendizado e o ensino da filosofia é provocar o espanto; depois, tentar decifrá-lo. 

A importância de Aristóteles nos dias atuais está na permanência dos problemas que ele enfrentou, porém em outra dimensão: ética, política, formas de governo etc. 

São Tomás Aquino retoma o pensamento de Aristóteles, mas precisamente na ética. A ética de Aristóteles fundamenta-se na felicidade, que é o bem maior. Não é qualquer felicidade, mas aquela que se alcança com a atividade racional, que ele chama de eudemonismo, cuja raiz está na justa medida. São Tomás também se baseia nesse eudemonismo. Só que a felicidade deve estar em consonância com o divino e, no caso, o Deus cristão.

Maquiavel, em O Príncipe, diz que sua obra é um pensar, um cogitar sobre o modo de governar. Primeiramente, rompe com o pensamento da Igreja, esclarecendo que o poder não é divino. Observando os príncipes, anota alguns parâmetros para que os príncipes consigam governar com êxito. Em certo momento, diz que não é possível o exercício do poder sem alguma violência. Não que ele defenda a violência. 

Pouco valorizado em vida, o tempo para a obra filosófica de Friedrich Nietzsche estava ainda por chegar. O motivo é simples: a Igreja e a racionalidade filosófica tinham grande influência na época. Para ele, viver a vida é dar espaço para os instintos, os desejos, a subjetividade. 

O existir em Descartes não é o mesmo que o existir em Jean-Paul Sartre. Para René Descartes, o existir estava atrelado ao pensar: Cogito ergo sum. Para Sartre, primeiro nós existimos; depois nos definimos. A existência é uma construção humana que não está restrita ao pensar. Estamos condenados à liberdade. Escolhemos o rumo do nosso existir. 





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10 setembro 2016

Filosofia: As Chaves do Pensar CD

NOTAS EXTRAÍDAS DO CD "Filosofia: As Chaves do Pensar — Questões Filosóficas Essenciais que Estimulam a Mente e Enriquecem o Espírito", em que Sílvia Sibalde entrevista o filósofo Carlos Matheus, professor e doutor em filosofia.

A filosofia nasceu aproximadamente em 600 a.C., na área oriental da Grécia, que antigamente era chamada de Ásia Menor (hoje Turquia), na região de Mileto. Os primeiros filósofos foram Tales de Mileto, Anaximandro e Anaxímenes. 

A filosofia nasce de um saber sobre o mundo, não necessariamente de uma insatisfação. Já havia muitas explicações sobre o mundo: cosmogonias, religiões, fábulas, mitos etc. Esses primeiros filósofos foram também cientistas pois procuravam refletir sobre a origem das coisas e do mundo. Tales, por exemplo, procurava o elemento primordial, aquilo que originava tudo o mais. Para ele, esse elemento seria a água. 

Tales, Anaximandro e Anaxímenes são os iniciadores do processo de reflexão racional sobre a origem das coisas. Além desses, destacam-se Heráclito (ênfase no movimento), Parmênides (ênfase no fixo, representando um contraponto a Heráclito), Empédocles (atração e repulsa, ou seja, as forças se atraem ou se repelem) e Anáxagoras (razão universal - noumeno). 

A Grécia dedicou-se à pedagogia, ou seja, produzir e transmitir conhecimentos. Esta era a função dos sábios, chamados de sofistas, cujo ofício era uma profissão, pois cobravam pelas suas aulas. Sócrates se contrapõe à profissão dos sofistas, pois tinha esse ofício como missão. Os sofistas que se destacaram foram Górgias e Protágoras.

Sócrates, Platão e Aristóteles sobreviveram. Os trabalhos dos filósofos anteriores se perderam (inundação, incêndio...). Embora Sócrates não escrevera mada, o seu pensamento foi levado adiante por seu discípulo Platão. Saliente-se, também, o fato de Platão ter um lugar fixo para os seus estudos: a Academia (Jardim de Academus). Aristóteles, embora discípulo de Platão, representa um contraponto ao seu mestre. Por divergências com a Academia, funda a sua própria escola, chamada de Liceu.  

Idade Média começa em 453, com a última invasão romana, e termina em 1453, com a tomada de Constantinopla pelos turcos. É um período sombrio, intermediário entre o mundo grego-romano e o mundo moderno. Pode-se dizer que os medievais não sabiam que eram medievais. O começo da Idade Média deu-se sob a influência de Santo Agostinho (354-430), que captou o cristianismo e a filosofia platônica. Na Alta Idade Média, o pensamento de Aristóteles passou a ser conhecido. Santo Tomás de Aquino (1225-1274) faz uma síntese perfeita entre Agostinho e Aristóteles. Para Tomás de Aquino, Aristóteles era "o filósofo". 

Com o surgimento de Nicolau Copérnico e Galileu, a filosofia toma outro rumo. Até então o mundo era finito. A partir daí, concebe-se um universo infinito, que se move por si mesmo, ocasionando um choque com a tese cristã. A ciência busca uma autonomia, rompendo com a Igreja. 

Os filósofos pré-socráticos eram sábios, ou seja, cientistas. Sócrates rompe essa postura dizendo-se filósofo, isto é, não o que sabe, mas o amante do saber. A partir daí, ciência e filosofia acabam indo para caminhos opostos. 

A filosofia parece hermética. É que na filosofia há palavras técnicas para descrever o pensamento. Hegel lembra-nos: quem tiver dificuldade de entender os textos filosóficos, leia-os duas ou três vezes. 

A filosofia deve sempre situar-se entre o ceticismo e o dogmatismo.

Todo o ser humano é potencialmente filósofo. A dúvida sobre a morte, sobre a vida, sobre o relacionamento é uma forma de filosofar.

De onde viemos e para onde vamos é a questão angustiante da filosofia de hoje e de sempre.

Vivemos entre a busca da verdade e a impossibilidade de alcançá-la na sua totalidade.

A filosofia assemelha-se a um edifício, que deve ser construído e reconstruído. Os problemas são permanentes, mas podemos vê-los sob uma nova ótica.

A filosofia caminha em direção ao ser humano, na reflexão entre o que somos e o que queremos ser.
 



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08 setembro 2016

Suicídio e Filosofia

O problema central: Se a vida não nos pertence, se não escolhemos o momento de nascer, o que nos autorizaria então a deixá-la quando assim deliberássemos?

O que é o suicídio? Por que algumas pessoas são levadas a este ato extremo? Como surgiu esta palavra? O que a filosofia tem a dizer? E a filosofia espírita? Com estas simples questões, iniciamos a nossa reflexão sobre este assunto que, na acepção de Albert Camus é o único problema filosófico verdadeiramente sério. 

O termo suicidium surgiu no século XVII. Esta palavra leva-nos a fazer uma associação entre matar a si mesmo e o homicídio. Agostinho, por exemplo, analisa esta palavra em termos do sexto mandamento: "não matarás". Nas lucubrações genealógicas, procura-se distinguir o matar a si do sacrifício (ou martírio). Os primeiros cristãos buscavam o martírio. Seria um caso de suicídio ou de martírio? E a morte de Sócrates, guiada por seu daimon? 

Na Antiguidade havia argumentos pró e contra a morte de si. Sócrates dizia que viver é aprender a morrer. Os jovens podem supor que isso é um convite a evadir-se da vida. Aristóteles atrela a morte de si à cidade. Quem assim procedesse, não deveria ter enterro digno, e os corpos ficariam insepultos. A posição hedonista de Epicuro sobre a morte voluntária está assentada na sua doutrina da indiferença: o sábio não deve nem rejeitar a vida nem temer a morte.

Na Idade Média, marcada pelo predomínio da escolástica e dos dogmas religiosos, assiste-se a uma grande interdição da morte. As ideias do fogo do inferno para quem desobedecesse a normas da Igreja pesavam muito nas atitudes e comportamentos dos fiéis. Como dissemos acima, Agostinho referia-se ao sexto mandamento: "não matarás". Tomás de Aquino, por seu turno, reúne argumentos gregos (Platão e Aristóteles) e cristãos (Agostinho) para refutar enfaticamente a morte de si mesmo.

Passada a fase obscura da Idade Média, novas ideias surgem, principalmente aquelas estimuladas pelo Iluminismo, ou a Idade da Razão, cujo objetivo é combater as ideias centralizadoras da Igreja. Nietzsche, no discurso de Zaratustra sobre a morte livre, diz: Muitos morrem demasiadamente tarde e outros demasiadamente cedo. Ainda soa estranha a doutrina:'morra no tempo certo!'. Morra no tempo certo: assim ensinava Zaratustra."

Qual a posição espírita ante o suicídio? De acordo com a Lei Natural, Deus nos concedeu a vida e não podemos tirá-la por nós mesmos. De qualquer modo, temos o livre-arbítrio, o que pode nos levar a cometer o suicídio. Mesmo contrariando a Lei de Deus, no suicídio há que se considerar os atenuantes e os agravantes, ou seja, o ato de tirar a própria vida tem várias dimensões: há que se considerar o motivo, as influências dos amigos, os revezes que poderiam ser evitados, entre outros. 

Em síntese, os argumentos a favor e contra a morte de si devem ser analisados à luz da nossa consciência. No Espiritismo, a certeza da vida futura nos dá condições de saber que seremos menos ou mais feliz de acordo com a resignação que tivermos suportado os sofrimentos aqui na Terra. 


Fonte de Consulta

PUENTE, Fernando Rey (Org.). Os Filósofos e o Suicídio. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.






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